Atica_Quando-eu-cresci-1Lucas Pimenta, idealizador deste blog, baiano dos bons e irmão de coração, foi taxativo ao se referir ao álbum Quando Eu Cresci, de Pierre Paquet e Tony Sandoval (Agaquê, R$ 35,90):

“Tenho a impressão que você vai adorar isso.”

Ou o Lucas é algum tipo de paranormal ou eu sou um cara meio óbvio.

Ou o gibi é bom de verdade.

Mas vamos do começo.

O selo Agaquê pertence a Editora Ática e Quando Eu Cresci é seu álbum de estréia. A Editora Ática não é nenhuma novata no mundo dos quadrinhos, há anos vem lançando adaptações literárias como O Alienista (de Machado de Assis, por César Lobo e Luiz Antonio Aguiar), O Guarani ( de José de Alencar, por Ivan Jaf e Luiz Gê), O Cortiço (de Aluízio de Azevedo, por Ivan Jaf e Rodrigo Rosa), entre outras.

Aparentemente, o selo Agaquê vem se juntar à recém criada Editora Nemo na publicação de material europeu, um filão de nosso mercado que até alguns anos atrás agonizava e que só não morreu porque ainda consumíamos Asterix, mas que hoje já é alvo de editoras como Quadrinhos na Cia, Leya/Barba Negra e Zarabata Books.

Reflexo inesperado e muito bem vindo de um mercado em visível expansão.

E impressiona o bom acabamento da edição, 96 páginas coloridas acondicionadas no agradável e incomum (para os padrões nacionais, diga-se) formato de 23 x 31,5 cm.

Feitas as apresentações, vamos ao gibi.

Pepe é um garoto de 11 anos com uma imaginação muito maior que seu diminuto corpo. Tudo vai bem em sua desvairada vida de moleque traquina até que um dia, prestes a aprontar mais uma, é surpreendido em sua casa pela estátua do menino Jesus, que resolve inesperadamente ganhar vida.

Pepe resolve segui-la por um buraco na parede e é aí que tudo degringola.

Aprisionado dentro de sua própria parede, Pepe terá que cruzar um território de mundos desconhecidos e fantásticos, por vezes mágico, por vezes insólito, em outras triste, mas sempre perigoso e belo.

un-regard-par-dessus-l-epaule-plancheNesse sentido, Quando Eu Cresci se aproxima de Alice no País das Maravilhas, com sutilezas e metáforas dignas do romance de Lewis Carrol.

Mas só no que se refere a mundos fantásticos como alegorias de nossa realidade. Quando Eu Cresci é um gibi triste.

E lindo.

Os mundos criados por Paquet e belíssimamente ilustrados por Sandoval giram em torno de dois temas: o tempo e a morte; e de como eles estão intimamente ligados.

Em sua insólita peregrinação em busca do caminho de volta pra casa, Pepe aprenderá importantes lições sobre esses dois temas, e de que quebra será apresentados a outras coisas, como o amor, a doença, a solidão e as consequências de suas decisões.

Da inesperada animação de uma estátua de gesso até o confronto final com a fera que o persegue durante todo o gibi, Pepe conhecerá animais gigantes, jardineiros neuróticos, burocratas doentios, amantes solitários e alguns seres mágicos. Nenhuma cena é gratuita e todas dizem muito mais do que uma primeira leitura pode revelar.

Por isso, Quando Eu Cresci é um gibi para ser lido várias vezes. E a cada leitura descobriremos algo novo, que não estava ali antes.

De uma sutileza impressionante, Paquet vai distribuindo pistas importantes sobre o que realmente trata a história em cada mundo visitado por Pepe. Mas a cena crucial passa despercebida a todos e só se mostra em toda a sua magnitude nas últimas páginas.

Na metade do gibi, Pepe alcança uma enigmática figura encapuzada que – acredita o menino – pode ajudá-lo a encontrar o caminho de casa.

Algumas páginas depois voltará a encontrar a figura, ou o que restou dela.

E toda a beleza do gibi está naquela página.

E toda a dor também.

A Editora Ática, com seu selo Agaquê  trouxe para o Brasil um álbum belíssimo e sensível. Um tipo de obra que encara e desmente o errôneo conceito, amplamente difundido, de que quadrinhos são apenas entretenimento e não possuem a profundidade da literatura ou do cinema.

Os europeus entenderam isso de forma aguda e exploram, há mais de cinquenta anos, as possibilidades narrativas dessa forma de arte.

Os editores brasileiros finalmente começam a perceber que existe um público interno que aprecia e consome esse tipo de produto.

No fim das contas talvez eu não seja um cara tão óbvio assim e nem o Lucas seja um tipo de paranormal.

Somos apenas caras que gostam de quadrinhos.

stract_from_un_regard_pdl_by_tonysandoval-d32fszj

— morreu num acidente inexplicável na Serra da Cantareira. Antes que seus familiares percebessem, já havia virado um Zumbi. Para aplacar sua fome por cérebros humanos, passa as noites escrevendo no Gibi Rasgado. Seus amigos, com medo de seu apetite insaciável, o convidaram também para escrever no Quadro a Quadro. No momento ele está sob controle.