Para os leitores de super-heróis como eu, sempre é uma grata surpresa quando surgem novos títulos nas grandes editoras do Mainstrem norte-americano, principalmente por que é neles que muitos conceitos são revisitados e algumas novas formas de se tratar a imagem do herói podem ser testadas. É certo que em algumas ocasiões deixam a desejar e acabam fazendo aquele “mais do mesmo” ou até coisas muito ruins. Porém, vez ou outra somos apresentados a projetos interessantes, como é o caso da mini-série Agents of Atlas de 2006.

Escrita por Jeff Parker e com arte de Leonard Kirk, a mini-série em 6 edições retrata o reencontro de um supergrupo secreto dos anos 50 que tem como missão resgatar o seu antigo líder, o agente Jimmy Woo, e ajuda-lo no combate ao seu eterno inimigo, o vilão oriental Garra Amarela. Assim, se constrói uma trama de espionagem que também nos leva não só ao combate de uma mega organização do crime, como também  a desvendar os fatos ocorridos com cada um dos heróis durante todos esses anos após a dissolução da equipe.

Dentre os membros da confraria, temos além do próprio Woo alguns clássicos personagens da Atlas Comics (antigo nome da Marvel) como a “Deusa” do Amor Vênus, o enigmático robô M-11, o misterioso Uraniano (conhecido anteriormente como Marvel Boy) e os não menos importantes Homem-Gorila e Namora.

 

Apesar da sua primeira aparição na cronologia “principal” acontecer somente nesta série, a ideia desta equipe já permeia o mundo da ficção desde os primeiros anos da atual Marvel Comics. Em 1978, a edição #09 da cultuada séria  What If (O Que Aconteceria Se…) nos mostra um pequeno conto alternativo, onde os mesmos personagens (com a exceção de Namora e inclusão do Homem Tridimensional) fundavam os Vingadores nos anos 50.  Mais tarde, esse mesmo grupo aparece na série Avengers Forever, onde diversas versões dimensionais e temporais dos Vingadores combatem Immortus.

Trazer o grupo novamente ao mundo dos quadrinhos partiu de uma ideia do editor Mark Paniccia, que buscava algo intrigante e nostálgico e viu a possibilidade de reimaginar uma clássica concepção da própria Marvel. Em sua atual e “nova” reencarnação, o título resgata os elementos recorrentes dos quadrinhos produzidos em meados do século XX, conseguindo ir além das próprias concepções originais de cada personagem e adicionando outros tantos conceitos que também eram utilizados nas obras da respectiva década.

 

Na verdade, Parker consegue sintetizar muito bem as diversas vertentes como ficção, suspense e terror de uma forma que complemente o que parecia estar faltando em cada um dos protagonistas e suas histórias, retraduzindo-os para nossa época, mas sem retirar a sua herança da Era de Ouro, trazendo uma trama fantasiosa e inteligente, com pitadas de inúmeras referências aos clássicos audiovisuais e literários do passado. Pode não ser algo considerado como “revolucionário” por alguns, mas é divertido e muito bem planejado, carregando uma boa dose de legitimidade e sinceridade em sua execução.

Em relação ao traço de Kirk, ele pode parecer simplificado a primeira vista, entretanto, funciona muito bem ao conseguir transmitir um clima retrô ao mesmo tempo que não desvaloriza a dinâmica da história. Além disso, leva para os personagens um respeito muito grande as características de cada um, reforçando sem exageros a representação destes. A Vênus, por exemplo, pode não ser moldada ao estilo “super-heroína”, mas tem a sua beleza imortal bem destacada, assim como o robô M-11 traz uma boa personificação de um autômato dos anos 50 e o Uraniano carrega um clima de mistério com pitadas de terror em seu visual.

Mais do que uma intervenção retroativa (ou retcon), Agentes de Atlas é uma homenagem não só a era primordial da editora como também a toda uma década que se tornou o berço da ficção cientifica, com os mais variados temas retratados das formas mais independentes possíveis. É uma daquelas boas coisas que descobrimos quando vencemos as convenções e alimentamos a nossa curiosidade pela arte sequencial.

 

PS: Infelizmente, os Agentes de Atlas não tiveram a sua mini-serie publicada no Brasil, aparecendo apenas em histórias curtas ou participações especiais em outros títulos publicados pela Panini. 

PS²: Após o sucesso da mini, o grupo voltou a estrelar um título mensal em 2009, que durou apenas 11 edições. Porém, isso fica para um texto futuro…

— é soteropolitano do condado de Brotas, o lendário bairro-cidade da capital Baiana. Lê e comenta sobre quadrinhos dos mais variados, além de ser aficionado por futebol em todos os níveis, desde uma final de Champions League a um confronto entre Butão e Montserrat. Sua eterna crença em times inexpressivos foi nomeada pelos amigos twitteiros de #momentoedimario… Além disso, acompanha qualquer seriado sci-fi de qualquer parte do globo, e sempre é fascinado por qualquer cronologia possível, até em novelas. Alguns dizem que pode viajar entre os multiversos apenas atravessando as ladeiras brotenses, outros que faz parte do conselho interdimensional e tem passe livre para navegar entre a matéria e a antimatéria. Relatos de sua presença em lugares como Paris, Tóquio, Nova York, Attilan, M-78, Rann e Trill são conhecidos, mas nunca foram confirmados.