Pra quem sempre quis saber como que um artista brasileiro consegue publicar nas grandes editoras como a DC e a Marvel, compartilho aqui algumas dicas preciosíssimas que consegui com grandes feras que se consolidaram nesse mercado.

Paulo Siqueira está no mercado de quadrinhos há 15 anos e atualmente desenha para a Marvel. Tendo trabalhado em títulos como o Espetacular Homem-Aranha e com roteiristas como Grant Morrison, Paulo tem uma grande experiência quando se trata de lidar com os editores estrangeiros. Com um traço impecável, o santista costuma ser atencioso com quem está começando e por isso nos contou um pouco sobre qual é o caminho das pedras para conseguir publicar lá fora.

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De acordo com o desenhista, hoje existem dois caminhos para que um artista consiga divulgar seu trabalho a um grande editor: o primeiro seria frequentando as grandes feiras de quadrinhos que ocorrem no exterior e onde os editores costumam estar. Como não é todo mundo que consegue ir para fora, uma outra opção, e que tem sido a mais popular entre os artistas, é recorrer a um agente, assim como os jogadores de futebol costumam fazer.

Pensando no fato de que nem todo mundo está familiarizado com o trabalho de um agente de talentos, conversei com Ivan Freitas, um dos responsáveis pela Chiaoscuro, a maior agência de quadrinistas do Brasil:

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Quanto tempo tem a Chiaroscuro e como surgiu a ideia?

A Chiaroscuro Studios foi criada em 2013 com o objetivo de ser uma agência de talentos para o mercado de quadrinhos, desde a identificação dos melhores projetos dentro das principais editoras ao suporte para que o artista produza o melhor trabalho possível. Além disso, também atuamos na venda de artes originais e na organização de eventos, tais como exposições de arte e a própria CCXP Comic Con Experience, da qual somos sócios ao lado do Omelete e da PiziiToys.

 

Com o acesso à internet, muitos artistas têm conseguido divulgar seus trabalhos, muitas vezes entrando em contato direto com as grandes editoras. Qual é o papel da Chiaroscuro nesse contexto?

As agências oferecem suporte que vai muito além de apresentar o artista às editoras. Cabe ao agente auxiliar no desenvolvimento do artista, orientar quanto à produção de amostras pensando em projetos específicos nas editoras, apoiar o artista em todas as etapas de produção (muitas vezes cuidando inclusive da tradução de roteiros e mesmo de emails enviados pelos editores), venda de arte, participação em eventos e todo o trabalho administrativo e financeiro para recebimento de pagamentos, entre outras tantas providências. Em síntese, a agência permite que o artista fique focado na produção de seu trabalho, deixando de todos esses outros aspectos nas mãos de profissionais competentes.

 

Qual o perfil da maioria dos artistas? A maioria realmente está envolvida com a produção de super-heróis mainstream?

No caso da Chiaroscuro Studios, sim. Isso porque os artistas que representamos trabalham principalmente para editoras nos EUA e Inglaterra, onde os quadrinhos de super-heróis são dominantes.

 

Quantos artistas vocês agenciam hoje? 

60 artistas no Brasil, Turquia, Argentina, Canadá e Portugal.

 

O que você aprendeu agenciando artistas e quais são as maiores dificuldades que encontra no meio?

Cada artista tem necessidades e características diferentes e isso precisa ser respeitado. Cabe a nós orientá-los sobre as oportunidades e dificuldades que essas escolhas representam. Talvez a maior dificuldade seja a falta de conhecimento do público em geral (e mesmo de muitos artistas!) sobre como se dá a relação agência-artista: os artistas que representamos não são funcionários da Chiaroscuro Studios. Na verdade, são eles que nos contratam para representá-los nós somos prestadores de serviços desses artistas.

 

E como não poderia faltar, que dicas você daria a um artista que gostaria de se aventurar no mercado internacional?

É preciso que o artista entenda quais são os requisitos exigidos pelo mercado no qual esse artista quer entrar. Por exemplo: desenhar uma revista mensal na DC Comics ou na Marvel, por exemplo, significa produzir 20 páginas por mês. E o caminho para chegar ao convite para desenhar (ou arte-finalizar ou colorir) uma revista mensal é muito longo, pois uma editora como a DC Comics publica aproximadamente 60 revistas por mês e essas 60 vagas são disputadas por profissionais do mundo todo. Existe vários outros pontos que um artista que aspira entrar nesse mercado deve considerar, mas talvez a principal recomendação é: seja humilde. Humildade para ouvir e crescer com as críticas, para aceitar trabalhos menores pois são o caminho para trabalhos maiores, para se inspirar em quem já trilhou o caminho que ele quer trilhar, mesmo que seja para construir algo totalmente novo.

 

O colorista Aikau (Alice Cooper – Dynamite), que participou de um bate-papo na Gibiteca de Santos no mesmo dia que Paulo Siqueira, também falou sobre as dificuldades que encontrou para conseguir seu primeiro trabalho lá fora. Lembrou que embora seja preciso estudar muito para fazer um bom trabalho, há menos coloristas que desenhistas, portanto, a concorrência é menor. Ainda assim, os artistas frisaram que é importante que os aspirantes a quadrinistas confeccionem seus portfólios da seguinte maneira quando forem apresenta-los a outros artistas e editores: Papel A3, com uma média de 8 folhas, um pôster e pelo menos 3 sequencias de painéis com trabalhos recentes. Ambos lembraram que álbuns de sketches não ajudam os avaliadores a perceber se o desenhista consegue trabalhar com perspectivas e cenários. Para o colorista a mesma coisa, é preciso atenção ao fato de que a cor usada na tela não é a mesma que será impressa. Apresentar trabalhos em pen-drives ou celulares não é atraente e estar aberto às críticas é imprescindível.

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E aí? Pronto para se lançar no mercado internacional de quadrinhos?

http://chiaroscuro-studios.com/

http://marvel.com/comics/creators/7413/paulo_siqueira

http://aikau-colorist-2014.deviantart.com/

— Dani Marino é formada em Letras e ainda não decidiu se prefere viver no Sonhar, em Nárnia ou em Hogwarts.