Augusto dos Anjos é um dos ícones da literatura brasileira. Poeta pré-modernista, é mais conhecido pela sua obra máxima, Eu e outros poemas, trazendo consigo um clima obscuro e pessimista.

Um destes poemas, O Morcego, fez com que o quadrinista Sávio Roz – um fã convicto do Batman – traduzisse para a arte-seqüencial a sua visão de tal soneto tendo como protagonista (ou o Eu-lírico – porque não?) o Cavaleiro das Trevas.

Confira abaixo uma apresentação escrita pelo próprio Sávio:

 

Meu primeiro contato com o Augusto dos Anjos se deu numa pesquisa para trabalho de colégio, da matéria Literatura, onde foi escolhida uma obra por aluno e através da leitura de informações e características se pudesse definir sua tendêncialiterária. Nesta seleção, entre tantos trabalhos do autor em diversas fases de sua vida, foi na inspiração de Edgar Allan Poe e seu O Corvo que o poeta do Hediondo, Augusto dos Anjos, fez O Morcego.

Mas na minha primeira leitura, entre tenebrosas intercalações de Dráculas e do próprio poema O Corvo, veio a visão de Batman. A visão de Batman e a tormenta de que seu trauma ritualisticamente revivido, a morte de seus pais, lhe assombra todas as noites. Hiper-valoriza essa dor, como submisso que entrega seu pescoço e seu quente sangue ao sofrimento. A visão de Batman, pelos olhares dos criminosos e seus temores, suas ações desesperadas, seus insucessos. Agressões e monstruosidades de um mundo singular, um mundo doente e vil. O questionamento do “tão feio parto”. 

Encerrando, calmo, com a afirmação fatal e racional de que essa visão nefasta que nos assombra, esse morcego, é a consciência humana. E o Batman, em toda a sua insanidade, retirado de um mundo medonho e caricatural, é essa consciência em sua plenitude assustadora.

 

 

Confira também o soneto feito pelo magistral Augusto dos Anjos:

 

 

O morcego

 

Meia noite. Ao meu quarto me recolho.

Meu Deus! E este morcego! E, agora, vêde:

Na bruta ardência orgânica da sede,

Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.

 

"Vou mandar levantar outra parede…"

— Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho

E olho o tecto. E vejo-o ainda, igual a um olho,

Circularmente sobre a minha rede!

 

Pego de um pau. Esforços faço. Chego

A tocá-lo. Minh'alma se concentra.

Que ventre produziu tão feio parto?!

 

A Consciência Humana é este morcego!

Por mais que a gente faça, à noite, ele entra

Imperceptivelmente em nosso quarto!

— Adalton nasceu no último dia de uma lua cheia, mas acha que isso não tem nenhuma relação com a sua vida; começou comprando quadrinhos por puro modismo - uma edição da Turma da Mônica parodiando Jurassic Park; sua primeira compra consciente foi a edição nº 01 de Batman: A queda do Morcego, ainda formatinho. Acredita que irá terminar a graduação em Letras antes da catástrofe de 2012 e daqui até lá está estudando parte das traduções intersemióticas das peças de Shakespeare já produzidas. E nos interlúdios, tenta produzir roteiros a partir idéias rabiscadas em antigos pedaços de papel.