Viver numa metrópole é apavorante. Gente demais, trânsito demais, violência demais. E se você morar em uma metrópole como São Paulo, some-se a isso descaso e indiferença.

Mas São Paulo – ou qualquer outra cidade grande – possui um universo próprio. Trágico e desolador, mas também belo e poético. Esse universo passa despercebido à maioria das pessoas, mais preocupadas em entrar no metrô, em pegar o ônibus, em arrumar um emprego ou em pagar as contas.

Mas ele está lá. Basta olhar pro lado certo.

E poucas pessoas conseguem olhar para o lado certo. Machado de Assis soube em sua época, Nelson Rodrigues entendeu como poucos como a sociedade carioca funcionava e expôs todas as suas chagas. Em São Paulo, Plínio Marcos retratou a desgraça paulistana com uma precisão impressionante. Dalton Trevisan não fica atrás.

Aparentemente, para se enxergar esse universo obscuro é necessário ter uma boa dose de lucidez sem deixar de ter a medida exata da loucura.

E Rafael Sica é um desses caras. Ele olha para o lado certo da sociedade. E o que é melhor: resolveu partilhar isso conosco, que não enxergamos um palmo a frente do nariz.

Ordinário é uma coletânea de tiras de mesmo nome que o autor mantém em seu site e que agora é publicado pela Quadrinhos na Cia.

Se você gosta daqueles quadrinhos rasteiros com os caras de capa, onde invariavelmente alguém troca sopapos com outro alguém e no processo detonam metade de Nova York, pare de ler essa resenha e se afaste de qualquer livraria com o gibi do Sica.

Mas se você gosta de quadrinhos e não só das gostosas de colant que aparecem por lá, compre imediatamente o gibi. Ou então vá ao site de Sica.

Mas já alerto: Ordinário não é um gibi fácil.

Mas é um gibi raro.

Alguns dizem que Sica é um gênio, outros não chegam nem perto do que ele produz, outro tanto simplesmente confessa que não entende o que ele faz.

Talvez todos estejam certos, talvez não, mas a verdade é que Ordinário é um gibi perturbador. A visão de Sica sobre o ser humano mostra o que temos de melhor, mostrando o que temos de pior.

Ambíguo, desolador, assustadoramente real, Ordinário retrata cenas que poderiam ocorrer aqui em Itaquera, na periferia, ou lá no Centro Velho, em plena Praça da Sé. Do bêbado solitário a família falsamente feliz, do menino cruel ao velho babão, nada escapa ao olhar atento e ácido de Sica.

Seu modo de enxergar o mundo e a forma como resolveu partilhar essa visão impressionam pela crueza e inteligência. Nesse universo agora escancarado, a vida parece um beco sem saída, onde um copo ou um cigarro parecem ser a solução óbvia.

No mundo de Ordinário a esperança é a última que morre, mas morre.

E ninguém comparece no velório…

Desgraças à parte, o lançamento da Quadrinhos na Cia só corrobora o talento de um artista único, incomum, que em menos de uma década já encontrou seu estilo e tem pela frente toda uma carreira de erros e acertos mas que, sem dúvida alguma, será uma carreira singular, que atrairá uma legião de fãs, será tema de trabalhos acadêmicos e influenciará muita gente.

Viver numa grande cidade não é tarefa fácil. Ao escancarar sua janela, Sica e seu Ordinário acabaram de deixar essa tarefa um pouco mais difícil. Deliciosamente mais difícil…

— morreu num acidente inexplicável na Serra da Cantareira. Antes que seus familiares percebessem, já havia virado um Zumbi. Para aplacar sua fome por cérebros humanos, passa as noites escrevendo no Gibi Rasgado. Seus amigos, com medo de seu apetite insaciável, o convidaram também para escrever no Quadro a Quadro. No momento ele está sob controle.