As Agentes Trigêmeas 01 (1976)Por mais que me esforce, não consigo me lembrar qual foi meu primeiro gibi – nem o primeiro que li, nem o primeiro que comprei. Isso por muito tempo me incomodou, principalmente ao conversar com aqueles fãs de quadrinhos que lembram claramente o primeiro gibi de sua vida.

Meses atrás fiz uma tentativa de organizar e cadastrar toda minha caótica coleção de gibis. Os exemplares estavam acomodados em caixas de papelão empilhadas em um pequeno quarto da casa de meus pais – quarto que eles destinaram especialmente para acomodar a minha coleção, e por isso mesmo a preservara apesar de eu não ter tomado todas as precauções que um zeloso colecionador tomaria.

Kripta n° 1 (1976)Em função da quantidade de exemplares, não foi possível terminar o inventário e já estou programando outra empreitada para o mês de julho deste ano. No entanto, voltar a manusear revistas que comprei ou ganhei a 20, 30, 35 anos atrás revolveu memórias e me permitiu ligar os pontos: não lembro qual meu primeiro gibi pois ler (livros, gibis, revistas, bulas de remédio ou qualquer outra coisa que pudesse ser lida) sempre fez parte de minha vida. Pelo menos desde que me alfabetizei.

É bom deixar claro que sou o primeiro fã de quadrinhos de minha família. Tirando alguns primos mais velhos que curtiam quadrinhos, mas que não levaram suas coleções à diante, não tenho notícia de ninguém na família que colecione gibi. Isso quer dizer que, por não ter herdado um exemplar sequer, tive um grande estímulo por parte de meus pais para formar minha coleção. Aliás, remexendo nela relembrei de momentos em que a o apoio deles foi fundamental na formação do meu gosto pela nona arte.

Almanaque do Hulk n° 7 (1982)Cresci em uma família classe média em uma época que a inflação não dava trégua ao poder aquisitivo – ou seja, dinheiro não ela algo que sobrava no orçamento (muito pelo contrário). No entanto, sempre sobrava algum trocado pra um exemplar de Capitão América, Homem-Aranha, Hulk, Batman, Superman ou Superaventuras Marvel. Meu pai (dono de um grande raciocínio lógico e rápido nos cálculos) e minha mãe (leitora inveterada e dona de uma sensibilidade ímpar) sempre estimularam meu gosto pela leitura em geral e pelos quadrinhos em especial.

Assim, apoiado pelos meus pais, li tudo que me caía nas mãos: livros, revistas (achava semanários como O Cruzeiro, Manchete, Veja e Fatos & Fotos um barato, apesar de não entender direito alguns dos textos) e muito, muito gibi. Ler passou a ser algo tão natural quanto falar e isso tornou difícil saber exatamente qual foi meu primeiro gibi.

Batman - O Cavaleiro das Trevas n° 2 (1987)Claro que existiram alguns gibis que de uma forma ou outra marcaram mais, e por isso suas capas ficaram para sempre registradas em minha memória. E de capa em capa, história em história, cresci acompanhando o desenvolvimento da nona arte até que lá pelo final da década de 80 li meu primeiro livro sobre o assunto: Para Ler o Pato Donald.

O livro abordava os quadrinhos de Walt Disney, que ei lia esporadicamente (normalmente na casa dos primos), de uma forma que completamente nova para mim – e isso abriu um novo horizonte de perspectivas. Depois disso continuei lendo apenas quadrinhos por vários anos, mas sempre com um olhar mais crítico, até o dia em que ganhei de presente A Guerra dos Gibis, de Gonçalo Jr. Esse livro me fez não apenas gostar mais de quadrinhos, mas também querer participar ativamente do ecossistema cultural do qual os quadrinhos fazem parte.

Piratas do Tietê n° 3 (1990)Passei a ler mais obras teóricas, buscar ativamente quadrinhos de outras origens que não apenas os estadunidenses e acabei encontrando os parceiros de jornada com quem trabalho (e me divirto muito) aqui no quadro-a-quadro, onde vivo dando pitaco nos roteiros alheios (já que não desenho). Mas em retrospectiva, de capa em capa, de história em história, tudo começou à muito tempo atrás, com o apoio e incentivo de meus pais, que, por mais bicudos que fossem os tempos, sempre apoiaram meu gosto por quadrinhos.

Ilustrei este texto com algumas das capas que ficaram para sempre registradas em minha memória só pra dar uma idéia do meu começo na senda dos quadrinhos. E agora eu gostaria de saber, você lembra qual foi o seu primeiro gibi?

                                                                                                                                                         

Este post é uma homenagem ao meu pai, que completou 77 anos no último dia 6, e a minha mãe, que completa 65 anos hoje. Feliz aniversário pai! Feliz aniversário mãe! Obrigado por tudo!
Sergio Barretto entre os pais (6/5/2011)

— Sergio Barretto teve um passado nebuloso sobre o qual nunca fala. Ninguém sabe ao certo o que ele fazia, mas alguns indícios de ações secretas e aterradoras já desestimularam muita agente a continuar investigando. Hoje é um homem sério, cumpridor de seus deveres e apaixonado por histórias em quadrinhos desde que se entende por gente, e a cada ano faz mais tempo que ele se entende por gente. Faz parte do Quadro a Quadro desde sua criação e costuma ser gente boa, mas as vezes passa a impressão de que seu passado sombrio pode retornar a qualquer momento, pondo a todos em perigo.