Na última semana, presenciei e vivenciei o surgimento de uma série de questões que muito tem a ver com as histórias em quadrinhos enquanto objeto de estudo científico. Entretanto, antes de chegar ao que de fato lançarei em discussão, trago a lembrança de alguns pontos chaves.

Dúvida certamente não há dúvida sobre como o Iluminismo, enquanto corrente de pensamento, conferiu diversos avanços para os estudos científicos, principalmente para as chamadas ciências exatas: física, química, biologia, matemática…

O Iluminismo pregava a razão, combatendo todo o pensamento dogmático que reinava dominante pela Igreja; o Teocentrismo tinha como base toda uma explicação de cunho religioso para justificar o mundo; seus predecessores, os iluministas, derrubaram com essa forma de pensar e divulgaram o pensamento racional, lógico, universal como uma forma lógica de pensar aquele mundo que já não era mais plano.

E o que isso tem a ver com quadrinhos?

Calma, chegarei lá…

 

Partindo do pressuposto que vivemos em um determinado momento histórico, qual seria este estão? Tendo-se passado dez anos de século 21, como classificar essa era? A resposta é vaga, cheia de fronteiras não delimitadas e muita discussão calorosa irá circunda-la. Entretanto, muitos afirmarão categoricamente: “Estamos na pós-modernidade”.

E, como indivíduos pós-modernos, devemos pensar como tais. Ou pelo menos tentar.

E o que isso tem a ver com quadrinhos, mais uma vez perguntam…

Muita coisa, mas calma que chegarei lá…

 

Muito dos pensadores da pós-modernidade criticaram e muito a forma de pensar do Iluminismo; autores como Derrida e Foucault alertam para o perigo de pensar como os iluministas pensaram: uma forma dicotómica de realidade, onde o indivíduo tornou-se não “um”, mas sim um “geral”, onde o iluminado – aquele conhecedor das ciências – estaria em um patamar elevado em detrimento do que o mísero “integrante do geral” teria a oferecer. E, subjacente a esse pensamento, há um discurso de exclusão do outro, um discurso em que um é considerado mais importante e o outro, renegado. Um discurso de poder. Entretanto, não é de poder que quero falar aqui. E em um mundo em que as relações interhumanas se tornou tão instantânea e intensa, não há como negar que aquele indivíduo possui um papel, uma voz, uma história, um ponto de vista…

As universidades brasileiras, muitas delas, ainda se pautam no pensamento iluminista no que tange as pesquisas científicas; logo, para se ter um objeto de estudo, o pesquisador tem que pensar de forma dicotómica, lógica, no pragmatismo que aquele estudo dará a sociedade.

E os quadrinhos com isso?

Muita coisa.

 

Um dos grandes entraves em se estudar quadrinhos é justamente essa forma de pensar iluminista que, na minha opinião, já não se sustenta mais. Não, não estou desmerecendo o Iluminismo. Entretanto, existe muito choque na concepção de “ciência” dos iluminados e  nas possibilidades de estudos que a nona arte tem a oferecer. E é por isso que muitos pesquisadores se sentem “confortados” nos braços das inumeras teorias pós-modernistas. 

As histórias em quadrinhos são produtos de uma cultura, uma sociedade, localizada históricamente; ela traz em si uma fala, um discurso, uma proposta de produção. Um texto. O leitor é um indivíduo do seu tempo, não autônomo, em constante construção discursiva, produtor de significados mil, um diferente do outro.

O nosso mundo mudou tanto e continua mudando a uma velocidade enorme, que precisamos pensar as nossas ciências de uma nova forma; não excluir o que já foi feito mas agregar o que esse admirável mundo novo tem a oferecer.

— Adalton nasceu no último dia de uma lua cheia, mas acha que isso não tem nenhuma relação com a sua vida; começou comprando quadrinhos por puro modismo - uma edição da Turma da Mônica parodiando Jurassic Park; sua primeira compra consciente foi a edição nº 01 de Batman: A queda do Morcego, ainda formatinho. Acredita que irá terminar a graduação em Letras antes da catástrofe de 2012 e daqui até lá está estudando parte das traduções intersemióticas das peças de Shakespeare já produzidas. E nos interlúdios, tenta produzir roteiros a partir idéias rabiscadas em antigos pedaços de papel.