euPor Taís Veloso*

* Taís Veloso é convidada do Quadro a Quadro. O conteúdo desse post expressa a opinião da autora, que é plenamente responsável pela mesma.

 

 

Escrito e ilustrado por Lourenço Mutarelli, Over12 é sua primeira HQ, publicada em 1988 pela editora independente Pro-C. São várias over1histórias curtas, uma delas satiriza as histórias em quadrinhos publicadas pela DC Comic e Marvel. Em Over12, não há um super-herói, e sim um Hipererói, nome este que referencia, de maneira irônica, as famosas HQs de heróis que dominam o mercado.  A capa é uma provocação ousada e até engraçada à Disney, retratando as orelhas do Mickey na cabeça de uma caveira. Esta capa pode surgir como uma espécie de símbolo dos quadrinhos underground: o uso da ironia para realizar um impactante trabalho de desconstrução de símbolos enraizados no imaginário social. O novo e o inesperado são marca deste grupo de obras no qual Over12 se encaixa.

Podemos perceber que estas características são importantes para o movimento da contracultura, termo que designa um estilo inovador de contestação social, política e cultural, para, dessa forma, expor ao público elementos sócio-político-culturais que poderiam estar suprimidos em detrimento de outros que poderiam receber mais atenção de acordo com possíveis interesses relacionados a poder e capital. Over12 é permeado da filosofia da contracultura, visto que se apropria de signos comuns ao imaginário popular e os desconstrói afim de se criar humor e crítica. Assim aconteceu na capa da revista, assim aconteceu com o já citado Hipererói, uma interessante história que brinca com os principais elementos que caracterizam os famosos heróis das HQs americanas, como a base secreta (A “hiperkitchenette”, que parece fazer referência à Bat Caverna, de Batman, e à Fortaleza da Solidão, de Super Homem) e pelo fato de a narração explorar as situações cotidianas da realidade humana para falar de sua determinação em cumprir com o seu dever. Trata-se de uma sátira divertida, principalmente para aqueles familiarizados com os quadrinhos de heróis.

autoretrato

Outro personagem que brinca com as situações do cotidiano é Erasmo Roberto. Com este, Mutarelli retrata a visão de mundo de um homem de meia idade que vive em sociedade, precisando lidar com trabalho e outros problemas. Ao colocar Erasmo em seu trabalho em estado de lamentação por desejar férias e relaxamento, Mutarelli parece retratar o pensamento geral do trabalhador infeliz com o seu emprego, aquele que apenas realiza a função pelo dinheiro que pagará por sua sobrevivência. Isso é reforçado pelo fato de a ameaça de presença do seu chefe o faz mascarar seus sentimentos pelo medo da demissão. Esta não é apenas uma crítica à sociedade, mas ao ser humano que, por medo, não expõe o que sente ou pensa; uma crítica atemporal, que levaria muitos à catarse. Uma excelente reflexão feita em apenas uma página, o que reflete o poder comunicativo dos quadrinhos. 

Nas suas histórias atuais, Mutarelli também não abriu mão do humor, ainda que ele apareça um pouco seco em seus romances como A arte de produzir o efeito sem causa ou um humor escancarado como em Jesus Kid. Mas hoje, podemos reconhecer que a sua escrita e desenhos foram aperfeiçoados.

Over12 é um interessante compilado de rápidas histórias que parecem buscar a recriação subversiva da realidade humana. Da comédia do Hipererói ao absurdo de Erasmo Roberto, podemos perceber o teor principal da obra de Mutarelli: a subversão e a desconstrução do que a sociedade parece acreditar ser um status-quo. É uma leitura recomendada para aqueles que apreciam obras irônicas ou são apenas fãs de HQs underground. Vale a pena conferir Over12 por vários motivos: é uma história fácil de ler, faz rir e ao mesmo tempo refletir sobre diversas questões. 

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Taís, como a maioria das crianças dos anos 90 começou a ler quadrinhos na infância, a clássica revistinha “Turma da Mônica”, de Maurício de Souza, mas só foi se apaixonar de vez por “Fala menino“, de Luís Augusto. Na medida  em que foi crescendo  foi  se afastando dos quadrinhos, até ler a graphic novel “Azul é a cor mais quente”, de Julie Maroh, o que a fez voltar de vez a esse gênero e de agora em diante, não pretende parar mais. Atualmente é pesquisadora no grupo Leituras contemporâneas, onde investiga os quadrinhos de Lourenço Mutarelli, com a orientadora Luciene Azevedo. Está nos últimos semestres de Letras na Ufba, (Universidade Federal Da Bahia).

— Guido queria ser um personagem de histórias em quadrinho. Depois de ler Will Eisner se contenta em ser um personagem de uma história sem quadros.