Com a aproximação dass Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos da ECA- USP na semana que vem – de 18 a 21 de agosto – resolvi falar um pouco sobre uma das convidadas do evento, Trina Robbins. Hoje em dia ela é escritora em tempo integral, mas ficou conhecida como uma das primeiras desenhistas de quadrinhos Underground dos Estados Unidos.

Dentro da programação das Jornadas, a Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial – ASPAS – em parceria com o Centro Cultural da cidade de São Paulo, irá reunir Trina Robbins e algumas artistas brasileiras para um bate-papo na Gibiteca Henfil na manhã do dia 19/08.  No Brasil Trina ficou mais conhecida pela publicação da HQ Misty, nos anos 80. Por isso, conversei com ela sobre a personagem.

Em 1971 Trina publicou sua primeira HQ sozinha, a Girl Fight além de se juntar com outras duas artistas para produzir o livro All-Girl Thrills pela Print Mint e em decorrência do sucesso da coletânea de It Ain’t me, Babe, a Last Gasp publicou maios duas edições com 10.000 cópias cada.

A visibilidade alcançada com a antologia fez com que uma de suas editoras, Pat Moodian, chamasse artistas que pudessem contribuir em outro projeto e em 1972, juntamente com Trina Robbins e outras nove mulheres, ela deu início à primeira série de publicações exclusivamente produzida por mulheres, a Wimmen’s Comix que circulou até 1992.

Na primeira edição de Wimmen’s Comix, Trina contribuiu com uma história chamada Sandy Comes Out (Sandy sai do armário) e que se baseava na vida de uma amiga lésbica, no entanto, a artista também lésbica e ativista feminista Mary Wings se sentiu ofendida, acreditando que uma mulher heterossexual produzir uma história gay seria ultrajante. Por isso, em 1973, Mary produziu a primeira HQ sobre lesbianismo, a Come Out Comix. Trina conta que posteriormente elas acabaram se tornando amigas e rindo do episódio.

Trina chegou a desenhar a Mulher Maravilha e a roupa da Vampirella, mas não produz mais quadrinhos há cerca de 30 anos, tendo se dedicado em tempo integral às pesquisas de HQs que já lhe renderam mais de 10 livros sobre o assunto, sendo o mais recente deles o Pretty in Ink que narra a histórias das grandes mulheres cartunistas entre os anos de 1896 e 2013. Em 1994, ela se juntou a outras desenhistas para incentivar mulheres a se envolverem no universo das HQs, tanto como leitoras como artistas e a organização sem fins lucrativos que ficou conhecida como Friends of Lulu funcionou até 2011.

Revistas-Trina

Dani MarinoPor que quadrinhos? Quero dizer, você lembra quando percebeu que seu trabalho poderia ajudar outras mulheres a lutarem por seu direito de fazer quadrinhos e terem seu talento reconhecido da mesma maneira que os homens têm?

Trina – Eu detesto desapontá-la, mas eu não tinha esses ideais nobres. Havia apenas uma outra mulher desenhando quadrinhos em São Francisco em 1970 e 1971 e eu só queria que pudéssemos fazer quadrinhos e ter nosso talento reconhecido.

Dani MarinoComo os ideais da época influenciaram seu trabalho como artista? Nos anos 70, por exemplo, como era a popularidade do feminismo e como isso se reflete na sua obra?

Trina – Quem me dera eu pudesse dizer que todas as mulheres inteligentes eram feministas nos anos 70, mas muitas de nós não eram. Entretanto, obviamente, eu e outras mulheres com quem trabalhei eram feministas. No início dos anos 70 meu trabalho refletia muita raiva porque, honestamente eu estava muito brava com a situação, não apenas em relação pelas mulheres que queriam fazer quadrinhos, mas por todas as mulheres.

Dani MarinoE sobre a Misty? De quem foi a ideia e qual foi a razão que levou a Marvel a querer lançar uma HQ sobre a sobrinha da Millie?

TrinaMisty foi ideia minha. Eu acreditava que fazendo que ela fosse sobrinha da Millie eu teria mais chances de vê-la publicada pela Marvel e eu estava certa. No fim das contas, Jim Shooter, que era o editor na época, tinha começado sua carreira escrevendo Millie, então ele tinha afeição pela nova personagem.

Dani MarinoNa época, quais eram os principais ideais femininos? Com o que as mulheres sonhavam?

Trina – O que as mulheres realmente querem e sonham? Freud fez esta pergunta e a resposta é: SAPATOS! (risos). Falando sério, eu acredito que as mulheres querem simplesmente ser tratadas como iguais, o que inclui pagamentos iguais, claro… E sapatos!  

Dani Marino Eu ouvi dizer que a California é mais liberal comparando com outros estados americanos. Você acredita que as mulheres poderiam ter ideais diferentes de um estado para outro? A Misty fez mais sucesso em algum estado em particular?

Trina – California e Nova York são provavelmente os estados mais liberais dos Estados Unidos, mas meninas de todo o país liam Misty e me mandavam cartas.  

Dani  Marino Por que você acha que Misty não durou mais?

Trina – Eu não preciso nem pensar – EU SEI porque não durou mais! Nos anos 80 o único lugar para comprar HQS nos EUA era nas lojas de quadrinhos, que pertenciam ou eram gerenciadas por homens que atendiam meninos e jovens oferecendo prioritariamente quadrinhos mainstream de super-heróis. A cultura predominante era que meninas não liam quadrinhos, mas obviamente se uma loja está lotada de meninos de 12 anos que fedem a meias velhas e cujos quadrinhos a venda mostram grandes caras musculosos se batendo, a maioria das garotas nem entraria em uma loja de HQs.

O resultado é que as lojas ou não pediam nada para meninas ou pediam muito pouco e quando as HQs acabavam elas não solicitavam mais. Então, se você não encontrava Misty nas lojas, você obviamente não podia comprá-la, por isso, depois de 6 episódios, ela foi cancelada. Misty não foi a única HQ que teve este problema: A DC distribuía Angel Love da Barbara Slate e que também não deslanchou devido à falta de distribuição. 

Dani Marino Qual foi a maior dificuldade de desenhar e escrever Misty?

Trina – Eu nunca tive dificuldade alguma com a Misty. Era um prazer fazê-la.

Dani Marino Nos anos 80 o Mercado era direcionado principalmente aos homens, sendo assim, você acredita que Misty teve um papel importante no que diz respeito à formação de um público leitor feminino de quadrinhos? Que outros quadrinhos tinham o mesmo perfil?

Trina – Como mencionei, Angel Love era uma delas. Renegade press estava publicando Vickie Valentine e a Eclipse publicava California Girls. Nenhuma delas foi bem sucedida e todas pelo mesmo motivo. Um rapaz que era fã de California Girls enviou alguns desenhos, um deles eu cheguei a usar. Ele ficou muito empolgado, mas a loja de sua cidade não vendia California Girls, então ele acabou ligando para a loja para falar com o gerente. Ele ficou impressionado que nem telefonando a loja iria vender a HQ. Eu mesma tive que enviar uma cópia da HQ a ele.

Dani MarinoNo Brasil a série foi mais popular que nos Estados Unidos (não tenho os números) e teve uma continuação de mais três exemplares. Como funcionou isso? Você sabia das alterações no roteiro? Você chegou a trabalhar com desenhistas brasileiros?

Trina – Eu nem fiquei sabendo que ela teve continuação no Brasil (e na Inglaterra também!) até alguém me mandar um exemplar. A Marvel nunca me contou e nunca me pagou. Eu não entendo Português (desculpa!), então não saberia dizer como eram os roteiros, mas me parece que o novo artista desenhou Misty e suas amigas de uma forma muito sexualizada, com vestidos mais curtos e mais decotes. O erro mais engraçado foi terem desenhado a cidade natal dela com palmeiras! Misty vivia no estado de Nova York, que é bem frio no inverno, sem palmeiras! rs

 

 

— Dani Marino é formada em Letras e ainda não decidiu se prefere viver no Sonhar, em Nárnia ou em Hogwarts.