Exposição convida espectador a afogar-se com o prazer de um ganso na obra do cartunista

► Por Juliana Protásio*

 

Em sua atual edição, o projeto Ocupação do Instituto Itaú Cultural (São Paulo) presta uma atraente, divertida e – impossível contornar o clichê – justa homenagem ao cartunista Angeli. A exibição apresenta 800 obras do cartunista, num compêndio exaustivo de suas diversas facetas  pontuadas sempre pelo humor ácido e crítica aguda. Em tirinhas, cartuns, charges, estudos, cartazes, fotonovelas e outros formatos, Angeli tornou público seu pensamento imagético sobre questões políticas, comportamentais, culturais, sociais, autobiográficas e amorosas desse nosso Brasil contemporâneo e global.

Paulistano da Zona Norte, o que significa uma origem humilde e batalhadora, Angeli nasceu junto com o rock, demonstrou talento precoce e, ao som dos os primeiros brados do punk, seus traços ganharam maior força e conquistaram espaço nos veículos nacionais.

Boa parte do acervo que compõe a mostra saiu de seus quase 40 anos de publicações na Folha de S. Paulo, mas há muitas peças da saudosa revista Chiclete com Banana (da qual minha mente de criança safada dos anos 80 recorda mais pelo aspecto concupiscente de alguns dos personagens) e trabalhos integrantes em outras publicações. Inclusive, há coisas bem curiosas, como fotonovelas hilárias, encenadas pelo próprio Angeli e seus amigos – como Laerte, protagonista da inusitada Sexo Frágil.

Dado o volumoso material em exibição, as soluções espaciais e artísticas realizadas pela equipe responsável pela mostra não só valoriza os trabalhos, como o processo criativo e a experiência sensorial do visitante. Dificilmente o espectador terá tempo e paciência para olhar atentamente a cada uma das imagens expostas,  mas o todo dá conta de um excelente impacto estético. Por outro lado, olhares mais atentos e minuciosos cabem também.

O espaço expositivo tem as paredes cobertas de séries de tirinhas e cartuns que levariam horas para serem deglutidos. Como quebra dessa que poderia ser uma monotonia visual, surgem objetos que sugerem a interação direta do usuário. Assim, nos deparamos com livretos de esboços, misteriosas gavetas que relacionam materiais e técnicas aos respectivos desenhos, maquetes usadas nas animações do curta Dossiê Rê Bordosa, mais gavetas-arquivo de aço coloridas que guardam cartuns de teor político e até mesmo uma geladeira retrô repleta de quadrinhos. Em uma das paredes, se abre uma janela da qual se contempla a paisagem verticalizada de São Paulo segundo o punho de Angeli.

No quesito lúdico-explorador, a maior invenção do projeto é instalação dedicada aos trabalhos de teor pornográfico. Numa saleta de luz vermelha, as paredes são cobertas de mamilos macios em formato tal e qual mamilos traçados por Angeli. E aí, alguns deles podem ser  “arrancados” para que você olhe por buracos, através dos quais poderá enxergar um daqueles desenhos sem-vergonha.

Como a Ocupação propõe aprofundar o entendimento sobre a trajetória do artista, vai além dos trabalhos. Assim, há também uma coleção de fotos de Angeli em diferentes etapas de vida – e cortes de cabelo – além de vídeos com depoimentos do artista sobre sua carreira, a relação com a vida urbana de São Paulo, o rock (marcadamente o movimento e a estética punk) e desenvolvimento de trabalhos, entre outros temas que surgem nas entrevistas.

Ao reunir obras em grupos temáticos, é possível ter uma dimensão melhor das reflexões de Angeli sobre diversos assuntos caros à nossa contemporaneidade urbana. Nessa condensação, é possível observar uma compreensão política mais aprofundada do que nos fazem supor personagens mais célebres (e engraçados), como Rê Bordosa, Os Skrotinhos, Woody & Stock e mesmo o caricato Bob Cuspe. Esta dimensão mais politizada do trabalho de Angeli revela também o seu lado mais humano e universal, sensível à injustiça social e à violência que assola consideravelmente os economicamente menos favorecidos.

Contudo, em diversas passagens da obra que se encontra representada ali, quando o olhar se volta para a mulher – outra minoria social – aparece um curioso misto de fascínio e agressividade, sempre disfarçado do característico humor corrosivo. Em mais de uma tira, mulheres são sexualmente torturadas e se recicla a ideia de que elas são uma praga – numa delas, um personagem que assiste da janela a uma chuva de mulheres nuas, pensa em voz alta algo do tipo “vou ter de chamar novamente a dedetização”.

Quatro décadas de carreira de arte visual e sequencial resumidas numa exposição tão convidativa certamente rende um triathon para as nossas sinapses. Até porque, como tentei descrever e exemplificar até aqui, a Ocupação Angeli foi caprichosamente concebida para acrescentar camadas e mais camadas de sentido ao material exibido. Quer dizer… Só vendo.

Angeli – Biografia

 

Serviço

Onde:  Itaú Cultural – Avenida Paulista, 149 – Bela Vista. (11) 2168-1700  – São Paulo

Horários: Terças, Quartas, Quintas e Sextas das 09:00 às 20:00. Sábados e Domingos das 11:00 às 20:00

Até 29/04/2012

 

Entrada franca.

 

Hotsite do Projeto Ocupação

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Juliana Protásio é jornalista formada pela Universidade Federal da Bahia e atua com foco na área de cultura, é naturalmente curiosa e por isso observa o mundo como uma grande crônica. Quando conversa com alguém, é comum que o interlocutor se sinta entrevistado.

 

 

— Adalton nasceu no último dia de uma lua cheia, mas acha que isso não tem nenhuma relação com a sua vida; começou comprando quadrinhos por puro modismo - uma edição da Turma da Mônica parodiando Jurassic Park; sua primeira compra consciente foi a edição nº 01 de Batman: A queda do Morcego, ainda formatinho. Acredita que irá terminar a graduação em Letras antes da catástrofe de 2012 e daqui até lá está estudando parte das traduções intersemióticas das peças de Shakespeare já produzidas. E nos interlúdios, tenta produzir roteiros a partir idéias rabiscadas em antigos pedaços de papel.