[Entrevista conduzida por Lucas Pimenta Guido Moraes, com ajuda de Edimário Duplat na formulação de algumas perguntas]

O Quadro a Quadro teve a honra de entrevistar um dos mais consagrados artistas brasileiros a trabalhar no mercado estadunidense de quadrinhos, Mike Deodato. Esse paraibano de 49 anos desistiu do curso de Comunicação na UFPB para se tornar um dos mais influentes artistas dos comics na última década. Trabalhou nas principais editoras de quadrinhos dos EUA, e é hoje um dos mais bem pagos artistas lá fora.

Portanto, sem mais demora, conheçam Mike Deodato e preparem-se para os seus novos projetos.

[QaQ] Quantos anos você já conta de carreira e como foi o começo na Paraíba? Além da influência do pai, como você se instruiu e decidiu que ia viver de arte?

[Mike Deodato] Meu primeiro trabalho profissional como quadrinista foi em 1985. Além dos ensinamentos de meu pai, tudo o mais que sei sobre quadrinhos vieram dos próprios quadrinhos que li e colecionei. Aos treze anos já sabia que queria viver de minha arte.

[QaQ] Quando você sentiu que estava preparado para trabalhar profissionalmente? Foi uma decisão sua ou alguém o influenciou?

[Mike Deodato] Foi um desdobramento natural. A oportunidade surgiu e eu a agarrei. Acho que nunca estarei preparado, na verdade, estou sempre procurando melhorar, aprender. Essa é a parte mais divertida do meu trabalho.

[QaQ] O que você gostava de ler na infância? Que tipo de leitura ajudou a formar o Mike Deodato de hoje?

[Mike Deodato] Super-heróis, basicamente, mas também quadrinhos clássicos como Spirit, Príncipe Valente, Flash Gordon, Cinco por Infinitus, Metal Hurlant, quadrinhos espanhois, argentinos… tive uma formação muito boa nessa área.

[QaQ] E o que você lê atualmente? Ainda lê quadrinhos?

[Mike Deodato] Leio, sim. Meu último foi Asteriyos Polyp, de Mazzuchelli.

[QaQ] Como foi a sua participação no Festival de Angoulême?

[Mike Deodato] Tantos anos atrás… Eu tinha 22 anos e nunca tinha viajado pro exterior. Foi mágico. Conhecer todos aqueles artistas geniais: Maurício, Ziraldo, Laerte, Angeli, Jô Oliveira, Luis Gê, os irmãos Caruso… Abriu-me os olhos para um mundo novo e para o meu potencial. Foi um momento determinante em minha carreira.

[QaQ] Trabalhar para o mercado norte-americano sempre foi o objetivo traçado?

[Mike Deodato] Sim. Cresci lendo super-heróis e era o que queria fazer. Deu certo, mas em alguns momentos de minha carreira tudo poderia ter mudado. Pequenas decisões podem influenciar sua vida inteira.

[QaQ] A entrada dos brasileiros no mercado americano nos anos 90 foi de certa forma muito difícil. Mudança nos nomes, muito volume de trabalho e bastante desconfiança. Hoje em dia os brasileiros são muito mais respeitados lá fora. Você se preocupava em deixar seu legado, realizando bons trabalhos, ou isto foi apenas consequência?

[Mike Deodato] Eu adoro o que faço. Gosto de desenhar, criar uma história. O resto é consequência. Minha maior satisfação não é o sucesso, o reconhecimento, o trabalho publicado, tampouco o legado: minha maior satisfação é quando estou em minha prancheta, criando.

[QaQ] Jovens desenhistas de quadrinhos que sonham em desenhar para os EUA imaginam que terão que trabalhar de forma muito intensa e se submeter a várias decisões das editoras. Mais ou menos o reflexo dos anos 90. Como você conseguiu lidar com isso e como anda a situação deste trabalho atualmente?

[Mike Deodato] Trabalhar bastante e se submeter às decisões do empregador faz parte de qualquer trabalho. O importante é ser profissional e trabalhar com profissionais.

[QaQ] Como foi trabalhar com grandes artistas como Neal Adams? Havia algum desenhista, roteirista ou arte finalista com quem gostaria de ter trabalhado?

[Mike Deodato] Foi uma honra. Foi a primeira e última vez que fiquei nervoso ao fazer um trabalho, por que é um artista que sempre me inspirou. Tem muita gente de talento com quem espero trabalhar um dia: Miller, Morrison, Gaiman, Alan Moore, Azarello… é uma longa lista.

[QaQ] Como foi o rompimento com a  Art & Comics? Seu agente ainda é o Dave Campiti? Como isso afetou sua carreira?

[Mike Deodato] Foi uma decisão profissional, nada traumático. Continuo trabalhando com Dave. Minha carreira seguiu o curso normal.

[QaQ] Nessa nova fase, você chegou a recusar um trabalho com Stan Lee na série Imagine se Stan Lee criasse o Universo DC. Se bem me lembro, a história seria sobre o Aquaman. Você se arrepende disso? Não pela série em si, mas era o Stan Lee. Foi uma decisão fácil?

[Mike Deodato] Se me lembro bem, a única vez que quase trabalhei com Stan foi pra uma edição de Superman VS Hulk. Outro artista desenhou-a, mas não foi minha decisão.

[QaQ] Em uma entrevista para o UniversoHQ certa vez, você falou desse caso.

[Mike Deodato] Então deve ter sido verdade, Lucas, mas é que eu realmente não lembro. Estou ficando velho. 🙂

[QaQ] Avengers: The Crossing foi por muito tempo renegada pela própria Marvel, mas está sendo lançada em encadernados recentemente lá nos Estados Unidos. Isso seria fruto do seu legado na Casa de Ideias?

[Mike Deodato] Não sei. Mas fiquei contente pela reedição.

[QaQ] The Cartoon art of Mike Deodato Jr. é seu trabalho mais pessoal. Poderia falar um pouco mais sobre ele e como foi realizá-lo?

[Mike Deodato] Literalmente um trabalho de amor. São cartões, cartuns e quadrinhos que fiz pra minha esposa e filha. São bem pessoais, mas acredito que universais ao mesmo tempo. A edição brasileira deve sair em um mês pela Kalaco.

[QaQ] Fale um pouco sobre seu período na Image.

[Mike Deodato] Foi divertido no começo, depois nem tanto.

[QaQ] Houve uma confusão com você e Rob Liefeld, que envolvia o uso do seu nome de forma indevida e o Deodato Estúdio. Pode falar um pouco mais sobre isso. O que realmente aconteceu?

[Mike Deodato] O estúdio dele solicitou muitas revistas com meu nome quando na verdade deveriam ser creditadas a outros artistas de meu estúdio. A intenção, acredito, era de fazer com que as lojas encomendassem mais revistas por causa do meu nome. No final, o lojista, o leitor, eu e o artista fomos os perdedores.

[QaQ] O mesmo aconteceu na Marvel?

[Mike Deodato] Não. Na Marvel eles creditavam como Deodato Studio, mas, algumas vezes, não faziam o combinado que era de especificar quem do estúdio fazia o quê nos créditos.

[QaQ] Quando você começou as editoras brasileiras dificilmente publicavam material feito aqui, e o caminho para o mercado americano era a melhor forma de se manter no ramo. Hoje em dia, você acredita que a situação melhorou no país? Se estivesse começando, apostaria mais em trabalhar no mercado interno ou externo?

[Mike Deodato] Faria a o mesmo que fiz quando comecei: apostaria no mercado interno.

[QaQ] Um dos trabalhos mais elogiados pelos fãs nas antologias "MSP" foi sua adaptação do personagem "Anjinho". Com isso, cresceu um entusiasmo em ver seu trabalho  autoral. Existe algum plano para isso?

[Mike Deodato] Fiquei bem entusiasmado, sim e o meu livro de cartuns é um resultado direto disso. Tenho planos, mas são segredo por enquanto.

[QaQ] Existe algum plano seu ou convite de alguma editora, para publicar um trabalho mais autoral e feito diretamente para o mercado nacional?

[Mike Deodato] Sim, mas não posso revelar nada por enquanto.

[QaQ] Você foi o terceiro artista a ser "homenageado" pela Marvel na série de livros "The Marvel art of…" e é com certeza o melhor até agora. Qual foi a sensação? Foi uma surpresa para você?

[Mike Deodato] Fiquei surpreso e muito lisonjeado. Foi um carinho que não vou esquecer. 🙂

[QaQ] Recentemente, através do facebook, você soube de artes suas na época da Editora Abril, apareceram na mãos de colecionadores e de vendedores. O que pode falar sobre isso? Já houve algum contato com a editora? Conseguiu recuperar alguma ilustração?

[Mike Deodato] Estamos em contato com a editora. Os que apareceram já estão sendo gentilmente devolvidos pela pessoa que os encontrou.

[QaQ] Entre as muitas horas nas pranchetas, cada autor se identifica com um momento específico no processo criativo, seja ele o planejamento das narrativas, as páginas duplas, as cenas com os personagens principais ou mesmo a arte final. Isto revela muito da personalidade de cada um e destaca um aspecto muitas vezes não observado. Você tem algum momento no processo que gostaria de comentar?

[Mike Deodato] Pra mim o momento crucial é o layout. É onde ponho toda minha energia. O resto é só polimento.

[QaQ] Qual a sua rotina?

[Mike Deodato] Acordo as 7:30, trabalho até às 9:30. Sete dias por semana. Já trabalhei mais tempo, mas hoje em dia decidi diminuir o ritmo.

[QaQ] Qual você considera seu melhor trabalho até agora?

[Mike Deodato] A história do Anjinho. É toda minha… Tenho orgulho disso.

[QaQ] Essa é clássica, mas temos que perguntar. Quais são suas dicas para os aspirantes a desenhistas de Histórias em Quadrinhos?

[Mike Deodato] Nunca pare de estudar sua arte.

[QaQ] Muitas vezes, o artista tem conceitos e ideias que acabam sendo discutidas por fugir da linha editorial ou até por se adequar muito bem a ela e as vezes até transformando-a de forma positiva. Quais foram as suas sugestões mais marcantes que não foram aprovadas e quais que foram bem aceitas em processos criativos com roteiristas ou editores?

[Mike Deodato] As minhas ideias são colocadas na hora em que faço um layout. Ali está a minha visão de como deve ser a história. Nem me lembro de quando tive um layout recusado, exceto quando apresento mais de um para escolha.

[QaQ] No mercado estadunidense, você é um artista consagrado. Você sabe como é seu reconhecimento fora dos Estados Unidos?

[Mike Deodato] Já estive em alguns países da Europa e sempre fui muito bem recebido pelos fãs de quadrinhos. A internet aproximou todo mundo também. Acredito ter uma boa aceitação fora dos EUA.

[QaQ] Existe algum interesse seu em trabalhar no mercado franco-belga?

[Mike Deodato] Sonho em fazer álbuns para o mercado Europeu. Queria fazer algo diferente por um tempo.

[QaQ] E no mercado italiano? Há espaço?

[Mike Deodato] Certamente.

[QaQ] Soube que você é muito fã de Tex, não sonha em desenhar um Tex Gigante? Já houve algum contato para isso acontecer? (Texone na Itália. Série em que desenhistas são convidados a dar sua visão do famoso Ranger).

[Mike Deodato] Fui contactado há alguns anos, mas estava com um longo contrato de exclusividade com a Marvel. Queria sim poder dar minha contribuição a Tex e Ken Parker.

[QaQ] O que Mike Deodato está aprontando para o futuro?

[Mike Deodato] No próximo ano terei que tomar algumas decisões importantes na minha carreira. Vocês saberão em breve. 🙂

[QaQ] Mike, obrigado pela gentileza com a qual nos tratou e respondeu nossas perguntas. Desejamos boa sorte nos novos projetos e que todos eles se realizem.

 

— Lucas Pimenta queria ser Martin Mystère. Não queria uma pistola de raios e sim a capacidade de enrolar uma noiva da mesma maneira...