PitecoInga_capaComo muitos de vocês, comecei a aventura dos quadrinhos lendo ainda criança as histórias da Turma da Mônica. Na época, meus primos mais velhos tinham assinatura e após lerem as revistas me passavam as edições, dividindo os custos (eram os anos 90 e o dinheiro era curto após Collor); as tramas, de uma pureza e humor sutis, eram extremamente divertidas, com crianças de olhos grandes passeando por cenários cujos céus mudavam de cor a cada quadro (sempre adorei o fato de que os animais na Turma da Mônica eram todos coloridos, desde o coelho azul Sansão até um elefante verde!), enfim, havia algo ali que encantava e graças aos deuses dos quadrinhos, continua a encantar.

E com sinceridade, jamais reparei em Piteco, que me parecia aquele tipo de personagem tampão usado para preencher as páginas que faltavam na edição do mês  e só.

Por isso, foi uma surpresa constatar que, de todas as edições lançadas pela MSP, o álbum Piteco – Ingá é de longe o mais arrojado e original, desde as páginas pintadas com aquarelas de cores densas e luminosas até a abordagem ao explorar o universo pré-histórico do protagonista, cheio de perigos e infinitas possibilidades.

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Graças a maestria de Shiko, artista polivalente até então conhecido por trabalhos autorais que não só ilustra como escreve o enredo, uma jornada épica envolvendo antigas disputas tribais, a busca por um novo lar e o combate entre divindades. O autor explora nosso passado mítico ao mostrar a lendária Pedra do Ingá, situada na Paraíba e cujos belos símbolos até hoje intrigam os estudiosos.

PitecoInga_img03A trama abre com uma terrível seca, que faz o rio ao longo do qual vivia a tribo desaparecer e provoca uma migração para terras mais férteis (há algo mais sertanejo?). Segue-se o rapto de Thuga, sacerdotisa de Lem e interesse amoroso de Piteco, iniciando a uma busca ao longo dos territórios selvagens onde habita o povo de Ur e os domínios dos homens tigres.

É interessante a maneira como o visual de Piteco foi desenvolvido, seus traços remetendo ora a um hippie descolado, ora a um guerreiro bárbaro – e há quem diga que lembre muito Zé Ramalho, cujo álbum Paebirú- O Caminho para a Montanha do Sol, produzido nos anos 70 se baseava nos glifos da Pedra do Ingá.

PitecoInga_img06A beleza da história está na forma como o Shiko bebe da mitologia latino-americana para construir os deuses e criaturas da pré-história, além de estabelecer as características que destoam os grupos; o povo de Lem tem penteados trançados e “rastas”, uma depuração do estilo Maurício de Souza de desenhar cabelos, enquanto os homens tigres se vestem com elegantes peles, remetendo aos guerreiros Jaguar dos Astecas e o povo de Ur, que vive na selva, adorna a cabeça com flores e frutos; há uma tribo na Etiópia que faz o mesmo, os Surma e Mursi, prova de que houve bastante pesquisa para enriquecer de referências essa Graphic Novel, que sem dúvida fecha com perfeição a maravilhosa iniciativa da MSP.

Em relação ao preço, a versão capa dura em livrarias está por R$ 29,90 e nas bancas por R$ 19,90, bons preços em um mercado onde cada vez mais os preços alcançam patamares absurdos.

Um viva para o editor Sidney Gusman pela escolha do artista, para Shiko, esse nosso nordestino talentoso, e que os deuses dos quadrinhos permitam uma continuação o quanto antes para a jornada de Piteco e o povo de Lem nas míticas vastidões da pré-história.

Serviços:

Título: Piteco – Ingá
Autor: Shiko
Número de páginas: 80
Formato: 20 x 29 cm
Preço: R$ 29,90 (capa dura) e 19,90 (brochura)

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— Hugo Canuto é arquiteto e quando o tempo permite, ilustrador. Interessado por mitologia e literatura antiga, se apaixonou pela Nona Arte aos nove anos, ao ler "O Cavaleiro das Trevas" e desde então não largou mais, formando uma biblioteca que preenche seu quarto e serve de cama, mesa e travesseiro.