1ª Jornada Internacional de Histórias em Quadrinhos ocorreu há mais de um mês. De lá pra cá, toda vez em que sentava na frente do computador para escrever uma resenha sobre o evento, inumeras sensações voltavam com força na memória: o vento gelado que soprava pela USP, o trajeto de ônibus da Estação Butantã até a ECA, as conversas regadas a salgados na cantina, o vai e vem de bolsas vermelhas pelo corredor… E eis que eu sempre acabava perdendo o foco; o texto não ficava legal, reescrevia tudo várias vezes, tudo isso porque eu não conseguia descrever de forma objetiva toda a importância que o evento teve para mim.

E eis que leio o texto do amigo Sávio Lima sobre a Jornada e vi muito do que eu gostaria de ter dito. No mesmo instante pedi autorização para publicar aqui no QaQ.

Tenham uma boa leitura!

Adalton Silva

 

Quadrinhos na seriedade acadêmica

Começo, aqui, nestas linhas, as minhas concepções pessoais do que já acredito ter sido uma experiência acadêmica e pessoal sem igual. Obviamente haverão, no que escrevo, colocações muito pessoais diante de meu já bem estabelecido foco de atenção dentro de minhas produções e reflexões históricas e acredito que mesmo com essa pessoalidade assumida conseguirei entrar em acordos com muitos leitores que estiveram nas Primeiras Jornadas Internacionais de História em Quadrinhos ocorrida entre 23 e 26 de agosto de 2011 na Escola de Comunicação e Artes da USP.

Antes de iniciar minhas colocações, devo primeiro me posicionar enquanto pesquisador e pensar o espaço histórico em que estamos, todos os participantes, expectadores e produtores, inseridos. Não aprofundarei sobre pioneirismos ocorridos no passado, os trabalhos de Sônia Bibe Luyten, Selma Martins, Laura Vazquez, Patrícia Borges, os autores dos textos da antológica SHAZAM ou mesmo os tantos profissionais que escreveram trabalhos referenciais no meio. Pelas poucas conversas, todos os participantes tiveram o contato textual com esse povo pioneiro antes do evento.

Aqui, acredito, se faz necessário entender os pormenores que permitiram a empreitada não menos batalhada. A atualidade assistiu o preconceito aos quadrinhos dar lugar ao fascínio mesmo não admitido. A academia está curiosa, em parte por que grandes profissionais, como são os organizadores do evento, que tanto lutaram para romper essas barreiras temáticas no ringue da Comunicação, mas que gerou grandes batalhas em outros tabuleiros.

Talvez o cinema tenha sua parcela de culpa, alcançando um status que perfurou a muralha de preconceito, mesmo que no espaço do entretenimento. O mercado logo percebeu que livros com o tema, fundamentalmente acadêmicos e científicos, seriam logo bem recebidos pelo público. O que antes era uma tendência íntima de seus consumidores, logo tornou-se uma coqueluche “cult” não só respeitada como desejada. Nós, quadrinhistas e quadrinhófilos, nos tornamos rapidamente celebridades. O universo dos quadrinhos (assim como outras tendências antes restritas, como RPG, jogos eletrônicos, etc) logo tornou-se uma mitologia curiosa para acadêmicos e o público em geral.

O começo, para mim, se deu no evento de Recife. No primeiro Encontro Nacional de Estudos sobre Quadrinhos, ocorrido na UFPE em julho, experimentei essa troca de informações e contatos. Vi, de carne e osso, que existem pessoas que, como eu, refletem sobre os quadrinhos que tantos entretém. Um ensaio do que seria esperado na USP, uma saída, no meu caso, dos espaços estranhados dos eventos de História e seus olhares desconfiados aos meus escritos em todos esses anos.

Movimentados, alegremente, os corredores do segundo andar do prédio principal da ECA comportaram por 3 dias uma generosa quantidade de trabalhos vindos de várias partes do país e além. Diversas mesas aglomeraram médias de 4 comunicações de artigos produzidos por diversos profissionais, de diversas áreas, sobre diversas perspectivas. Talvez alguns ainda estejam ponderando sobre essa pluralidade e diversidade. Uma amplitude permitida pela interdisciplinaridade do objeto ou fonte “quadrinhos”.

Temas interessantes se espalhavam de tal forma quecausavam titubeios na hora de escolher em que sala entrar e o que assistir. Em diálogos rápidos com vários participantes, dei-me conta de que não era uma tarefa fácil e que muitas vezes exigiu o sacrifício de deixar passar uma apresentação para caçar, nas salas, alguma de interesse pessoal. Eu mesmo marquei a programação com lápis circulando as apresentações de meu interesse, entre choques de horários e escolhas, pude assistir muitas, de amigos, colegas e com temas interessantíssimos.

História, literatura, educação, artes, tudo se entrelaçou em trabalhos e contemplaram nos fins dos dias com mesas redondas sortidas e bem compostas. Mais uma vez pude ver a tranqüilidade sorridente de Sônia Bibe Luyten em sua árdua tarefa de nos acalmar diante do novo. Mesmo dentro de seu espaço, não deixou de transparecer o fascínio pelo novo que tanto desponta nos meios de consumo dos quadrinhos, especialmente pelas inovações técnicas e o uso da Internet.

Juan Sasturain e Laura Vazquez expuseram um mundo conhecido por alguns e nem por isso menos interessante, já que se tratava de uma visão de seus mais próximos. Universos culturais distintos, mesmo que próximos, fizeram a reflexão aprofundar-se sobre mercado e consumo de maneira mais íntima, observando suas vivências. Logo trabalhos como o de Pablo Turnês, Laura Cristina Fernandez e Sebastian Gago ajudaram a encurtar os laços e até mesmo a abafar uma solidão continental já fraquejada desde o primeiro dia.

O leitor, então, deve sentir um certo desestímulo em citações de nomes e elogios, uma talvez rasgação de seda no que escrevo. Não há como escapar de uma felicidade confessa de encontrar pessoas e trabalhos de respeito e qualidade. É um belo “caminho do meio”, onde continuo meus esforços em saber das qualidades dos meus escritos e no quanto que ainda preciso amadurecer ao ver trabalhos mais elaborados e precisos. Se havia alguma impureza de dúvida sobre essa batalha de estudar e produzir pesquisa sobre quadrinhos no meu espaço, caiu por terra.

Obviamente não vi todos os trabalhos, por mais que provavelmente eu venha a sair em boa parte das fotos, já que pulei de sala em sala durante os dias do evento e seus horários. O professor Denis (que ficou famoso pela audaciosa performance fotográfica) flagrou essa maratona seletiva. Minha seleção começou com os temas que mais me interessaram e seguiu para apresentações imperdíveis pelas relações pessoais que venho produzindo com colegas e amigos, como foram os casos de Adalton Santos da Silva, Gêisa Fernandes, Fábio Tavares, Erivan Coqueiro e Aline de Castro Lemos. Tendo perdido com pesar as apresentações de João Senna, Lucas de Souza Medeiros, Thiago Monteiro Bernardo e Márcio dos Santos Rodrigues.

Pude discutir assuntos diversos que envolvem a produção plural dos quadrinhos nas diversas configurações culturais e sociais que foram debruçadas em artigos sobre fumetti, comics, manga, etc. De análises de discursos, seus avanços e limitações, das concepções psicanalistas e de Representação social, dos estudos de linguagens aos diálogos entre campos científicos. Pude, por exemplo, dialogar minhas reflexões no meu artigo sobre cidades fictícias com o trabalho de Soraya Mattos e seu estudo sobre estilos arquitetônicos.

Perguntado por uma pesquisadora que produzia um trabalho de conclusão de curso sobre as tiras rápidas e a Internet do que pude tirar de conclusão do evento, respondi sem pestanejar do quanto que o encontro é fundamental para a troca de conhecimentos e impulso para adentrar ainda mais nessa empreitada acadêmica ainda rica de informações aos diversos campos científicos. Gêisa mesmo semeou um ponderar sobre construções de teorias e métodos próprios para o objeto e fonte em questão.

E o fim de cada dia não deixava espaço para o cansaço, já que boa parte dos participantes estavam interessadíssimos às atrações nas mesas redondas. Além de Sônia, Selma Martins, Juan e Laura no dia 24, outros autores foram prestigiados. Educação e Pesquisa foram destaques no dia 25, com Héctor Fernandez, Eduardo Calil, Elydio dos Santos e Márcia Mendonça. E o dia 26 encerrou-se com risos e aplausos contentes, quase num alívio de findar, mas deixando uma boa sensação de missão cumprida, com as falas dos autores de Shazam.

Entre diversos discursos sobre objetos numerosos, campos científicos variados e uma pluralidade de leituras, estão os tantos amigos feitos, pessoas reencontradas e planos gerados. Como serão os próximos eventos correspondentes não temos como supor, mas uma coisa é certeza: os esforços serão sempre a altura do menosprezo que as academias ainda manifestam aos quadrinhos como objeto e fonte de pesquisa para leitura de nossa realidade recente. Mas a luta continua.

 

Sávio Queiroz Lima

Historiador

P.S.: Faço meu pedido de desculpas aos amigos e colegas não citados. Ainda estou me recuperando dessa maratona… então as forças me limitaram a memória…

— Adalton nasceu no último dia de uma lua cheia, mas acha que isso não tem nenhuma relação com a sua vida; começou comprando quadrinhos por puro modismo - uma edição da Turma da Mônica parodiando Jurassic Park; sua primeira compra consciente foi a edição nº 01 de Batman: A queda do Morcego, ainda formatinho. Acredita que irá terminar a graduação em Letras antes da catástrofe de 2012 e daqui até lá está estudando parte das traduções intersemióticas das peças de Shakespeare já produzidas. E nos interlúdios, tenta produzir roteiros a partir idéias rabiscadas em antigos pedaços de papel.