A velha Joana nem sempre foi tão velha.

Quando eu nasci ela já tinha 72 anos, nunca vi uma única foto dela menina. No tempo em que era nova, as câmeras ainda eram artigo de luxo. A foto mais antiga que vi data da década de 60 e ela já era uma velha.

Joana era a mãe da minha avó. E tinha o par de olhos mais lindos que já vi.

Olhos que saíram da Espanha e atravessaram o Atlântico no começo do século XX para trabalhar nas plantações de café do interior paulista.

Foi lá que conheceu outro espanhol, Cosme Parra Parra, com quem ficou casada por quase 60 anos. Tiveram onze filhos, seis dezenas de netos e sabe-se lá quantos bisnetos, trinetos e tataranetos.

Hoje ela teria surpreendentes 112 anos. Mas não chegou a viver tanto. Morreu no inverno de 97, a mente e o corpo devastados.

Mas aqueles desconcertantes olhos azuis ainda estavam lá na última vez que a vi. E embora ela não fizesse a menor idéia de quem eu era, num determinado momento apertou meu rosto com aquelas mãos miúdas e disse no sotaque carregado que nunca a abandonou:

– Você se parece muito com o meu neto, o Demá.

E naquele momento, nos azuis daqueles olhos, eu enxerguei todo um oceano…

Porto

Sabe quando uma obra de arte, seja ela qual for, te deixa tão desnorteado que você simplesmente não consegue descrevê-la? Que não pode pensar nela sem que os olhos se encham d’água?

É a cena de um filme, uma certa nota de uma canção, um olhar de um palhaço de rua.

Momentos de beleza única, capazes de parar o próprio tempo.

Em qualquer lugar, a qualquer momento, a arte sempre será capaz de despertar o melhor do ser humano.

E foi com um nó na garganta e a mente tomada por um azul cobalto intenso que terminei a leitura de A Chegada, de Shaun Tan (Edições SM – R$ 48,00).

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A Chegada é um daqueles gibis inclassificáveis. Não é fantasia, não é drama, não é humor e também não é terror.

A Chegada é basicamente uma história sobre um homem num lugar que não é mais seu, partindo pra um lugar que também não lhe pertence, mas que pode ser sua única esperança.

O belíssimo álbum de Shaun Tan é a história da própria humanidade, desde sua criação.

Dos quase selvagens migrando de um região à outra, aos tunisianos da Ilha de Lampedusa, a raça humana sempre fugiu de algo ou alguém.

E sempre enfrentou o desconhecido, fosse por necessidade ou em por sua incessante ânsia pelo poder.

E assim descobriu mundos novos, com outras culturas, outras riquezas, outras tristezas.

E foi isso que criou nações inteiras.

Mas também criou o cara que tá escrevendo esse blog. E o cara que o está lendo.

A Chegada é sobre alguém que precisou abandonar tudo aquilo que amava, toda a sua história, porque essa seria a única chance de sua vida fazer algum tipo de sentido.

Algo verdadeiramente ameaçador espreita sua cidade, sua família, sua vida. A habilidade de Shaun em mostrar – e principalmente em não mostrar – qual seria essa ameaça é um daqueles momentos únicos da arte, em que a simplicidade supera qualquer brush sofisticado.

Um momento feito à lápis, como quando éramos crianças.

E o inimigo está lá.

E você o enxerga.

Simples assim.

A Chegada vai, página após página, desfilando uma série de ações mudas executadas com maestria. Da travessia de todo um oceano – numa cena de uma sutileza desconcertante – às primeiras experiências do imigrante naquele admirável mundo novo, Shaun vai criando significados múltiplos, com entendimentos diversos.

Ao aplicar o inusitado nos seres e utensílios daquele estranho e promissor país, Shaun consegue o que parecia improvável num gibi: recria, de maneira incontestável, o sentimento de estranheza, admiração e medo de um estrangeiro numa terra em que desconhece a língua, os costumes, os perigos e os prazeres.

Um sentimento universal que portugueses e espanhóis experimentaram durante séculos de imigração a esta terra chamada Brasil. Mas também o medo dos ingleses, irlandeses, italianos, poloneses e alemães, que atravessaram o Atlântico e aportaram nestas Américas.

Um sentimento que existe dentro de nós desde que nos reuníamos em volta de fogueiras.

O medo do escuro de uma caverna nova, mas também o prazer com que pintávamos em suas paredes.

Um gibi magnífico, sem um único diálogo.

Mas ao mesmo tempo, com todos os diálogos possíveis.

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E em algum lugar daquele inverno de 1997, aqueles olhos azuis cobalto me fitam, à espera de uma resposta.

– É porque eu sou o filho dele, vó. Por isso que sou parecido.

E por um momento, naqueles olhos, eu vi todo um oceano.

– Lillo!

Ela havia me reconhecido, mesmo que por apenas alguns instantes.

Aquele foi o último diálogo que tive com minha bisavó.

Uma mulher de voz de passarinho e mãos miúdas. E olhos de um azul poderoso.

Que atravessou todo um oceano para viver numa terra que não era sua, onde pouco entendia da língua e nada sabia dos costumes.

Mas que de uma maneira estranha e misteriosa, esteve presente em toda esta resenha.

The_Arrival Shaun Tan 2006

— morreu num acidente inexplicável na Serra da Cantareira. Antes que seus familiares percebessem, já havia virado um Zumbi. Para aplacar sua fome por cérebros humanos, passa as noites escrevendo no Gibi Rasgado. Seus amigos, com medo de seu apetite insaciável, o convidaram também para escrever no Quadro a Quadro. No momento ele está sob controle.