keli_vasconcelos

 

 

 

► Keli Vasconcelos¹

 

 

 

senna1Meu irmão é mais novo, tem 26 anos. Ou seja, aos seis precisou lidar com o luto e a perda de uma pessoa importante, retirada tão drasticamente: a morte de Ayrton Senna, em um acidente grave no circuito de Ímola, Itália, em 1º de maio de 1994. Complicado explicar a um menino que identificava-se com aquela figura que gostava de carros, corridas e ainda era canhoto, condição até então vista (por ele) em sua irmã ou amiguinho da escola.

Pois bem, 20 anos se passaram e meu irmão continua com os mesmos gostos e, claro, admirando o mito (por falar nisso, a editora Nemo está lançando o álbum “Ayrton Senna: A Trajetória de um Mito”). Sempre que vê um evento, exposição, filme, documentário, ele vai, compra, informa, comparece.

Lembrei-me, então, de uma pequena coleção de HQs do “Senninha e sua Turma”, idealizadas por Rogério Martins e Ridaut Dias Júnior. A revista mensal foi lançada em 1994, pela Abril Jovem (em 2008 por outra editora e com equipes independentes. Hoje? Na internet em http://senna.globo.com/senninha/index.asp).

Peguei então os últimos feriadões, vasculhando o famoso ‘quartinho da bagunça’ e deparei-me com alguns números, intactos. A frase é manjada, mas ‘voltei no tempo’ relembrando o Fernando tentando desenhar (de forma habilidosa, diga-se) o Meu Herói (capacete que interage com Senninha), o Pé-de-Breque, a Déia, o Marcha-Lenta, a Coni, o J.J, entre outros personagens.

A HQ que queria destacar é a de número 17, publicada em 1995, porque fala do primeiro ano sem o ídolo e os autores de Senninha expressaram a difícil missão de “honrar o nome de uma lenda”.

senna2Para tal, a edição trouxe algo diferente. A primeira história, do total de sete, mais uma tirinha no Expediente, o ‘Jornal do Senninha’ – e um pôster (que não encontrei), homenageou o piloto Juan Manuel Fangio, morto em 1995 vítima de insuficiência renal, cinco vezes campeão mundial de Fórmula 1 (marca superada por Michael Schumacher em 2006, com a sexta vitória).

Em “Ganhando um Amigo”, Senninha e Braço Duro, seu ‘arqui-inimigo’, disputam o prêmio de Balcarce – Argentina, terra-natal de Fangio, mas Braço usa uma traquitana que joga nosso herói em um lamaçal. O piloto auxilia Senninha, apresenta a sua fazenda, arruma o carro do novo amigo e ainda ouve Meu Herói – privilegio que só pessoas especiais obtinham (como nós leitores, portanto!).

Como sinal de companheirismo, Senninha recebe a primeira medalha do pentacampeão, além do incentivo para batalhar, prestigiar as vitórias, entender as derrotas e prosseguir. De volta à corrida, a medalha é desprendida do pescoço do pequeno piloto. E agora, seguir ou frear? “Às vezes, tem coisas muito mais importantes do que simplesmente vencer”. Disse tudo, Senninha.

Bom, enquanto escrevia este texto, meu irmão ligava para um amigo avisando que na TV passava um documentário sobre Ayrton Senna, enquanto os seus olhos brilhavam, do mesmo modo que os de Senninha ao ver os troféus e carros do amigo Fangio.

Em minha humilde opinião, ídolos não são apenas os que acumulam grandes méritos, mas os que praticam as pequenas vitórias.

E neste Brasil de meu Deus, tão carente de heróis, os que aparecem não têm poderes mágicos. São os que nascem dentro da gente.

Saudades, Senna. Saudades, Senninha. 

__________

¹ Keli Vasconcelos é jornalista de São Paulo e freelance para revistas. É colaboradora do Portal Jornalirismo (www.jornalirismo.com.br), em que conta histórias sobre São Miguel Paulista, no extremo leste da capital paulista. Saiba mais em http://twitter.com/keliv1

*O conteúdo deste post expressa a opinião da autora, que é plenamente responsável pelo mesmo.

— Lucas Pimenta queria ser Martin Mystère. Não queria uma pistola de raios e sim a capacidade de enrolar uma noiva da mesma maneira...