Se eu pudesse resumir o Chile em poucas palavras, estas seriam cultura, política, natureza e terremoto. Não importa quanto tempo você passe no país, rapidamente vai se impressionar com a reverência do povo a Gabriela Mistral e Pablo Neruda, dois prêmios Nobel em literatura. Mais rápido ainda, vai notar que todo Chileno se lembra, e sente de maneira muito forte o governo de Allende, o golpe militar e o governo de Pinochet, seja qual sua opinião sobre. Vai ver e se pduer visitar, os montes, lagos e montanhas. E ainda sim, vai sobrar tempo pra você sentir um pequeno chacoalhão na terra: são vários por dia.

Visitando o país neste final de ano, tive a oportunidade de confrerir algumas livrarias e lojas de quadrinhos. Viajando? E a crise? Pois é, mesmo tendo planejado com muita antecedência, não sobrou muito dinheiro pra comprar quadrinho. Além disso, fui descobrir que o governo Chileno inclui um imposto especial para livros, de forma que é algo caro mesmo para eles, uma pena. Então, perante um vasto catálogo (que incluía também quadrinhos argentinos e norte americanos), tive que escolher uns poucos.

 

Foto 01-01-16 12 35 21Los Años de Allende – Carlos Reyes e Rodrigo Elgueta

Quando em 4 de Setembro de 1970 Salvador Allende obteve 36,2% dos votos que o levaram a ser presidente da República, iniciaram-se os mil dias mais intensos da história do Chile. (Texto traduzido livremente de parte da sinopse da hq).

Esta bela Novela Gráfica (como o autor coloca) fala sobre o contexto político dos anos 70 a 73, do ponto de vista de um jornalista fictício norte americano. Os autores não fogem de relatar os temas mais polêmicos, desde a inédita eleição democrática de um governo socialista, passando pelas medidas de estatização e reforma agrária, os conflitos, as greves, a guerra civil e o golpe militar de Pinochet.

Os desenhos são lindos, misturando um nanquin aguado com uma arte final firme, talvez em caneta, e uma arte final deixada a lápis. A narrativa também é muito boa, pois apesar de o tema ser denso e complexo, a leitura flui muito bem. No entanto, achei a hq expositiva demais. A trama que envolve o jornalista é muito superficial e acaba ficando em segundo plano. Esperava que fosse o contrário, que a história fictícia ficasse em primeiro plano e o contexto político ao fundo, o que daria inclusive a oportunidade de os autores exporem um pouco mais sua opinião, que está lá, mas um pouco tímida. No entanto, gostei demais do trabalho, bela hq pela qual já criei um carinho especial. 

 

 

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dib0Dibujos por madera – Edmundo Browne

O terremoto de Fevereiro de 2010 destruiu cidades, estradas, pontes, casas, histórias. Saques e roubos se sucederam: a solidariedade também sofreu um colalpso. Primeiro a impotência. Sem embargo, depois do tremor emergiram igualmente proopostas baseadas na urgência, carinho e criatividade. (Texto traduzido livremente de parte da sinopse da hq).

A hq, que é autobiográfica, conta como o autor sentiu o terromoto (um dos maiores da história) e como lidou com isso. Buscando ajudar amigos próximos, o que o quadrinista resolveu fazer? Algo que não é novidade nos dias de hoje, mas que cinco anos atrás foi certamente genial: financiamento colaborativo. Depois de pedir dinheiro por email e fracassar, Edmundo organizou um blog que oferecia desenhos por que doasse o valor de uma tábua de madeira, que seria utilizada para construir casas especialmente projetadas para as famílias afetadas. O colaborador teria direito entre outras coisas, a ter seu nome escrito na parede da casa. Fantástico, não é? Do início do tremor as casas reconstruídas, o autor conseguiu narrar de maneira bela e singela toda sua história de superação, solidariedade e criatividade. 

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Pois é, a grana era curta e infelizmente não deu pra comprar nada sobre Neruda, fica pra próxima. Mas deu pra comprar duas hqs produzidas na região patagônica, assuntos do próximo post.

— Guido queria ser um personagem de histórias em quadrinho. Depois de ler Will Eisner se contenta em ser um personagem de uma história sem quadros.