O_Despertar_de_Ze_FogueiraMemórias. Todos nós temos as nossas, tanto que futuramente seremos produto delas. 
Para seu Zé, um mero catador de latinhas perambulante em Uberlândia (MG), memórias são sinônimo de transtornos, flashes desconexos e perturbadores, que queimam seus pensamentos da mesma maneira que casas e crianças se desintegram em seus pesadelos. É nessa toada que o uberlandense Rainer Petter lança a HQ (que terá continuação) O Despertar de Zé Fogueira.

O ponto de partida é quando o morador de rua, e sua inseparável cadelinha Futrica, encontra em uma lixeira uma velha e saudosa Polaroide (para quem não conhece, é uma câmera fotográfica que sai a imagem de pronto), com um recurso curioso: o de fotografar cenários e pessoas conforme a data programada nela. Ou seja, o passado ressurge e nele suas cicatrizes e alegrias. 

Eis aí uma sacada interessante que Petter aborda na história, quem nos norteia é a própria câmera fotográfica, conduzindo e costurando os acontecimentos de Zé e seus fantasmas. Nesses flashes, recebe a acusação de incendiar uma praça, tem visagens de crianças queimadas, clamando por “pai”, sendo que ele mesmo não lembra da fisionomia de seus filhos.

o-despertar-2Seria Zé um criminoso ou o passado está pregando peças? Será que aquela traquitana que ‘rouba almas’, como diria meu avô, irá ajudar ou atrapalhar a situação? São questões ainda por esclarecer, mas que já na primeira parte de Despertar… mostra o tom instigante – como o conto “Perícia Perfeita”, de Mariana Bizzinotto (também assistente de roteiro), que revela o próprio passado da Polaroide a nós leitores.

Mais instigante, amigo leitor, é Petter, literalmente, despertar em nós aquilo que a humanidade tanto se questiona no decorrer da existência: é possível reparar o que já foi feito? Tentar, de certa forma, apagar as burradas cometidas? “O que não tem remédio, remediado está?” Excluir do coração as feridas que muitas vezes deveríamos deixar lá, nesse passado que teima em voltar?  E quando esse passado provém de um excluído, no caso, o pobre e moribundo Zé? Será que Zé conseguira êxito? 

Só sabemos que são mistérios que poetas, cineastas e escritores já tentaram descrever, mas cabe a nós mesmos dar rumo a essa estrada. E, com sorte, encontrar-nos.

Como diria o poeta Milton Nascimento, na canção “Encontros e Despedidas”: “o trem que chega é o mesmo trem da partida”. 

— Jornalista freelancer, moradora de S. Miguel Paulista - SP e também colabora para o portal Jornalirismo (www.jornalirismo.com.br). Nas horas vagas, lê Quadrinhos. Nas outras também. Mais em http://twitter.com/keliv1