Com a chegada de 2013, tive a ideia de começar um projeto audacioso para o novo ano: Tentar ler o máximo de quadrinhos que puder e assim descobrir, conhecer e se divertir mais com a arte sequencial em todas as suas reencarnações.  Para que isso se realize, a meta inicial é arriscar uma leitura por dia, não importando a data de publicação, o país de origem ou qualquer julgamento prévio sobre a qualidade artística do material selecionado.  E fruto desta jornada, farei um post semanal aqui no Quadro-a-Quadro para falar um pouco do que li por aí.

21/01 – Segunda-Feira

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

The Amazing Spider-Man #565 – #567 (Marvel)

Publicado no Brasil em: Homem-Aranha #090 (Panini)

Nesse curto arco, somos apresentados a uma jovem versão feminina de Kraven, que elabora um plano mirabolante para executar a sua vingança ao Espetacular Homem-Aranha. Entretanto, um pequeno erro de dedução acaba por trazer um confuso combate que envolve o novo parceiro de quarto de Peter Parker, o perigoso Rattus e um nova “versão” do Demolidor.

Os retcons são muitas vezes vistos como uma atitude desesperada em meio a que muitos chamam de “falta de criatividade” dos quadrinhos atuais. Entretanto, se excluirmos as opiniões exacerbadas (na maioria das vezes, reverberadas sem um pouco de analise) sabemos que esse é um artificio característico da Marvel Comics desde os seus primórdios e em muitos casos consegue ser bem sucedido sem desconsiderar o que foi criado anteriormente.

Esse é o caso da história trazida por Marc Guggenheim, onde somos apresentados a mais uma nova versão do falecido e emblemático vilão sem desconsiderar tudo aquilo que foi criado no passado, ao mesmo tempo em que usa de referencias claras do embate entre o Kraven original e o Aranha. Soma-se a isso uma trama que consegue se relacionar com a recente vida social de Peter Parker e valoriza os momentos de humor e drama de uma maneira inteligente, fazendo com que suas consequências possam ter boas repercussões nas futuras histórias da revista mensal.

Na arte, Phil Jimenez faz um belo trabalho tanto na caracterização dos personagens quanto nas boas sequencias de ação que acontecem nos esgotos e no combate contra Rattus. Com um desenhista que sabe entender a dinâmica do Homem-Aranha e também traz identidade em suas representações, temos um trabalho essencial que dá corpo e deixa a história fluir de forma notável, como toda boa aventura do Amigão da Vizinhança.

22/01 – Terça-Feira

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Captain America #606 – #610 (Marvel)

Publicado no Brasil em: Capitão América e os Vingadores Secretos #001 – #005 (Panini)

Logo após derrotar o Capitão América dos Anos 50, Bucky Barnes tem mais um problema que envolve o legado de sua ainda recente identidade heroica. Entretanto, a frente da intricada conspiração que revira o passado do antigo ajudante de Steve Rogers, temos o retorno de um controverso e inteligente vilão que planeja desconstruir todo o recente mito em torno do novo combatente da liberdade. Com essa premissa, a aventura traz uma história inteligente que funciona como um verdadeiro batismo de fogo não só do retorno deste personagem ao universo Marvel como também de sua própria permanência como protagonista desta poderosa série mensal.

Conservando o trabalho de excelência que vem sendo executado desde a sua estreia no titulo, Ed Brubaker continua inquietante a frente dos conflitos elaborados para o Capitão América e faz uma história que parece questionar a legitimidade de Bucky a frente da fantasia. Para isso, traz como antagonista o Barão Zemo, personagem que nos últimos tempos apresentava um caminho dúbio no mundo dos super-heróis e vilões, servindo perfeitamente para intensificar o embate ideológico sobre perdão e recomeço. Uma história que para os olhos mais desavisados parece ser levada a uma resolução física, mas que ao longo do caminho apresenta muito mais que existe por trás de um simples conflito entre aparentes mocinhos e bandidos.

Em relação ao traço, Butch Guice faz um belo trabalho a frente da edição #606 e Mitch Breitweiser também consegue repetir o feito na #607. Entretanto, nos números #608 e #609 (feitas pelo Guice) temos uma diferença gritante de qualidade entre as páginas, oscilando entre ótimas ilustrações e outras com qualidade bastante duvidosa. Não sei se isso se deve ao grande numero de arte-finalistas que alternam nas paginas destes fascículos, entretanto, na #610 (onde o mesmo finaliza a sua própria arte) temos o retorno a regularidade, com os característicos planos de movimentos de influencia televisiva e os jogos de sombras bastante pertinentes para a temática da obra.

Para finalizar, saliento duas particularidades que encontrei entre as versões digitais e  impressas do arco analisado. Em primeiro lugar, é nítido como a impressão brasileira prejudica bastante o trabalho executado na arte dessas histórias. Para completar, assim como nas edições #600 a #604, as presentes revistas lidas neste tópico apresentam uma história extra protagonizada pela Bucky do Universo alternativo de Heróis Renascem. Entretanto, esse micro-arco não foi publicado por aqui  e falarei dele em postagens posteriores.

 

22/01 – Terça-Feira

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Secret Warriors #017 – #022 (Marvel)

Publicado no Brasil em: Capitão América e os Vingadores Secretos #001 – #006 (Panini)

O conflito entre a Hidra e o Leviatã toma proporções globais nestes dois arcos e somente Nick Fury e seus subordinados parecem ser a única linha de frente do mundo livre contra a iminente guerra terrorista. Entretanto, enquanto o fiel Comando Selvagem se encontra no meio de uma conspiração global, os Guerreiros Secretos são vitimas de uma traição nas suas próprias fileiras, ocasionando a morte de um valoroso membro.

Secret Warriors é um titulo que precisa ser lido e relido sempre que possível. Jonathan Hickman consegue criar um bom thriller de conspiração, valorizando bastante os pequenos detalhes e sempre apresentando uma reviravolta no status quo da trama. Na primeira parte, ele expande o universo da série e resgata de forma digna as clássicas histórias de espionagem da decada de 70 na Casa das Ideias, atualizando o Comando Selvagem para o mundo moderno e seus conflitos ideológicos. Já no segundo arco, Hickman retorna ao grupo principal e não reduz a forma frenética que vem conduzindo a obra. A fuga dos Guerreiros Secretos perante a investida de Gorgon (um dos vilões mais bem trabalhados atualmente) é digna de se tornar um dos momentos mais marcantes da Marvel nos últimos anos.

Alessandro Vitti retorna a franquia nas edições #017 ao #019, #021 e #022 e consegue fazer um bom trabalho gráfico, valorizando as cenas de ação e concentrando-se bem nas expressões faciais dos personagens. Entretanto, a equipe de coloristas da Imaginary Friends Studio continua apresentando um trabalho bem abaixo da média e acaba destoando de todo o resto. Além disso, temos a participação de Mirko Colak na edição #020 e parte da #021 com uma arte que também se destaca negativamente em todos os aspectos possíveis e depõe bastante contra o cuidado que a editora determina para o titulo.

Uma ressalva positiva que não pode ser deixada de lado são as belas capas de Jimmy Cheung, artista que deveria mostrar de seu primoroso trabalho dentro das páginas e não somente na sua apresentação. 

 

24/01 – Quinta-Feira

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Hellboy: Seed of Destruction #001 – #004 (Dark Horse)

Publicado no Brasil em: Hellboy – Edição Histórica #001 (Mythos)

Apesar de já ter lido algum material sobre o personagem, essa foi a primeira vez que tive acesso a sua origem nos quadrinhos. E desfiz essa negligencia quadrinística (sim, ainda tenho várias) através da belíssima edição de luxo brasileira criada para o garoto-demônio. Nela, somos apresentados a sua origem, onde é oriundo do inferno e acaba sendo trazido para a Terra por um ritual nazista-ocultista em plena Segunda Guerra Mundial. Entretanto, a então pequena criatura acaba nas mãos de um grupo formado por membros dos países aliados, que passam a cria-lo e treina-lo até se tornar membro da Bureau de Pesquisas e Defesa Paranormal (em inglês, B.P.R.D.). Já na atualidade (década de 90), o protagonista acaba por se envolver em uma trama que reúne mistério sobre as verdadeiras intenções de sua chegada ao nosso plano material.

Criado por Mike Mignola, Hellboy tem um carisma que transcende a sua aparente forma grotesca. Os seus quadrinhos não só pisam no terror e no ocultismo como verdadeiramente afundam no tema e levam você para uma experiência que consegue ser perturbadora e ao mesmo tempo bem charmosa. A mistura do Noir com o surreal e o mágico é um casamento perfeito para prender o espectador em torno do mistério e da ação propostas. Além disso, temos um trabalho de primeira mão com os personagens principais, que conseguem ser engraçados, misteriosos e bastante humanos em suas convicções, gostos e principalmente nas resoluções dos problemas.  Nesse ponto, é claro ver a mão de John Byrne, um mestre em conseguir cativar o leitor e faze-lo sentir parte daquilo em que se está lendo.

Confesso que em um primeiro momento achei a narrativa do primeiro número bem lenta e muito introdutória, lembrando-me vagamente de outro titulo “demoníaco” daquela década: Spawn. Porém, é nítido sentir um trabalho evolutivo crescente no complemento da série, com pés bem fincados no chão e sabendo onde se pisa, trabalhando com autoridade naquele terreno (coisa que o anti-herói da Image passa bem longe). Para completar, o traço de Mignola é essencial para criar a sensação de estarmos assistindo um filme de terror do inicio do século XX com pitadas de influencia lovecraftiana e um poudo de uma boa ficção cientifica surrealista. Além disso, ele concebe de forma magistral uma hipnotizante caracterização dos protagonistas e ótimas cenas de ação e suspense que tornam a leitura muito mais empolgante e prazeirosa. Para os amantes do gênero (e para os que não forem), é uma obra fundamental que precisa ser apreciada.

PS: a edição brasileira traz dois contos de apresentação de Hellboy antes de sua estreia oficial nbs EUA. Divertidas e muito bem boladas, elas são um bônus digno ao encadernado luxuoso em que a Mythos vem trabalhando para o personagem.

 

25/01 – Sexta-Feira

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Transformers: Infiltration  #000 – #006 (IDW)

Não foi Publicado no Brasil

Primeira série do novo universo Transformers criado pela IDW, essa mini em sete edições (contando com a #000) nos apresenta um trio de humanos que acaba se envolvendo na secreta guerra entre os clãs robóticos Autobots e Decepticons. Todavia, os vilões-robôs acabam por quebrar o protocolo de camuflagem e fazem com que seus adversários se preparem para um conflito maior em nosso planeta.

Funcionando como um cartão de visitas em uma nova editora, Transformers: Infiltration não apresenta muitos destaques além da sua função principal. Dessa forma, é mesmo um grande prologo para as futuras aventuras dos robôs nesse novo universo, que parece desconsiderar tudo que foi criado anteriormente sobre os personagens mesmo utilizando o prévio conhecimento que permeia a cultura do entretenimento sobre a continuidade G1 (1º Geração) para não se preocupar (ainda) em contar a origem dos mesmos. E falo “ainda” porque é nítido que o roteirista Simon Furman ambiciona carregar de mistérios tanto o passado dos personagens quanto da guerra que assola suas vidas, deixando pistas incompletas e alguns detalhes que parecem pertinentes para futuras publicações.

Sobre o que acontece na obra, é válido destacar que temos a criação de uma nova relação humana-robô (marca registrada dos Transformers) com as atenções principais na jovem Verity Carlo e no Autobot Ratchet (que nunca havia me cativado até a leitura dessa série), além de uma atualização sobre alguns conceitos datados que existiam na antiga encarnação dos quadrinhos e a influencia da versão cinematográfica para readaptar a forma como os alienígenas se relacionam com a população local.  

O taiwanês E. J. Su complementa a equipe criativa e usa a sua influência dos quadrinhos orientais para criar um traço hibrido nos personagens humanos. Entretanto, o destaque deste artista vai mesmo para a concepção dos robôs, com ótimas atualizações de clássicos personagens além de muito dinamismo nas perseguições automotivas, nos movimentos de batalhas e nas fantásticas transformações.

 

26/01 – Sábado

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Grand Prix #001 (Dargaud)

Não foi Publicado no Brasil

Magistral obra franco-belga, Grand Prix retrata os anos sombrios do automobilismo mundial, onde o partido nazista utilizou do esporte para demonstrar a sua força investindo nas empresas Mercedes e Auto Union como forma de propaganda politica. No meio disso tudo, conhecemos a história dos maiores pilotos da época como Rudi Caracciola, Bernd Rosemeyer e Hans Stuck, que exerciam fascínio pelo seu talento e viviam no perigoso e fatal mundo das pistas.

Grand Prix se destaca por ser um trabalho de excelência que mescla ficção com o rico contexto histórico da época. O quadrinista belga Marvano executa toda uma minuciosa pesquisa sobre o momento que antecede a Segunda Grande Guerra e retrata de forma empolgante as curiosas histórias não só dos famosos pilotos da década de 30 como também de alguns acontecimentos daquele momento especifico na Europa. Interessante, por exemplo, saber como ocorreram as evoluções técnicas das empresas, a origem do Fusca como grande carro popular do mundo alemão ou até mesmo conhecer os perigos que rondavam a vida dos competidores nas perigosas provas. Tudo sendo retratado com uma arte fantástica que valoriza em detalhes a época e também sabe representar o elemento essencial do enredo proposto: velocidade.

Para mim, uma bem sucedida representação histórica é aquela que fascina não somente pelo cuidado, como também por transportar um ar lúdico que não difere o real do imaginário. E por esse motivo, temos um épico que merece ser apreciado como o bom quadrinho que verdadeiramente é.

 

Para quem quiser saber o que já rolou, aqui vai uma retrospectiva:

Semana 01

Semana 02

Semana 03

E na próxima semana, mais títulos para serem lidos e comentados em nossa trajetória. Além disso, comentários, opiniões, dúvidas e criticas sempre serão bem vindas e respondidas na medida do possível. Então não se acanhem e esquevam abaixo.

— é soteropolitano do condado de Brotas, o lendário bairro-cidade da capital Baiana. Lê e comenta sobre quadrinhos dos mais variados, além de ser aficionado por futebol em todos os níveis, desde uma final de Champions League a um confronto entre Butão e Montserrat. Sua eterna crença em times inexpressivos foi nomeada pelos amigos twitteiros de #momentoedimario… Além disso, acompanha qualquer seriado sci-fi de qualquer parte do globo, e sempre é fascinado por qualquer cronologia possível, até em novelas. Alguns dizem que pode viajar entre os multiversos apenas atravessando as ladeiras brotenses, outros que faz parte do conselho interdimensional e tem passe livre para navegar entre a matéria e a antimatéria. Relatos de sua presença em lugares como Paris, Tóquio, Nova York, Attilan, M-78, Rann e Trill são conhecidos, mas nunca foram confirmados.