Quando penso numa palavra que consiga definir minha primeira sensação ao ler AfroHQ, do Amaro Braga, fico inevitavelmente em dúvida entre “primorosa” e “carinhosa”. É simples: A obra em quadrinhos deixa claro em diversos aspectos, que exigiu muito de seus realizadores, do próprio Amaro organizando e batalhando sua publicação, às artistas que deram vida a isso, Danielle Jaime e Roberta Cirne. Lançada em 2010, em Recife, através de incentivos do Funcultura, Fundarpe, da Secretaria de Educação e do Governo de Pernambuco, sua função educativa está presente e ainda que não seja perfeita no trato, é carinhosa e primorosa no desfecho.

Com os pés inseridos nos campos científicos da antropologia e sociologia, Amaro Braga esforça reflexão sobre as religiões e as artes, claramente presentes na obra AfroHQ. O álbum é parte do projeto exitoso em Cultura Afro-Brasileira e Africana em Quadrinhos, com aprovação do Fundo de Cultura e do Governo Estadual de Pernambuco, 2 anos antes. Imagino que tenha sido um trabalho e tanto, uma correria danada, um estresse sem fim, mas que tanto suor encerrou-se numa obra primorosa no trato com pesquisa, texto e imagens. Quaisquer deslizes que possam ser encontrados nos discursos presentes na HQ logo caem por terra pela cortês mea culpa que o autor faz no texto de apresentação.

Uma trama bem elaborada consegue unir o panteão principal de Orixás, resgatando não apenas a história do povo negro, por conseguinte uma visão básica sobre história da África, chegando à história do Brasil e seus conflitos mais significativos envolvendo as questões raciais. A carinhosa arte da parceria entre Danielle Jaime e Roberta Cirne não conquista pelo perfeccionismo estético, mas pelo primor com os detalhes, fazendo a leitura visual não correr tão desesperada como num quadrinho mais comercial, mas devagar, onde o leitor possa saborear os símbolos e seus significados. A produção artística artesanal, “feita à mão”, só deixa tudo ainda mais belo, fico imaginando como ficaram esses originais.

O álbum trata carinhosamente as questões raciais, fazendo a devida valorização da construção social que chamamos “raça” (já que geneticamente ela é um engodo) e tratando de heranças culturais e de conhecimento com respeito. Não provoca querelas entre “pretos e brancos”, mas permite uma reflexão do quando essas coisas estão tão inseridas em nosso modo de viver que nem mais podemos falar em purezas. Uma mistura saborosa, que em algumas imagens nos quadrinhos fica clara. O quadrinho tem som, em canções, cantigas, tem poesia nos Orixás e suas falas, tem cheiro e sabor nas moquecas, nos vatapás, nos quitutes, casando sem conflitos a culinária árabe africana com a culinária portuguesa e indígena, formando a brasilidade no prato. Como o próprio Amaro diz, “e nós brasileiros somos coloridos”.

 

Mais informações sobre o quadrinho em seu site: http://afrohq.blogspot.com.br/

— BATMAN em tempo integral e Historiador nas horas vagas, busca a verdade e enfrenta vilões em ambas as ocupações!