IMG_2018Por Thaise Amorim*

*Thaise Amorim é convidada do Quadro a Quadro. O conteúdo desse post expressa a opinião da autora, que é plenamente responsável pela mesma.

 

 

Jurassic Park faz parte daquele compilado de filmes que mesmo quem não gosta de ficção científica já viu ou já ouviu falar. Para surpresa de algumas j1pessoas, além de quatro filmes – sendo o último lançado em 2015 –, há um livro que, porventura, tem uma ótima essência. A narrativa do livro não deixa de lado os detalhes, pelo contrário, ela é pontual em suas explicações, nas descrições das cenas e dos personagens. O livro quase convence que a história seja um relato de um desastre contado de forma lúdica.

Felizmente, a obra foi uma “viagem fantasiosa” de Michael Crichton. O pai dessa história resolveu vender os direitos de adaptação do seu romance para a Universal Studios em 1990 e, em 1993, foi lançado o primeiro filme, que foi dirigido por seu amigo, Steven Spielberg.

Apesar do sucesso cinematográfico e da revolução no âmbito visual, a franquia não soube mostrar a essência real da obra de Crichton. Sem clichês em relação à célebre frase “O livro é sempre melhor do que o filme” (até porque o filme é muito bom), mas o problema da vez foi a amenização da principal mensagem da obra: a fronteira entre a compreensão e o conhecimento científico.

Crichton inicia o livro com um breve prefácio que alerta, ensina e enfatiza os perigos da biotecnologia e da engenharia genética. Ele não restringe os ensinamentos só nessa parte. Ian Malcolm, cientista essencial do livro, tem passagens únicas e significativas para o livro. Ele foi o elemento principal para quebrar paradigmas e alertar sobre uma possível desordem, dada no livro como Teoria do Caos. Na obra, essa teoria é explicada e colocada de forma pontual, chegando a ser inverossímil. No filme, a mensagem do matemático é reduzida, banalizada, pouco explorada e explicada de forma cômica. Infelizmente, Malcolm não passou de uma figura caricata. Ele foi além disso, Hollywood, ele foi muito além disso.

Em sua obra, Crichton coloca o bilionário Sr. Hammond em seu devido lugar. Sonhador e egoísta, ele faz questão de mostrar que o parque serviu para atender aos seus interesses de empreendedor ganancioso. No filme, Hollywood fez questão de colocá-lo como sonhador, um ser humano “real”, cheio de defeitos e anseios que, no final das contas, só queria a felicidade das crianças. Até eu tive pena dele quando tudo deu errado.

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O filme procurou um culpado e esse culpado – claro que não foi o Hammond– foi Dennis Nedry, o funcionário que tinha problemas financeiros, ganhava mal e, por conta disso, seus olhos “brilharam” quando recebeu uma oferta para contrabandear embriões. Quem comprou a ideia de que, se ele não tivesse aceitado a proposta, o parque estaria em perfeito estado, escolheu a cegueira. O parque tinha tudo para dar errado, desde as extrapolações no âmbito tecnológico, como falhas na engenharia genética, nas medições e noções da sua própria capacidade. O livro capta essa mensagem da forma mais genial possível: o progresso existe, mas não brinque de “Deus”, porque a ciência ainda pode ser imprevisível.

j3O filme não abre espaço para que o expectador faça as devidas reflexões. Já no livro, além de criticar o abuso da revolução tecnológica de forma correta, não peca nos detalhes e, merecidamente, ganhou uma edição magnífica da Editora Aleph.

Poderíamos trazer o universo Jurassic Park para a nossa realidade, uma discussão hiper atual em relação aos problemas dos transgênicos com os quais temos que lidar todos os dias no mercado. Organismos geneticamente modificados são geniais, por outro lado, qual o preço que pagamos?

É, Ian Malcolm, talvez o seu lugar de fala não tenha sido tão importante naquele momento. Mas um dia será, espero eu.

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Thaise Amorim vive em uma eterna indecisão: fica em casa imaginando uma árdua discussão com Capitão Haddock ou gasta metade do pouco salário e vive outras aventuras?

— Guido queria ser um personagem de histórias em quadrinho. Depois de ler Will Eisner se contenta em ser um personagem de uma história sem quadros.