Em parceria com o GIBI RASGADO

 

Diversão que faz bem

Existem sentimentos bons e ruins. E dentro deles coisas grandes e pequenas. Por exemplo: quando nasce um filho é, via de regra, um sentimento bom e dos grandes, quando morre alguém querido é uma coisa ruim – e bem grande também.

Mas vamos ficar só nas coisas boas. E bem pequenas…

O prazer de um gol no futebol de fim de semana, a diversão de um escorregão na grama molhada do parque, o riso solto quando um desconhecido resolve contar para todo mundo, em plena segunda de manhã naquele ônibis lotado, a desgraça que foi seu fim de semana ao lado da sogra…

Coisas divertidas, banais, mas que quando somadas definem se você tem ou não uma vida feliz.

E nesse nosso multiplural mundinho de nerds isso também acontece. Tem gente de todo tipo: quem só lê quadrinhos nas tiras de jornais, quem adora a Turma da Mônica e não suporta a idéia de que eles ficaram adolescentes e estão em preto e branco, o cara que acha que quadrinhos de super heróis de verdade só existiram até a década de 80, gente que acha que o cara que curte os heróis dos 80 é um velho retrógrado, tem quem só lê os europeus, tem quem prefira Tex, outros preferem o Ken Parker e há quem não goste de nenhum dos dois e se diverte mesmo com um bom gibi de zumbi.

Mas uma coisa acontece com todos nós, independente de suas preferências: o prazer inesperado de cruzar com uma boa história.

Sabe aquele gibi que você viu na banca ou na comic shop, que nem faz muito sua cabeça mas você comprou só pra ver qual é que era? Dai você coloca na pilha de coisas pra ler e acaba se esquecendo dele?

E num belo dia, organizando sua coleção, aquele danado daquele gibi cai de algum lugar. Você olha para ele, tentando se lembrar quando e onde aquilo veio parar em suas mãos. Como todo bom colecionador, você pára de arrumar sua coleção para ler o gibi (isso acontece no mínimo 19 vezes num período de 04 horas).

E aí você cruza com uma baita história bacana, que te arranca um sorriso e faz você se lembrar porque ama esse negócio chamado gibi.

Acho que sou um cara de sorte, porque isso aconteceu comigo duas vezes nessa semana…

 

1º Sorriso

A primeira surpresa foi realmente inesperada, pois veio de algo que definitivamente não teria comprado, simplesmente porque não teria visto na banca. Por indicação dos amigos Marcelo Fontana e Lucas Pimenta, umas 03 semanas atrás, comprei um gibi da Disney – coisa que não fazia há muito tempo. No caso a edição nº 821 do Mickey (que nem é o meu preferido da turma).

Um gibi de R$ 2,95 e que deve ter passado despercebido pela maior parte dos caras que lêem quadrinhos, mas que trazia em sua capa algo que chamaria a atenção de qualquer um: “Obra Prima: Disney encontra Salvador Dalí”.

A história intitulada Mickey e a Viagem Surreal pelo Destino conta o encontro do pintor surrealista Salvador Dalí com Walt Disney, que ocorreu realmente em 1945 e rendeu a animação Destino, iniciada a partir daquele encontro mas só concluída em 2003. Só que nessa história, além de Disney e Dalí, temos também a participação de Mickey, Pateta e Donald.

Imaginem vocês o atrapalhado trio dentro de pinturas como “A Persistência da Memória” ou “A Tentação de Santo Antonio”. Mas só ao ler a história que você percebe a genialidade da idéia. Uma ótima viagem para quem curte os personagens Disney ou pra quem curte quadrinhos e arte em geral, além de ser uma excelente introdução ao fantástico mundo do pintor catalão, sobretudo para as crianças.

E isso executado com maestria pelo roteirista Roberto Gagnor e o desenhista Giorgio Cavazzano, ambos da Disney italiana. Aliás a arte merece um comentário à parte: toda feita em estilo retrô, cria o clima perfeito para uma história que se passa na década de 40.

E além da história, mais dez páginas de extras. Obra Prima? Não. Obra Prima é o Tio Patinhas de Carl Barks. Mas por R$ 2,95, meu irmão, não tem desculpa pra não adquirir uma história maravilhosa.

 

2ª Surpresa (com direito a uma gargalhada daquelas)

A outra surpresa veio de um lugar que eu sabia que tinha coisa boa, só não imaginava que cruzaria com uma história excepcional.

Editada com o apoio da Secretaria Municipal de Cultura da Prefeitura de Uberlândia, a ótima Revista A3 chega ao seu segundo número. A publicação é a prova que alguma coisa está errada na política cultural da maior parte das cidades brasileiras, inclusive as grandes metrópoles.

O roteirista e jornalista Matheus Moura reuniu um time de peso e trouxe ao público, por módicos R$ 3,50, ótimas histórias de terror,  ficção e aventura. São mais de 100 páginas de quadrinhos por edição, a cores e p&b. Fomento à produção de quadrinhos, com qualidade e preço acessível (mesmo) a qualquer um… Quero ver os caras que cobram 60 contos por um encardenado com material gringo fazerem melhor.

A má notícia? O projeto só previa dois números e o futuro da excelente publicação é incerto. Se não conseguir garfar nenhum outro edital, é provável que não volte a ser publicada, pelo menos não com o mesmo custo/benefício. O que seria uma pena.

Mas nesse segundo número, cruzei com a excelente O Exorcismo de Rosinha, da série Máquina Fantasma, criação de Walter Pax, com roteiro de Jerri Dias.

E desafio qualquer um a me provar que essa não é uma das melhores e mais divertidas histórias de terror publicada nos últimos dez anos.

Brasileiríssima, irreverente, cruel e – principalmente – bem contada.

Uma surreal Kombi modelo anos 60, soltando fumaça preta e tossindo mais que fumante de 70 anos, cruza uma dessas estradas típicas do interior brasileiro, onde não tem nada de lado nenhum da pista e cujo único destino só pode ser o fim do mundo. Seu piloto é uma mistura de Keith Richards com Valdique Soriano e seu único passageiro um enorme dog alemão preto. Ou seria um pastor belga? Sei lá, sei que o bicho é grande.

Sua missão? Tirar o demônio do corpo de uma gostosa, digo, de uma donzela numa dessas cidadezinhas esquecidas desse Brasilzão de meu Deus.

E para isso o estranho exorcista se utilizará de métodos, digamos, nada convencionais…

Sem um único diálogo, se utilizando apenas de signos nos balões de fala, temos uma história que só pode ser comparada com um bom e velho rock and roll do Black Sabath.

O insólito exorcista de Máquina Fantasma podia dar uma carona em sua Kombi para o Necronauta* (que anda com seu necrodisco meio zoado) e ir tomar uma cachaça na casa do Zé do Caixão, do Prontuário 666**, pra comemorarem essa nova geração do terror nacional.

Excelente, além de ter me rendido a melhor gargalhada que dei com um gibi nos últimos tempos.

Como disse no início, são em situações banais que vamos somando alguns dos melhores sentimentos que temos na vida.

“Mickey e a Viagem Surreal pelo Destino” e “Maquina Fantasma” são exemplos desses pequenos prazeres que fazem nossa vida um pouquinho mais feliz.

E, ao menos pra mim, possuem o mesmo sabor de escorregar morro abaixo, na grama molhada, trepado num pedaço de fórmica…

 

 

* Necronauta é um dos mais originais personagens brasileiros dos últimos tempos e uma criação de Danilo Beyruth.

** Prontuário 666 é o nome do excelente álbum que conta os anos de cárcere de Zé do Caixão, do impressionante e versátil Samuel Casal.

— morreu num acidente inexplicável na Serra da Cantareira. Antes que seus familiares percebessem, já havia virado um Zumbi. Para aplacar sua fome por cérebros humanos, passa as noites escrevendo no Gibi Rasgado. Seus amigos, com medo de seu apetite insaciável, o convidaram também para escrever no Quadro a Quadro. No momento ele está sob controle.