marcelo1Por Marcelo Buzzoni*

* Marcelo Buzzoni é convidado do Quadro a Quadro. O conteúdo desse post expressa a opinião do autor, que é plenamente responsável pela mesma.

 

 

Rafael Campos Rocha, ou só Rafa Campos, como prefere agora, artista plástico, cartunista, ilustrador, crítico de arte. Já publicou na Piauí, Folha de São Paulo, Vice, Red Bull Station, Companhia das Letras e diversos coletivos. Uma entrevista franca onde ele nos fala um pouco de tudo, suas influências, o trabalho com quadrinhos no Brasil, a participação dele na Flip e até da Copa America.

 

MB: Rafa, quadrinista, cartunista ou ilustrador? É tudo a mesma coisa?rr1

RC: Rapaz, não. o quadrinista trabalha com a linguagem específica dos quadrinhos, apesar de muitos quadrinistas viverem de ilustração e alguns ilustradores fazerem quadrinhos. o que eles tem em comum é trabalharem como artistas gráficos, o que equivale eu dizer que produzem coisas visando sua reprodução mecânica.

MB: Pergunta básica: quem são seus maiores inspiradores nos quadrinhos?

RC: Krazy Kat de George Herriman, Pogo de Walt Kelly. Depois vem as tiras de aventura, como Wash Tubbs de Roy Crane e Terry e os Piratas, do Caniff. Depois, eu gosto muito do negócio de quadrinhos ingleses, principalmente da 2000AD, notadamente o Juiz Dredd, que é dos meus luminares da linguagem de quadrinhos. A Espada Selvagem de Conan, desenhada pelo Barry Smith e depois pelo incansável John Buscema e pelo Alfredo Alcala. No Brasil, olho sempre pra três caras: Pedro Franz, Diego Gerlach e Allan Sieber. Acho foda os desenhistas de quadrinhos de terror, como o Gene Colan, por exemplo. E de super-heróis, gosto dos primeiros 5 anos, os mais loucos. O maior artista que já fez os super-heróis deve ser o Jack Cole. E dos gibis em geral o Spirit do Eisner. Não aquelas histórias sábias dele, aquilo enche o saco. Da Marvel, minhas maiores influências são as de todo mundo: Jack Kirby, Steranko e Miller. Sem esquecer o tarado do Jim Starling.  

MB: Você também escreve sobre quadrinhos, faz crítica de HQs. Acha que no Brasil a crítica de quadrinhos é bem feita? O que faltaria para fazermos um melhor trabalho nesse campo?

RC: Rapaz, eu acho que tem uma parte muito boa, que é a histórica, factual, de contar a história dos quadrinhos. Você pega um cara como o Nobu Chinen e acaba aprendendo muito sobre a coisa toda. Aquele livro, também histórico, o "Guerra dos Gibis" do Gonçalo Júnior é outro grande livro, informativo, assim como os livros daquela especialista brasileira em mangá que está na estante e eu não quero em levantar pra pegar [Sonia Luyten]. Tem o Paulo Ramos, o Waldomiro [Vergueiro]… Enfim, tem bastante gente. O que eu acho que falta, por exemplo, é um negócio mais interpretativo, mas não aquele achismo desses blogs de quadrinhos. "Isso é meio Crumb, já isso é meio Manara…" essa coisa muito banal, que deixa o trabalho de crítico de quadrinhos com má fama. Também acho que muitas vezes os livros teóricos são muito mal produzidos, com erros crassos de revisão, traduções absolutamente amadoras e diagramações ridículas. Além de mal escritos mesmo e muito, muito mal editados.

MB: Você vai participar da Flip desse ano, certo? Em qual(is) mesa(s)? 

RC: Vou particicipar de uma mesa com um cara do Charlie Hebdo, que lançou um livro no Brasil, e aquele Plantú, do Le Monde. Algo sobre religião, política e quadrinhos. Tem outra com uma cantora, a Karina Bhur. Depois, no Instituto Moreira Sales, que vou falar sobre o George Herriman. São três mesas. E vou lançar dois livros: um dos meus primeiros gibis, feitos de mouse e distribuídos por e-mail, e um livro infantil.

MB: Você já fez tiras criticando o público que vai na Flip. Como foi o convite para participar dela?

RC: Quem me convidou foi o curador Paulo Werneck O Paulo, posso dizer sem dúvidas, é o cara mais importante da minha curta carreira. Nunca tinha ouvido falar dele até que ele me ligou um dia para fazer tiras pra Folha. Depois de poucos meses, fui chamado pra fazer uma capa (ainda não tinha visto a cara do Paulo, até então) e acabou que fiz mais de 30 capas pro caderno Ilustríssima, da Folha, ganhei dois prêmios internacionais de design com eles e…enfim, eu nunca tinha feito uma ilustração profissional antes, assim como nunca tinha pensado em ser cartunista. O cartum ridicularizando a Flip vai estar inclusive no livro que vou lançar. Adoro irritar esse pessoal de cultura. Na verdade gosto de irritar e vilipendiar todo mundo. Falar mal mesmo, como um vício. Minha participação não sei como vai ser. Vou ser levado para os lugares e falar e comer. Parei de beber. Má hora, né?

MB: Acha que quadrinhos e literatura seriam a mesma coisa? Por que juntá-los na Flip?

RC: Não são a mesma coisa. O que eles tem em comum é que são feitos por artistas e intelectuais, como o funk e a alta costura. Acho que juntar na Flip tem o sentido de multidisciplinaridade, que enriquece mais a literatura, é claro, do que os quadrinhos, apesar de ambos estarem em idêntico patamar de decadência criativa e de popularidade. Talvez seja uma coisa de tentar fortalecer a literatura mesmo, com essa multidisciplinaridade. Esse arejamento que uma outra linguagem traz. Se os artistas de quadrinhos também experimentassem mais disso, talvez não estivéssemos nesse buraco e com esse número incrível de desenhistas virtuosos com trabalhos repugnantes.

rr2MB: Na sua tira da Folha, “Deus, essa gostosa” saiu de cena há uns meses. Foi uma decisão editorial? Você sempre disse que tinha muitas críticas (e alguns elogios…). Ou foi por que ela foi pra Vice?

RC: Meu atual editor não estava contente com o tom político do meu personagem, então tirei do jornal e levei pra Vice. Coloquei "O Ogro" no lugar. Também estou em crise com o personagem. Sofro muito pra fazer as tiras, apesar de ter, espero, encontrado uma saída na Vice. Mas perdi muito do tesão de fazer Deus. Tem um clima escroto de vigilância, todo mundo policiando todo mundo, principalmente com relação ao erotismo. E muita disputa de mercado, então a pessoal fala uma coisa que parece política, mas na verdade ela só quer aqueles 200 reais que você ganha com a tira e o espaço para divulgação que você está. Uma merda. 

MB: Fazendo essas tiras semanais, é mais fácil trabalhar com personagens ou fazer tiras livres como as da página 2 da mesma Folha?

RC: Cara, eu…não sei. Tenho tendência a criar um personagem. Uma das coisas mais legais dos quadrinhos é isso: as pessoas gostam do personagem mais que do artista. Adoraria desaparecer e deixar só meus personagens. Acho que passar a usar um apelido em vez do nome inteiro foi um passo para isso. Sumir. 

MB: Você publica na Folha, na Vice, na Companhia das Letras, além de vários outros meios, inclusive colaborando com diversos coletivos de cartunistas. O Mercado editorial brasileiro está crescendo na sua opinião? Tem alguma explicação acerca desse crescimento? Por que não participa desses eventos de quadrinhos?

RC: Cara, eu realmente não sei nada de consumo de quadrinhos. Sei que Maurício de Sousa vende. Ele detêm mais de 80 por cento do mercado. Aí os outros 12 por cento, sei lá, ficam divididos entre as outras revistas da panini. Aí menos de 1% deve ficar com todas essas editoras alternativas e menores além dessas como Nemo, Veneta e Cia das Letras. Enfim, é um mercado ínfimo. A maioria dos artistas de quadrinhos mal consegue soletrar uma paroxítona, O que dizer de seus leitores. Com relação aos eventos de quadrinhos nunca fui convidado, cara. Em geral o pessoal de fora de quadrinhos – arte, literatura e cinema – é que me acompanha e comenta e compra as minhas coisas. Tem alguns autores, e um ou outro site que demonstra interesse no que eu faço, mas, no geral, acredito que devem achar uma bosta. Mas tudo bem. É recíproco.

MB: Após (ou durante a Flip) quais são os próximos lançamentos? O que pode nos adiantar? Deus 2, finalmente?

RC: Cara, tem esses dois livrinhos, ficam prontos essa semana. Aí tenho mais dois livros prontos: Magda, uma novela de ficção científica de intenções anti-democráticas e assassinas e Deus 2, que está pronto desde 2013. Não sei mais se vai sair. Vou continuar com minha tira de duas vezes por semana na Redbullstation, que está me dando muita alegria, e deve ser meu melhor trabalho [“as aventuras do artista contemporâneo”]. E tenho mais 3 tiras aguardando um lugar para morar. 

MB: E pra fechar: quem você acha que ganha a Copa América?

RC: Cara, eu sou meio pela lógica histórica, nesses casos. As últimas Copas do Mundo foram vencidas por países cujo time nacional tinha vencido a Champions League, como Barcelona e Bayern. O resultado foi que ganhou Espanha e Alemanha. E a Copa América costuma ser vencida pelo time latino melhor colocado na Copa do Mundo, como o Uruguai na última. Pela lógica, portanto, pode dar Argentina. 

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Marcelo é advogado, historiador, professor de história e, nas horas vagas, escreve sobre quadrinhos. Deixaria tudo isso de lado se fosse escolhido para ser o Lanterna Verde da Terra.

— Guido queria ser um personagem de histórias em quadrinho. Depois de ler Will Eisner se contenta em ser um personagem de uma história sem quadros.