Será que os anos 2000 serão considerados como os anos de ouro das histórias em quadrinhos no Brasil? É possível que sim. O hipergênero tem conquistado muitos leitores e novos espaços de interação. Um deles é o Sesc Vila Mariana, que a cada trimestre convida um(@) quadrinista para apresentar uma seleção de HQs ao público e discutir sobre elas numa oficina. A iniciativa faz parte da programação Quadrinhando, na sala de leitura do 5º andar. 
Os quadrinhos em exposição de maio à julho foram escolhidos por Marcela Godoy, leitora, roteirista, adaptadora e tradutora de quadrinho.

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Bear 1, de Bianca Pinheiro. Nemo, 2014.
Guadalupe, de Angélica Freitas (roteiro) e Odyr (arte). Companhia das Letras, 2012.
Romeu e Julieta, de Marcela Godoy (roteiro), William Shakespeare (autoria) e Roberta Pares (ilustração), Nemo, 2011.
Macbeth, de Marcela Godoy (roteiro), William Shakespeare (autoria) e Rafael Vasconcellos (arte), Nemo, 2012.
Fractal, de Marcela Godoy (roteiro) e Eduardo Ferigato (arte), Devir Livraria e Quanta, 2009.
Quando tudo começou: Bruna Vieira em quadrinhos, de Bruna Vieira e Lu Cafaggi. Nemo, 2015.
Hoje é o último dia do resta da sua vida, de Ulli Lust. Tradução de Augusto Paim. WMF Martins Fontes, 2015.
Sin city: a cidade do pecado (Devir, 2005) e Sin city: a dama fatal, de Frank Miller. Tradução de Leandro Luigi del Manto.
Bordados, de Marjorie Satrapi. Tradução de Paulo Werneck.

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Na exposição, Marcela traz como discussão o protagonismo da mulherada nas HQs e falará mais sobre o tema nas terças-feiras, de 17 de maio à 14 de junho.

A proposta do curso é introduzir e discutir as nuances de criação de personagens femininas nos quadrinhos, como os elementos de composição se combinam para tratar do desenvolvimento dessas personagens, e qual a relevância dessa combinação para dar voz a essas mulheres ficcionais.

Marcela Godoy é paulista e devoradora de quadrinhos desde seus 15 anos. Começou, como muitos de nós, com a patota de Maurício de Sousa. “Li todas as revistinhas”. Enquanto muitos se identificavam com os personagens principais, os mocinhos, os óbvios, ela se entretia com o dinossauro Horácio, “seu espírito nostálgico e gótico”. Desde pequena já esboçava seu interesse pelo esdrúxulo e tinha como personagens favoritos na TV: Ultra Seven, Ultra Man, Vingadores do Espaço e Zé do Caixão. E e nos quadrinhos: Batman, Sandman, Monstro do Pântano e Constantine.

Se enveredou pelo caminho da fantasia e do suspense, inspirada por Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft e Stephen King. Nos quadrinhos, Neil Gaiman, Grant Morrison e Allan Moore foram suas maiores influências para criar roteiros e adaptações de obras literárias para os quadrinhos. E quando falamos de terror, Marcela é especialista. Até o personagem de Maurício de Sousa, o índio Papa-Capim, agora mais moço, foi conduzido por ela a aventurar-se em tramas sobrenaturais na floresta. 

Além dessa Graphic Novel recém-lançada, Marcela é roteirista dos quadrinhos Fractal (Devir Livraria, 2009), A dama do Martinelli (Devir Livraria, 2009), premiados pela Secretaria de Cultura do Governo do Estado de São Paulo, em 2008; das adaptações Romeu e Julieta (Nemo, 2011) e Macbeth (Nemo, 2012), da Coleção Shakespeare em Quadrinhos; e autora dos romances O primeiro relato da queda de um demônio (Devir Livraria, 2004) e Liah e o relógio (Devir, Janeiro 2009). E como nada melhor do que passar adiante nossos conhecimentos e experiências, Marcela ministra aulas sobre elaboração de roteiro para HQ, na Quanta.

Confiram a seguir a entrevista que fiz com Marcela.

Com qual idade você começou a ler quadrinhos? Quais foram as Hqs que mais te marcaram e que te inspiraram a escrever roteiros?
MG – Comecei a ler muito cedo, com os almanaques do Mauricio de Sousa e da Disney. Mas lia esporadicamente, nas férias escolares. Fui consumir quadrinhos, como um “modo de vida”, na adolescência, a partir dos 15 anos. Frank Miller explodiu minha cabeça com “Ronin”, “Elektra Assassina” e “O Cavaleiro das Trevas”. Nunca mais parei depois disso. Os títulos que mais me marcaram foram “Legends of the Dark Knight”, uma publicação mais gótica do Batman (minha grande paixão!!), e “Sandman”. 

E como você se envolveu profissionalmente com os quadrinhos? Desde quando você escreve roteiros e qual foi o processo para publicar o primeiro. Eles foi foram independentes, certo? 
MG – Comecei profissionalmente em 2003. Eu havia acabado de concluir meu primeiro romance, O Primeiro Relato da Queda de um Demônio (Devir, 2004). Esse livro foi ilustrado pelo Marcelo Campos, um dos mais importantes artistas da história dos quadrinhos no Brasil. Foi ele quem me apresentou à Devir. O Marcelo foi o desenhista que lançou os brasileiros no mercado de quadrinhos mainstream e é o fundador/diretor da Quanta Academia de Artes, uma escola referência na formação de desenhistas. Quando ele abriu a Quanta, convidou-me para fazer parte da primeira turma de formação de roteiristas. Ele sabia do meu sonho de fazer quadrinhos. Eu fui, claro! Fiz o curso (de 5 meses) com o Sergio Codespoti, conheci muitos desenhistas e ali comecei a escrever, com o apoio pessoal do Marcelo, que me colocava em todos os projetos da Quanta. Aquele período, de 2003 a 2005, foi onde mais produzi roteiros na vida! Ganhei amigos pra vida inteira e nunca mais parei de escrever.

Numa de suas entrevistas, você comentou que a menor quantidade de mulheres leitoras de quadrinhos se deve a falta de produtos voltados para o interesse das meninas/mulheres. Você acredita que nos últimos 10 anos houve uma mudança na oferta do mercado de quadrinhos para as mulheres no Brasil?
MG – Sim. Engraçado você citar essa entrevista… Eu mudei muito minha opinião sobre isso desde então! Hoje, acho que, na verdade, as leitoras naquela época estavam mais “dentro do armário”, entende? Dez, quinze anos atrás era muito menos incomum você encontrar leitoras “declaradas” do que hoje. Falo por mim mesma. O quadrinho era, pra mim, como uma peça íntima, um momento meu… Na minha adolescência, havia muito menos eventos do que há hoje e não tinha internet… Era um outro paradigma. O mercado também era bem mais restrito quanto aos títulos ofertados. Tinha muita coisa que você só conseguia ler se soubesse inglês… Aliás, eu mesma fui estudar inglês por causa do Batman, acredite ou não! Eu adorava um título da DC chamado “Legends of the Dark Knight” que, à época, não era publicado aqui. Então eu fui aprender inglês pra ler! Acho que houve, sim, uma grande mudança no perfil das leitoras e também a abertura do mercado contribuiu para trazer as mulheres pra dentro desse universo. E tem o lado não de quem lê, mas faz quadrinho. Os quadrinhos cresceram muito em importância como literatura nos últimos anos. E isso também se deveu às mulheres que fazem quadrinho. Os quadrinhos se tornaram uma importante “voz”. Hoje, quando penso em quadrinho, quando procuro algo pra ler ou quando escrevo, não o faço pelas mesmas motivações que eu tinha quando comecei a ler… Hoje, tenho um compromisso com a mensagem, a narrativa e a estética que transcendem o tipo de quadrinho que eu devorava na adolescência. Mas isso também faz parte de “crescer”, não é? Amadurecer. E os quadrinhos amadurecem com a gente.

Você não deixa de ler quadrinhos porque cresceu, como muita gente pensa. Você só muda o tipo de quadrinho que lê. Há quadrinho pra todo mundo. Para todas as fases de nossas vidas. 

Os comics de super-heróis americanos conquistaram um grande mercado no Brasil. O desinteresse das meninas/mulheres em ler quadrinhos pode estar relacionado ao fato delas não se reconhecerem nos protagonistas dessas histórias?
MG – Bem… Não posso falar por mim… Eu sempre me identifiquei com personagens independentemente de gênero. Ora eu me via no Batman, ora no Sandman, ora na Mulher Maravilha ou na Tempestade, ora no Etrigan! E sempre tivemos personagens femininas que nos acompanharam, bem aqui no Brasil, em muitas fases de nossas vidas, como a Mônica, a Magali e a Tina, que eu adorava! Como eu disse antes, mudei de opinião sobre achar que havia um desinteresse menor das meninas por quadrinhos. Nos últimos anos, tenho conhecido um grupo enorme de meninas da minha idade (tenho 43) que liam quadrinhos tanto quanto eu e são, inclusive, bem mais “nerds” do que eu até hoje! Acho que há muitas personagens bem interessantes no universo dos quadrinhos, mas é preciso lembrar que tudo acaba na conta do mainstream e, nesse ponto, a análise acho que acaba se engessando um pouco.

Qual critério você usou para selecionar as HQs da exposição do Sesc Vila Mariana? Elas pertencem ao acervo do próprio Sesc?
MG – Elas foram adquiridas pelo SESC a partir da minha indicação. Escolhi trabalhos que gostei de ler, essencialmente, e outros que escrevi.

Essas Hqs em exposição foram escritas/desenhadas por autores nacionais, internacionais, mulheres, homens… Tem alguma característica comum de protagonismo feminino que você pôde identificar em todas as personagens ou na maioria delas? 
MG – A maioria delas são mulheres de seu tempo. São mulheres reais. Em todas as histórias há uma mensagem, um discurso que pontua ou permeia toda a narrativa, seja para enaltecer a figura feminina, seja para diminuí-la. Sim, há isso também e isso deve ser tratado.   

Pela sua experiência, você acredita a falta de espaço das mulheres como roteiristas, quadrinistas ou tradutoras de quadrinhos é mais uma questão delas não se interessarem pelo gênero ou há de fato uma resistência dos homens em aceitar que as mulheres se insiram num espaço deles?
MG – Eu sempre tive muita sorte na minha carreira. Sempre fui incentivada e tive muito apoio dos amigos que me levaram pro mercado. E eram homens! Vi artistas, mulheres, serem também incentivadas como eu fui e que, como eu, foram muito bem sucedidas. Não posso falar de uma resistência que eu não vivi, acho que seria leviano. Vou dar um exemplo que eu sempre uso quando me perguntam sobre isso: eu fiz a adaptação dos quatro títulos mais conhecidos de Sin City (Frank Miller): A Cidade do Pecado, A Dama Fatal, A Grande Matança e O Assassino Amarelo. Os leitores sempre ficavam surpresos quando viam nos créditos o nome de uma mulher! Usei Sin City como exemplo por ser um quadrinho muito violento e machista muitas vezes…

Acho que as mulheres estão conquistando mais e mais espaço, mas reconheço que as dificuldades das mulheres em mercados predominantemente masculinos é uma questão real.

Por isso considero que eu tive sorte. Por viver numa sociedade muito machista, não me sinto ainda cem porcento confortável em afirmar que tudo o que alcancei com meu trabalho foi conseguido porque sou mulher… Talvez o mais seguro fosse dizer “mesmo sendo mulher”. Mas preciso dizer, pra não ser injusta: entre os meus amigos, entre as pessoas que me incentivaram e acreditaram em meu trabalho, desde artistas a editores, eu sempre tive todo apoio, todo respeito. Nunca tive uma porta fechada pelo fato de ser mulher. Sempre fui acolhida, respeitada e, em algumas ocasiões – como no caso de Sin City – o fato de eu ser mulher só tornava tudo mais legal.

E as corujas? Qual é sua relação com elas?
MG – Eu as amo. É simples assim!

 

Publicações de Marcela

Liah e o relógio, de Marcela Godoy (roteiro) e Weberson Santiago (arte),  Devir Editora, 2008.
O primeiro relato da queda de um demônio, de Marcela Godoy (roteiro) e Marcelo Campos (arte), Devir Livraria, 2004.
A dama do Martinelli, de Marcela Godoy (roteiro) e Jefferson Costa (arte), Devir Livraria, 2009.
Romeu e Julieta, de Marcela Godoy (roteiro), William Shakespeare (autoria) e Roberta Pares (ilustração), Nemo, 2011.
Macbeth, de Marcela Godoy (roteiro), William Shakespeare (autoria) e Rafael Vasconcellos (arte), Nemo, 2012.
Fractal, de Marcela Godoy (roteiro) e Eduardo Ferigato (arte), Devir Livraria e Quanta, 2009.
Sete segundos de eternidade, de Marcela Godoy (roteiro) e Thiago Cruz (arte), primeira publicação independente, 2004. 
Schem Ha Mephorash: uma noite em Staronova, de Marcela Godoy (roteiro) e Sam Hart (arte), 2004.

— Bárbara Zocal frequentou a Mansão X até seus dezessete anos. Sua voz é seu grande poder. Com ela, inebria seus inimigos e os desacorda com habilidades de bāguàzhǎng.