Quem segue o QaQ sabe que costumo acompanhar lançamentos e eventos relacionados às HQ independentes e deve ter percebido que os blogs especializados desempenham um papel fundamental na divulgação desses trabalhos que não costumam ter muito espaço na mídia tradicional.

Eu não tinha interesse especial por “Por mais um dia com Zapata” só porque, apesar de ter preferência por histórias fechadas e biográficas, eu não me sentia atraída por esse personagem ou mesmo por história de guerrilhas mexicanas. Por isso, fico feliz que tenha superado minha birra e seguido com a leitura.

Com roteiro de Daniel Esteves e arte de Alex Rodrigues e Al Stefano, a luta de Emiliano Zapata conta com um aliado fictício (Brasileño) mas que foi fundamental para que esse episódio da história mexicana pudesse criar uma conexão com um episódio brasileiro que guarda algumas semelhanças com a luta ocorrida em outro país: Canudos.

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Embora as batalhas tenham ocorrido em momentos diferentes, a conexão entre as duas é muito bem amarrada,o que não prejudica seu potencial didático, ainda que o objetivo não tenha sido este. Zapata é uma figura histórica por quem Daniel sempre teve muita admiração e por meio dos diálogos entre os personagens, é impossível que o leitor não crie alguma conexão com a narrativa, pois são retratados de forma extremamente humana. Tão humana que eu me peguei aflita em alguns momentos, como se conhecesse aquelas pessoas. Tive um sentimento de que se estivesse ali, lutar ao lado daquele grupo que cansou de esperar que a civilidade resolvesse os problemas relacionados à opressão, e desigualdade social, seria um caminho natural.Você termina de ler e percebe que precisa saber mais sobre o que aconteceu no México, o que pode ser feito usando as referências disponíveis na própria HQ.

Como Daniel é uma pessoa extremamente acessível a atenciosa, não só me respondeu a algumas perguntas com a maior paciência, como me deu uma baita aula de História enquanto conversárvamos (ele é Historiador graduado), com direito a print exclusivo e tudo:
 

Meu interesse pelo tema surgiu ainda na época da faculdade de História há mais de dez anos. Foi a primeira revolução social na América Latina contemporânea, e uma das primeiras do mundo. A Revolução Mexicana se inicia antes mesmo da Revolução Russa, tem uma carga dramática enorme e muitas tendências discordantes. Emiliano Zapata teve um papel fundamental nas demandas mais populares e, pela fidelidade aos oprimidos, tornou-se um símbolo para aquele povo. Não é a toa que ainda hoje existam "Zapatistas" pelo mundo todo. Aquele período traz uma dose enorme de poesia, idealismo, violências e potencial inspirador. E isso pode ser estendido a atualidade, pois muitas das demandas dos Zapatistas são ainda atuais. Por isso a relevância de falar sobre esse período e personagens históricos. Recebo pleno de satisfação as imagens do quadrinho chegando até descendentes de Zapata. Queremos publicá-lo no México, mas ainda não temos nada concreto. Quem sabe em breve!

O livro foi baseado em extensa pesquisa, não só em livros e artigos de historiadores, como também em filmes, documentários e, sobretudo, em documentos encontrados aos montes na internet. Desde cartas de Zapata a outros revolucionários, manifestos zapatistas da época, matérias de jornal, informes do quartel general, depoimentos escritos e orais de sobreviventes zapatistas, fotos, desenhos, músicas, entre outras fontes primárias.

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A imagem  é do momento que os revolucionários do Sul (liderados por Zapata), e do norte (liderados por Pancho Villa), entram na capital e ocupam o palácio do governo, após derrubar o governo ditatorial e golpista de Victoriano Huerta em 1914. Apesar do poder estar ao alcance de ambos, devido a grande popularidade que o nome deles possuía durante a revolução, eles não quiseram ocupar a cadeira presidencial, deixando o governo do México a cargo de uma comissão de revolucionários de todo o país.

Na HQ este momento é retratado e  Zapata é convencido a ao menos tirar uma foto ali nas cadeiras, mas diz que deviam queimar a cadeira presidencial, pois todos que nela sentaram esqueceram do povo…

Não há muito o que falar sem fornecer spoilers, ainda que grande parte da história seja algo conhecido por muita gente, mas talvez uma dica seja ler o “Plano de Ayala” e da “Ley Agraria” que estão no fim da HQ antes da leitura da história e que foram confeccionadas graças à luta encabeçada por Emiliano Zapata.

No mais, por ser uma leitura densa e que requer atenção, sugiro que separe um momento tranquilo pra fazer isso e aproveite essa que vai ser uma jornada reflexiva, intensa e certamente muito enriquecedora. Espero que curtam e se juntem ao coro: Viva Zapata!!!!

— Dani Marino é formada em Letras e ainda não decidiu se prefere viver no Sonhar, em Nárnia ou em Hogwarts.