Em parceria com o Gibi Rasgado

11 de Setembro de 1970, no picadeiro do Circo Irmãos Tibério, armado no Parque do Ibirapuera, centenas de pessoas acomodavam-se nas arquibancadas de madeira para assistirem o espetáculo O Evangelho Segundo Zebedeu, de César Vieira, com direção de Silney Siqueira e música de Murilo Alvarenga, levado a cabo pelo Teatro do Onze – um grupo de estudantes da Faculdade de Direito do Largo São Francisco.

O que se viu no palco naquela noite nunca antes se havia visto no teatro brasileiro. A história da peça de passava num circo, onde seria encenado o drama de Canudos. Mas o ator principal, Bibi Gestas, não pôde se apresentar e é substituido na última hora por Vicente, artista convidado.

E Vicente não decepciona seu público. Não demora muito a começar a desobedecer as deixas do “ponto” e a mudar o texto original. A vida de Antonio Conselheiro mistura-se à de Cristo, num auto da paixão com ingredientes sertanejos. O que deveria ser apenas uma encenação sobre a Guerra de Canudos torna-se um ato político dentro daquele circo fictício sob aquela lona real do Ibirapuera.

O espetáculo O Evangelho segundo Zebedeu ganhou o Brasil e o mundo. Recebeu todos os prêmios nacionais, foi aplaudido de pé no Festival de Teatro de Nancy, na França, foi publicado em mais de 15 países e reencenado a exautão nos últimos quarenta anos.

Também chamou a atenção para aquele grupo de estudantes audaciosos, o que resultou numa perseguição política poucas vezes vista a um grupo de teatro: censura sistemática, prisão e tortura de integrantes em 1973, depredações constantes às dependências do grupo e até ameaças de bomba, já no apagar das luzes do Regime Militar.

Mas o maior legado de Zebedeu foi mostrar ao público brasileiro toda a força política da Saga de Canudos.

É bastante provável que Carlos Ferreira e Rodrigo Rosa jamais tenham assistido a uma encenação do Evangelho. Entretanto seguiram por uma vereda estética bastante semelhante a de César Vieira para a confecção de Os Sertões – A Luta, adaptação em quadrinhos do clássico de Euclides da Cunha, lançada em dezembro pela Desiderata.

Para horror dos puristas de plantão, os autores optaram por uma livre adaptação da última parte da obra – a Luta do subtítulo – usando-a como guia na narrativa e amparados por extensa pesquisa, inclusive de campo. Com isso, extraíram a essência do livro e o adaptaram com a liberdade peculiar das narrativas gráficas.

Tinha tudo para ser uma decisão ruim. Definitivamente não foi.

Os Sertões é um gibi histórico, uma livre adaptação de uma obra seminal em nossa literatura e um pesadelo narrativo e visual.

Para quem busca uma adaptação fiel ao livro, essa história do messiânico líder de Belo Monte é contada de forma apenas satisfatória.

E muito provavelmente os estudiosos da obra euclidiana torcerão o nariz.

Já para quem gosta de gibis e de histórias bem contadas…

Esqueçamos a boa educação ou a erudição própria dos críticos. Os Sertões é uma porrada na fuça de cabra metido a besta.

Narrativamente, o gibi trata com o respeito e rigor necessários o conteúdo e panorama históricos daquela recém criada – e por vezes amaldiçoada – República.

Por mais de uma vez as personagens situam o leitor sobre lugares, nomes e cargos dos homens do poder daquele final de século XIX. Deixa bastante clara também a intenção daquela República em relação aos fanáticos seguidores de Conselheiro e o perigo político que representavam, com aquela temerosa mania de acreditarem apenas em Deus e no destronado Imperador.

O apelo popular pela demonstração de força do Presidente Prudente de Moraes é abordado com fina ironia, assim como as desventuras do exército republicano, a quem os sertanejos de Canudos humilharam publicamente mais de uma vez.

Isso torna o gibi extremamente atrativo para o uso didático, seja para estudo histórico ou leitura complementar da obra original de Euclides da Cunha.

Mas como disse anteriormente, a opção estética utilizada pelos autores é o maior trunfo do gibi.

A solução narrativa utilizada por Carlos Ferreira para compilar as missões oficiais para desmantelamento de Canudos se tornou uma arma poderosa na arte de Rodrigo Rosa. O vai e vem temporal, contado através dos relatos de personagens dos dois lados da peleja e narrado por um inesperado Euclides da Cunha cria uma tensão crescente. E a cada momento narrativo, mais detalhes explicítos da ferocidade dos combates são mostrados.

E é nesse ponto que os autores, tal qual um Vicente de lápis e papel em mãos, começam a desobecer o “ponto”.

O gibi vai aos poucos introduzindo o horror e o pesadelo em quem o lê. Os diálogos, antes abundantes, vão dando lugar à narrativa gráfica pura e simples. A força das imagens e das situações vão se impondo de uma forma assustadoramente eficaz.

A crueldade e motivações do Exército e dos Sertanejos revelam uma guerra suja. O gibi não dá chance alguma ao leitor. O pesadelo e o desespero se instalam definitivamente e o efeito é devastador.

A sequência final possui 20 páginas antológicas e suas últimas páginas ainda guardam uma surpresa adicional aos leitores: foram preparadas intencionalmente, inclusive com tratamento gráfico distinto das demais, para despertar sensações terríveis naqueles que as lêem.

O pesadelo de Euclides da Cunha – a personagem, não o autor – já figura entre as melhores páginas de horror dos quadrinhos nacionais, lembrando os melhores momentos do gênero imortalizado por gênios como Colin ou Shimamoto. O Cristo carregado por Conselheiro e entregue ao Governo em um banquete funesto é uma das sequências mais impressionantes já vistas. É HQ de altíssima qualidade.

Não há pausa para retomada de fôlego pois, na sequência seguinte, temos Canudos incendiada. A página dupla causa exatamente a impressão que deveria: um massacre sem precedentes na história do país. E esse talvez seja o mais belo quadro da produção nacional em todo o ano de 2010.

Um gibi desses não é apenas entretenimento, é leitura obrigatória. Não importa se você o lerá com os olhos de um estudante de história ou de literatura, se apenas quer algo para ler no ônibus ou naquela viagem de férias num litoral chuvoso, Os Sertões é uma obra densa, com um ótimo roteiro e de uma beleza plástica única.

É bem possível que os estudiosos realmente torçam o nariz a essa livre adaptação, mas exatamente por se desprender do texto original e extrair o horror daquele conflito, dificilmente haverá um gibi mais fiel à obra de Euclides da Cunha do que esse Os Sertões – A Luta.

E em algum picadeiro perdido num tempo em que o Estado Brasileiro também cometia atrocidades inimagináveis, Vicente e todas as demais personagens de O Evangelho segundo  Zebedeu estão sorrindo com a audácia desses dois carinhas que resolveram fazer um gibi sobre a Terra Prometida de Belo Monte.

— morreu num acidente inexplicável na Serra da Cantareira. Antes que seus familiares percebessem, já havia virado um Zumbi. Para aplacar sua fome por cérebros humanos, passa as noites escrevendo no Gibi Rasgado. Seus amigos, com medo de seu apetite insaciável, o convidaram também para escrever no Quadro a Quadro. No momento ele está sob controle.