“Diz-se que esta durou cem anos. Como o granizo e a peste, a guerra se abate sobre os campos quando o trigo está maduro e a moça bonita…

Mariotte é bonita.

O crepúsculo, da noite ou da manhã, se estende entre luz e sombra, entre cão e lobo.

Esses dois mereciam um companheiro fiel.

Mas Anicet é covarde… ”

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As Bande Dessinées Franco-Belgas são fascinantes. Para além dos melhores vinhos e chocolates, ambos os países se destacam pela qualidade dos seus álbuns, verdadeiras  obras de arte feitas com o esmero de um artesão,  dotadas de referências profundas e narrativa intensa.

E Os Companheiros do Crepúsculo é uma jóia entre as jóias. É de espantar que somente agora, quase 30 anos depois de lançada na Europa, a obra tenha chegado ao país, graças a sensibilidade da Editora Nemo, que desde  2011, trouxe outra vez a grandeza de nomes como Moebius e Enki Bilal a um mercado que andava sonolento e carente da boa produção do Velho Mundo.

 Originalmente publicada em três partes, O Sortilégio do Bosque das Brumas (1984), Os  Olhos de Estanho da  Cidade Glauca (1986) e O Último Canto das Malaterre (1991),  premiada no festival de Angoulême e na Espanha, a história se passa na Idade Média, durante a Guerra dos Cem Anos, girando em torno de Mariotte (criada pela avó  feiticeira), Anicet (um dos garotos do vilarejo em que vivia) e o estranho Cavaleiro, cujo rosto deformado se esconde  sob um elmo e no coração guarda uma triste história.

Na primeira parte da trama, após a destruição da aldeia por uma tropa de soldados, Anicet e Mariotte se unem ao Cavaleiro em sua jornada contra a Força Negra. Os três cruzam o Bosque das Brumas, onde se depararam com duendes, sonhos e mistérios.

Na segunda parte, que é intensamente mística e imersa na Mitologia Celta, conhecemos Yuna, uma feiticeira capaz de tornar reais seus desejos. Com ela os três personagens deverão enfrentar os Dhuards e sua Rainha na Melancólica Cidade Glauca. (Atentem para beleza das cenas nos pântanos e rochedos, as texturas da vegetação e a atmosfera onírica.)

É fascinante a força das personagens femininas, cujas personalidades marcantes se destacam ao longo da história, justamente em um período conhecido pela opressão contra a mulher. Fadas ou feiticeiras, são elas que conduzem os homens, brincam com seus desejos e motivam seus atos.

Logo da Nemo

Na terceira parte, quatro vezes maior que os anteriores, quando os protagonistas chegam à cidade de Montroy, o Cavaleiro descobre a origem de sua falecida amada Blanche e suas duas irmãs, que representam as três Forças: a Branca, a Vermelha e a Negra, senhoras do mundo, desencadeando uma série de eventos que conduzem a narrativa ao seu clímax.

Utilizando uma paleta de cores capaz de traduzir não apenas as mudanças de estação, mas o próprio íntimo dos personagens, o autor demonstra a preocupação com a pesquisa e os detalhes, reconstruindo o período através das vestes, da arquitetura e dos símbolos, a exemplo do Cristo crucificado de cabeça para baixo na igreja em ruínas (página 13) e a onipresente imagem da Sereia. As ilustrações são impregnadas de referência ao imaginário medieval, onde a tênue relação entre Cristianismo e Paganismo se revelava nas frestas de uma sociedade oprimida pela religião e o poder.

A sensualidade do traço de Bourgeon se revela ao longo das páginas, através das expressões de Mariotte, sempre deslocada aonde quer que vá, ou no sorriso malicioso de Anicet, que age como alívio cômico e catalisador dos eventos. 

Por sua qualidade e beleza, Os Companheiros do Crepúsculo é um item obrigatório na estante dos apreciadores da Nona Arte.

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Sobre o Autor: François Bourgeon nasceu em julho de 1945 em Paris, na França, e começou sua carreira nos anos 70, desenhando para a Bayard Presse, também atuando como cenógrafo. Além de Os Companheiros do Crepúsculo, publicou Les Passagers du Vent e Le Cycle de Cyann, ambos inéditos no Brasil.    

Serviços:

TítuloOs Companheiros do Crepúsculo
Autor: François Bourgeon
Tradução: Fernando Scheibe
Número de páginas: 240
Formato: 24 x 32 cm
Preço: R$ 94,00

 

— Hugo Canuto é arquiteto e quando o tempo permite, ilustrador. Interessado por mitologia e literatura antiga, se apaixonou pela Nona Arte aos nove anos, ao ler "O Cavaleiro das Trevas" e desde então não largou mais, formando uma biblioteca que preenche seu quarto e serve de cama, mesa e travesseiro.