Baratao66_capaEm qualquer canto deste nosso mundo habita ao menos um desses, e pode ter as mais variadas alcunhas: boite (um misto de “bar e noite”, boate escrito errado, não sei), cabaré, night club, antro e … isso que você está pensando, amigo leitor. Lá residem seres humanos, com outro sem fim de denominações: moças “de vida fácil” e “quengas” são exemplos, singelos até. Estas cujos corpos já acalentaram tantos desencantos, desatinos e … bem, inclusive isso aí que está pensando.

Rejeitadas como se não existissem, muito embora tenham a alçada da “primeira profissão do mundo”, elas estão presentes desde os livros sagrados até os anúncios de orelhões públicos. Nessa toada, somos convidados a deleitar no Baratão 66 (Bruno Azevêdo, roteiro, Luciano Irrthum, desenhos, – Pitomba/Beleléu).

O palco é o estabelecimento de mesmo nome, outrora um inocente armazém aninhado nos lençóis maranhenses, capitaneado por Adamastor e Darcilene, sustento das filhas Francinete e Margarida. O progenitor vai para guerra, some, e o Baratão 66 vira uma casa de depilação íntima, das oito às 18 horas, e muda para Baratão 69, a “casa da luz vermelha” mais porreta daquelas bandas.

Metamorfose, aliás, norteia as personagens: Adamastor recebe o título de “Falecido”, Darcilene torna-se a rancorosa D. Dadá, já baratao2as irmãs (como em boa parte das famílias) disputam pelo espaço do Baratão. O 66 é de Margarida, depiladora expert em, digamos, enfeitar os pelos pubianos das damas, com desenhos e apliques. Sonha em mudar de vida, ser uma franqueada da rede de salões Piu-Piu e à noite, ajuda no bar do agora 69.

Aí é a vez de Nete, com pinta cafetina desejosa por luxo, homens endinheirados – fazendeiros, políticos e ostentadores, podendo ser os esposos das clientes do 66. Devaneia com um príncipe encantado, que a levará para São Paulo e sairá da lama. Cada vez mais, porém, ela se afunda no lamaçal da volúpia, do abuso – como tantas, infelizmente.

 

De uma coisa, as irmãs têm em comum, além do parentesco: conhecem muito bem o preço de um fiofó alheio. E dividem Marleninha. Ah, essa sabe bem os ardores das paixões – e de outras coisas, diga-se de passagem.

Outra figura importante (e intrigante) da trama é Bozo, auxiliar do Baratão responsável por girar o ‘6’ pro ‘9’ do letreiro, além de apagar o fogo de Dadá, a muito contragosto (ou não!). Mas ele é mesmo a mulher do padre, Osmar!

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Azevêdo e Irrthum (que, aliás, aparecem nas páginas, preste bem atenção, meu caro) em seu Baratão 66 nos faz debruçar numa realidade deixada de lado, de forma gostosa, instigante, safada; com ares de cordel, ares de ousadia. História sedutora, em seu estado bruto, como deve ser.
 
Prostituição, ou seja lá o apelido, movimenta economias, estremece governos – vai de Silvio Berlusconi a prefeito de ''Cafundó dos Baixos'', tenha certeza! –, alimenta imaginários e imagens de populações inteiras. É informal em muitos lugares, emprego fixo e remunerado noutros tantos; é motivo de incentivos fiscais e, desde sempre, é moeda de troca de favores, de satisfações. Toma lá dá cá, literalmente.
 
Baratão 66 é Fogo no Baratão! Uma ode ao fiofó e aos que estão à margem, ‘rodando suas bolsinhas’ pelas esquinas esquecidas.
— Jornalista freelancer, moradora de S. Miguel Paulista - SP e também colabora para o portal Jornalirismo (www.jornalirismo.com.br). Nas horas vagas, lê Quadrinhos. Nas outras também. Mais em http://twitter.com/keliv1