Por: Hunter (Pedro Bouça)*

Recentemente um álbum com várias histórias dessa obscura série do grande René Goscinny com arte de Dino Attanasio foi publicada em Portugal. 

Há uns meses foi publicado na França o primeiro intégrale da série. Eu finalmente consegui o ler no fim de semana e vou falar um pouco por aqui.

Spaghetti acompanha as desventuras do protagonista, um imigrante italiano na França (ou talvez Bélgica, o país não é identificado explicitamente) que fala um francês apropriadamente macarrônico e vive arrumando os trabalhos mais esquisitos. Eventualmente (nas HQs posteriores a este intégrale) junta-se a ele seu primo trambiqueiro Proschiutto ("Presunto"), com quem ele tem uma relação meio Donald/Peninha, para quem lembra dos quadrinhos Disney. 

A princípio eu achava que era uma HQ do início dos anos 50, devido à arte um tanto primitiva e ao fato de Goscinny ter virado editor da Pilote em 1959, o que o obrigou a reduzir sua carga de trabalho. Esse período da carreira do autor é meio dispensável, com um Goscinny ainda desenvolvendo seu estilo particular de humor. Eu estava errado. 

Spaghetti foi criado em 1958, poucos meses antes de Umpá-pá! Mais ainda, durou MUITO mais do que Umpá-pá, com mais de uma dúzia de aventuras longas e dezenas de curtas (2-3 páginas) assinadas por Goscinny, com outras tantas escritas por outros autores (sempre com arte de Attanasio) depois que este se afastou da série, que durou até meados dos anos 90! 

Ou seja, é mais de uma dúzia de álbuns assinados por Goscinny no auge da carreira que são praticamente descoonhecidos pelo público! E agora a Lombard pretende republicar todo esse material em belas (e baratas!) intégrales. Fantástico, não? 

Mas por que esse material passou tantos anos sem ser republicado (e, na verdade, nunca teve edições decentes em álbum antes)? O primeiro problema foi ter sido publicado na revista Tintin, que nunca 

valorizou muito seu catálogo humorístico (uma das razões do fracasso de Umpá-pá), e nunca teve uma política eficaz de publicação em álbuns. Não é a única gema da Lombard que precisava desesperadamente de uma compilação decente em álbuns, há até outra longa série de Goscinny do mesmo período (Strapotin, com pelo menos nove álbuns!) na mesma situação! 

O segundo fator é que a arte de Attanasio está bem longe de um Uderzo ou Goscinny. Com um estilo bem "anos 50" (similar às animações da UPA como Mr. Magoo) e simplificado ao extremo, ele está bem próximo do mínimo aceitável para uma HQ legível. Ninguém jamais comprará essa série pela arte! Isso também deve ter deposto contra a HQ nos velhos tempos. 

Mas isso agora é passado. Il Signor Spaghetti está de volta e merece ser lido por todos! Tem a minha mais alta recomendação!

*O conteúdo deste post expressa a opinião de Hunter (Pedro Bouça)que é plenamente responsável pelo mesmo.

— Lucas Pimenta queria ser Martin Mystère. Não queria uma pistola de raios e sim a capacidade de enrolar uma noiva da mesma maneira...