narradora-nevesViver é percorrer trilhas: umas, seguimos tranquilamente, outras, porém, optamos por um trecho, fora as turbulências, as fendas inóspitas. É neste cenário que desvendamos A Narradora das Neves: uma aventura no país inuit (Béka – roteiro; Marko – ilustração; Maëla Cosson – cores / Nemo). O enredo relata com delicadeza a história de Buniq, uma mocinha inuit que deseja explorar a natureza em seu entorno, chamada pelo seu clã de “país dos homens”, e tornar-se uma Narradora das Neves. Essa vontade iniciou-se quando um viajante visitou o seu povo, houve então uma vigília e, nela, a contação das aventuras vivenciadas.

Para seguir sua vocação, Buniq pede a ajuda de seu avô, Ukioq, desbravador dessas terras gélidas. Mesmo com o avanço do tempo e o peso da idade, o homem aceita o convite e nós leitores conhecemos a primeira tradição inuit: quando os idosos consideram-se um ‘fardo’, sentam-se no gelo, fecham os olhos e deixam-se levar aos desígnios das neves. 

 A protagonista também busca o auxílio de seu amigo, Taq, cujo ensejo singelo, e não menos merecedor, é caçar a primeira foca. Ambos, antes de deslancharem na jornada, são testados pelo pai de Buniq como garantia de aptidão para tal proeza. Passam com louvor e seguem o seu rumo com o velho Ukioq.

Como todos os sábios, que não represam os conhecimentos, Ukioq relata durante a viagem as tradições de seu povo, como Kaila, o mestre do céu, que enviou a mulher para cavar um buraco e retirar todos os animais conhecidos. Ou ainda a importância de pentear as madeixas de Sedna, a mãe do mar, para que ela não se decepcione com o comportamento dos homens e forneça o alimento tão essencial.

miolo-neves-kNesse interim de histórias, nossos personagens pousam em uma aldeia e hospedam-se na tenda de Putiliq, grande xamã que usará os poderes para orientar os jovens em um momento perigoso descrito no álbum.

Daí percebemos que viver é também vocacionar, buscar uma missão, um impulso que valha a pena. Essa mola que, futuramente, nos perpetuará por meio de nossos ofícios, de nosso conhecimento, que repassaremos para outrem. Em A Narradora das Neves, Buniq encontrou o seu caminho, como diria Putiliq, o de “ajudar os outros fazendo-os rir ou sonhar”. Já Ukioq sentiu-se no dever de presenteá-la com toda a cultura armazenada, as palavras que não se apagam, que germinam. E Taq quer provar que tem seu valor, que será um grande caçador de feitos grandiosos.

Temos nossos talentos, nossas estrelas, seja lá qual for a denominação. Os autores fizeram o seu melhor para encantar-nos com essa história, e eu estou fazendo o possível para que você entenda o que senti ao me deparar com essa HQ nas mãos. Ao mesmo tempo, mostro, amigo leitor, o ofício que tenho: o de escrever.

A questão, bem abordada em A Narradora…, é a hora de “sentarmos no gelo”, de reconhecermos nosso fim, o “The End”, “Game Over”. Ou seja, o momento igual e justo para todos. É nesse instante que percebemos o peso da grande aventura chamada vida.

— Jornalista freelancer, moradora de S. Miguel Paulista - SP e também colabora para o portal Jornalirismo (www.jornalirismo.com.br). Nas horas vagas, lê Quadrinhos. Nas outras também. Mais em http://twitter.com/keliv1