O personagem foi criado com algumas características óbvias: ele é um homem que morreu, daí seu nome, Deadman. Por se chamar Deadman ele estampa um "D" enorme no seu uniforme. Ok, isso é ridículo, mas é óbvio. Quando começou a ser publicado no Brasil, na década de '70 resolveram sair um pouco da obviedade. O "D" não poderia ser mais de "Dead', então vamos batizar o homem morto de… Delicado? Diabético? Desprovido? Não! Vai ser… DESAFIADOR!

E daí a edição da Panini já começa errada. O que justifica, em 2012, manter a tradução equivocada ao invés de retomar no Brasil, como já havia sido feito na década de 90, o nome original? Até o Super-Homem já é há tempos Superman e com a internet praticamente todos os leitores conhecem os nomes originais dos personagens, o que torna ainda mais ridícula a tradução do nome como Desafiador. Mas, tudo bem, manter uma tradução tosca é fichinha para a editora que fez do O.M.A.C. (One Man Arm Corp – Exército de um Homem) o Operativo Mecânico de Ataque Concentrado. Haja criatividade tosca! Mas vamos falar do Dead… do Desafiador.

 O Desafiador entrou no reboot como uma série limitada, com roteiros do experiente e competente Paul Jenkins (Inumanos, Wolverine: Origem, Sentinela) e ilustrada por Bernard Chang, um desenhista que eu sinceramente nunca tinha ouvido falar, mas que tem um traço muito bom. Roteirista competente com um bom desenhista, seguem elogios, correto? Não. Desafiador não é uma boa HQ. E eu explico!

Em primeiro lugar, fique claro que não é uma péssima HQ. É até bem tragável. Se você estiver, por exemplo, esperando ser atendido no dentista e de uma lado tiver uma edição da Caras, na frente a televisão passando o programa da Ana Maria Braga e do outro lado a revista do Desafiador, não tenha dúvidas,  pegue o Desafiador para matar o tempo.

Mas é uma HQ fraca, muito aquém do que o personagem e os autores poderiam oferecer. Como eu já disse, Paul Jenkins é um roteirista competente e constrói um roteiro coeso e que permite uma leitura fluída. Mas dá para notar claramente que não é uma obra inspirada (leia algum dos títulos que eu mencionei acima para comparar), é escrita no automático, não surpreende, não emploga, não emociona. Talvez a melhor parte da HQ sejam as 12 últimas páginas. Mas só é uma boa sequência se comparada com o resto da revista, por que olhando mais de perto é só pastiche do filme Deu a Louca nos Monstros. Outra coisa que se pode dizer sobre o roteiro é que Jenkins partiu para o caminho mais fácil. Ao invés de entrar à fundo na vida das pessoas que o Desafiador deve possuir, partiu para desvendar o próprio Desafiador e nisto tudo, as pessoas e o Desafiador, tem uma abordagem rasa.

Quanto aos desenhos, também já disse que Bernard Chang é um bom desenhista. Mas não para esse roteiro. Seu traço é muito certinho, o que acaba ajudando para que a história perca impacto. Por exemplo, em certo momento Jenkins recorre a um clichê infalível: arrancar alguns arrepios dos leitores com a boa e velha criança mal assombrada (pra mim é sempre a parte mais tenebrosa dos filmes de terror), mas no traço de Chang não funciona. Sua criança é fofinha, bonitinha e não assusta. A deusa que guia o Desafiador (não é spoiler, tá no comecinho da revista) tem aparência adolescente – tá certo, uma adolescente azul – e não impõe respeito. O próprio Desafiador de Chang não tem a expressão de sofrimento que o personagem exige. 

Para terminar, se a editora errou em não usar o nome original do personagem, ganhou muitos pontos por publicar o excelente texto de Alexandre Callari ao final da edição, talvez a melhor coisa da revista e de onde eu tirei algumas das informações do início deste post.

Saldo final (de 1 a 5): 2

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— Não gosta de falar sobre si mesmo, mas a sua orelha queima quando estão falando dele.