Quando li Solar: O caminho do herói – continuação de Solar: História de Origem Solar_Caminho-694x1024(Wellington Srbek/Abel/Cleber Campos – Mais Quadrinhos), lembrei de um causo que ouvi, meses atrás. Era sobre jovens de uma etnia indígena que, ao final do dia, entoavam cânticos para que o pajé, o mais sábio da aldeia, contasse uma história aos membros de seu povo.

E é de histórias que Solar nos oferta: a primeira delas é o encontro de Gabriel Nascimento, agora transportado para a floresta Amazônica, com um urubu-rei, o feiticeiro de plumas que perdera a coroa para Coraci, o Sol.

Já Uiraçu, pai de Gabriel, abre os olhos e ouvidos do jovem para os ensinamentos ancestrais, aqueles que não podemos deixar para trás, as mazelas do mundo, os dilemas que o homem provoca ao meio ambiente e o então menino sente na pele as maldades que a ganância pode proporcionar.

Por fim, nada menos que o ganancioso Zarkan, o ‘arqui-inimigo’, fala ao agora guerreiro, transportado novamente para Belo Horizonte (MG), do destino, das profecias descritas nas guerras – dos combates do antigo Egito até os campos da Segunda Grande Guerra. Mostra, então, as páginas do livro da existência, aquelas que não podemos rasgar, nem saber o final, muito menos ‘meter o bedelho’ em seu conteúdo.

Presenciamos o renascimento de Gabriel-Iauareté, que não é mais um menino. Eis o homem que salva a sua Cris, reencontra o seu amigo Beto e a mãe Sofia, mas não deixa para trás os desígnios de Uiraçu, que conduz a Dança da Vida na Aldeia do Céu.

Solar nos lembra de um princípio, muitas vezes deixado de lado: viver é um caminho galgado em experiências, em bagagens, em lembranças, aquelas que permanecem em nosso coração.

Solar-1Viver é como uma árvore (inclusive, é relatado tal pensamento nas páginas da HQ): semeada em solo fértil, germinada e com raízes fincadas firmemente, crescem, então, seus ramos, frutos, folhas e galhos, que cortejam o sol, dão sombra e refúgio.

Devemos ser assim, pois, afinal, não fazemos parte da natureza. Nós somos a natureza.

Se for para comparar, a existência é como o Sol e a História: ambos nascem para todos, todos a têm e todos podem ser banhados por tais elementos. E no vertiginoso enredo de Solar, o extraordinário, amigo leitor, é simples, pois a vida é uma iluminação de histórias, a maior herança que podemos deixar.

É cantar, como o causo que mencionei no início deste texto, uma canção para que todos alimentem-nos de mais histórias, e de novo e de novo, nessa ciranda existencial.

Uiraçu dançou a Dança da Vida.

Zarkan cumpriu seu papel em falhar.

Cabe agora Gabriel-Iauareté seguir com retidão o seu nobre caminho.         

— Jornalista freelancer, moradora de S. Miguel Paulista - SP e também colabora para o portal Jornalirismo (www.jornalirismo.com.br). Nas horas vagas, lê Quadrinhos. Nas outras também. Mais em http://twitter.com/keliv1