Malditos olhos.

E se você tivesse seu corpo e sua alma já comprometidos com o destino? E se esse destino fosse Deus?

Não que isso fizesse alguma diferença, afinal você cresceu sabendo disso.

Mas e se algo desse errado nesse eclesiástico futuro que lhe reservaram? Algo que trouxesse em si o brilho de dois olhos infernais?

Você não teria sido o primeiro – e com certeza não o último – a desgraçar todo o seu arrumadinho futuro por causa de uma mulher.

Mas e se essa mulher não fosse apenas uma mulher?

E se ela fosse sua melhor amiga?

E se ela trouxesse em seu dissimulado e hipnótico olhar todos os olhares de todas as mulheres do mundo?

E se apesar de tudo isso ela realmente te amasse?

Não tenho dúvidas, você enlouqueceria.

Não só você mas todos a sua volta. Porque se existe uma coisa da qual não podemos nunca duvidar é do que uma mulher é capaz quando ama ou odeia.

E por amor, mudaria o teu destino e te desviaria de Deus apenas para que seu caminho levasse até a ela, e não a Ele.

E convenceria a todos – convencendo-te – que esse sempre foi o único caminho possível.

E com aqueles olhos – malditos olhos – apaixonaria a todos.

Até ao seu melhor amigo.

E sua vida nunca mais seria a mesma.

E nem suas certezas.

E seriam as suas dúvidas que desgraçariam aquele amor a ponto de acabar com sua vida e a da dela.

E essa miséria nunca mais te abandonaria, até o fim de seus dias.

detalhe2

Medo.

Sim, isso daria um filme excepcional. Ou um romance.

Na verdade, já deu.

O enredo acima pertence a um dos maiores romances da literatura mundial: Dom Casmurro, de Machado de Assis.

Não sabia disso? Mas com certeza já ouviu falar de Dom Casmurro?

Ah… Claro! Aquele romance chato que te obrigaram a ler na escola e que você não leu?

E ainda fez a prova baseado unicamente na opinião do único CDF da sala?

Bem… Não se culpe pois a culpa não é sua.

São séculos de descaso com o ensino público. Mas tal esforço foi recompensado, finalmente os gênios responsáveis pela política educacional conseguiram a proeza de trazer até a formatura de 1º grau crianças que mal sabem interpretar um parágrafo.

São os chamados analfabetos funcionais e eles são a base da sociedade que planejaram pra gente.

E é claro que eles odiarão Machado de Assis. Eu, que frequentei o colégio há 30 anos passei mais de uma década odiando. E olha que comparado a hoje, meu colégio era praticamente uma Harvard.

Às pessoas que ditam as regras do que você deve ou não aprender, daquilo que você pode ou não pode gostar, nunca foi interessante que a maioria da população tenha acesso a qualquer coisa que a faça pensar. E aí incluímos Machado, Garcia Marques, Shakespeare e até Cartola.

É uma tática antiga, apurada e lapidada em 6 milênios de civilização.

Talvez resida aí a enorme rejeição que muitos formadores de opinião possuem sempre que uma adaptação de um clássico da literatura é lançada em quadrinhos.

Se for um filme – ou uma minissérie de TV – tudo bem. O alcance será bem maior, mas atenderá a interesses de produtores ou obedecerá aos índices de audiência. E as mensagens codificadas numa obra desse porte dificilmente serão mostradas ao grande público.

O alvo aí será o brilho dos lábios e a expectativa do beijo.

E aquela fração de segundos, onde os olhos revelam tudo o que há para ser dito, se perderá para sempre.

Mas se a adaptação for em quadrinhos provavelmente será taxada de “oportunista”, “caça níqueis” (ué, não deveria ser “caça reais”?) ou – pior – “mal feita”.

Mas tanta rejeição e preconceito tem fundamento: o medo.

detalhe1

Mais rápido que uma bala.

O motivo é simples: as histórias em quadrinhos possuem um poder de infiltração surpreendentemente rápido.

Não sou um especialista, mas nem precisa ser muito esperto para perceber que as funções cerebrais utilizadas numa leitura de quadrinhos são outras que aquelas usadas numa leitura em prosa, ou pelo menos se tornam mais eficientes.

Faça o teste: dê a uma criança de 9 anos um livro infantil (com muitas ilustrações) e um gibi, ambos compatíveis com sua idade. Depois peça para ela explicar as histórias.

A retenção terá sido muito maior na história em quadrinhos.

Repita o processo com um adulto alfabetizado, trocando o livro infantil por um manual de instruções de, digamos, um aparelho de raios X. Primeiro lhe entregue apenas o manual escrito, com ilustrações dos botões de comando e peça pra ele operar a máquina.

Repita o teste após ele ler o manual em quadrinhos.

Não importa quais exemplos você pegue, o resultado será o mesmo.

Talvez por isso os quadrinhos venham sendo objeto de intensos estudos nos últimos anos, principalmente sobre sua utilização em salas de aula.

O que nos leva a um paradoxo: se é uma ferramenta tão poderosa a ponto de merecer estudos acadêmicos sobre seus efeitos, porque sempre que surge uma adaptação de um clássico da literatura a primeira reação – antes mesmo de sua leitura – é julgá-la inadequada?

detalhe4

Nem melhor, nem pior, mas única.

Uma história em quadrinhos, seja ela original ou adaptada de uma outra mídia, deve se bastar por si só. Quem me abriu os olhos a esse fato foi um amigo que é educador e entende de quadrinhos muito mais do que eu ( o que não é muito difícil, diga-se).

Desde então, até pelo trabalho que fiz em Sonho de Uma Noite de Verão, tenho pensado muito nisso.

Obras (ou produtos) ruins existem em qualquer ramo da produção humana. Nos quadrinhos não é diferente.

Ou eles são bons ou ruins, seja uma adaptação de Machado ou uma ficção futurista. E se eles forem bons, que diferença faz se for uma história adaptada? Afinal, as boas histórias estão aí para serem contadas, não é?

Uma adaptação em quadrinhos de uma obra literária não deve nunca pretender substituir o original. E por um motivo bastante simples: isso é impossível.

Quadrinhos são uma outra coisa, bem diferente de literatura ou ilustração. Na verdade são os dois, sendo algo totalmente diverso deles. Portanto, antes de ser uma boa adaptação deve ser um bom gibi  – e digo aqui gibi pela forma que histórias em quadrinhos são conhecidas no país, e não pelo maldoso sentido que dão a palavra, atribuindo-lhe uma inferioridade em relação às demais formas de arte e expressão que os quadrinhos definitivamente não possuem (tampouco a pejorativa infantilização que atribuem ao termo, como se não houvesse diferenças claras entre quadrinhos infantis e adultos).

Cada gibi, quando bem feito, é único.

E no caso de uma adaptação, nem melhor, nem pior do que a obra em que se baseou.

 

detalhe3

De volta a aqueles malditos olhos…

O que nos traz de volta a Dom Casmurro, mais especificamente à recente adaptação da obra por Wellington Srbek e José Aguiar (Editora Nemo – 80 páginas – R$ 34,00).

Não uma adaptação, mas sim uma versão, como apropriadamente está impresso na capa.

O que corrobora tudo o que eu disse aí em cima, principalmente a parte de que uma história em quadrinhos deve se bastar por si só.

E Dom Casmurro – os quadrinhos – é um daqueles gibis de encher os olhos…

Srbek é um dos melhores e mais competentes roteiristas que temos. Escreve com a mesma desenvoltura sobre praticamente qualquer tema. Seja o sertão ou a cidade, o real ou o inconcebível, o amor ou o horror, suas histórias sempre possuem um ritmo fluente, dinâmico e, por que não, demoníaco. Antes que você se dê por conta já foi fisgado pela narrativa deste excelente roteirista.

Mas Srbek também é um trapaceiro. Sua habilidade em contar histórias faz com que o leitor vá para onde ele assim desejar, só para depois mudar o rumo da narrativa e te deixar boquiaberto. Isso fica bastante evidente em diversos pontos de sua produção, sobretudo nas histórias curtas de terror (inferno, alguém tem que republicar isso!).

O que se esperar então de Srbek adaptando Machado de Assis?

Simplesmente um Srbek em sua melhor forma, retratando a obra de Machado de uma forma que você nunca viu.

Lembram do enredo no começo desta resenha?

Ali estamos falando de Bentinho e Capitu, o mais desconfiado personagem de nossa literatura e uma das mais completas, encantadoras e enigmáticas mulheres já criadas na ficção mundial.

E a dúvida – maldita dúvida – que aqueles olhos de cigana despertaram em Bentinho permaneceu intacta nesta excelente versão em quadrinhos da obra mais famosa de Machado.

No romance original, somos levados a acreditar que Capitu foi a protagonista de uma traição inominável, cometida contra o amor puro e abnegado de Bentinho. E justo com quem? Com seu melhor amigo.

Mas o romance é narrado pelos olhos e lembranças do próprio Bentinho, com a parcialidade que lhe é devida, já que o próprio se julga a parte afetada na suposta traição.

E isso já foi tema de centenas de estudos acadêmicos. Afinal, Capitu traiu ou não traiu seu marido?

E é nessa dúvida que reside toda a estrutura narrativa da versão de Srbek. Afinal, no gibi – como no romance – a dúvida não apareceu do nada, ela foi sendo meticulosamente construída durante todos os atos, gestos e os olhares da astuta Capitolina.

E essa construção acontece de forma sutil na narrativa de Srbek. Em doses homeopáticas, Wellington vai pinçando pontos capitais da história, essenciais no entendimento dessa matrioshka chamada Capitu. Da menina ainda moça – mas já decidida a entregar seu coração a Bentinho – até a mulher madura e decidida, existe um longo percurso, feito, sobretudo, de obstáculos. Todos eles – menos o último – superados por Capitu, muitas vezes sem que Bentinho sequer percebesse.

Essa complexidade, tão bem retratada no romance, fica então amplificada em sua versão em quadrinhos. E aí o excelente roteiro de Srbek se alia ao traço preciso de José Aguiar.

Aguiar consegue o que parecia impossível: dar forma a Capitu.

Sim, porque os demais personagens são muito bem caracterizados no romance e qualquer dupla de autores competentes conseguiria sem muitos problemas retratar Bentinho, Santiago ou D. Maria da Glória. Mas como retratar um olhar? E logo o olhar mais estudado e comentado de toda a literatura nacional?

Mas lá estão eles. Aqueles olhos de ressaca…

E ter conseguido isso já vale toda a leitura deste Dom Casmurro.

Esta versão em quadrinhos prova que a literatura nacional pode render ótimos álbuns. Onde os elementos originais dos romances em que se basearam podem assumir outras cores, gerar outros entendimentos e serem apresentados a novos leitores numa embalagem diferente, com características próprias, sem que isso signifique necessariamente um “empobrecimento” ou uma “facilitação à leitura” da obra original.

Afinal quadrinhos são quadrinhos – e isso é o bastante.

 

Estudar para a prova.

Quanto à sua aplicação em sala de aula, devo dizer que entre dezenas de milhares de crianças lendo mal – ou simplesmente não lendo – Machado de Assis exclusivamente para cumprir uma obrigação acadêmica e dezenas de milhares de crianças se divertindo e discutindo a fidelidade de Capitu após a leitura de um gibi, fico com a segunda opção.

Porque na primeira situação sei que apenas algumas dezenas daquelas milhares de crianças voltarão a ler qualquer outro romance de Machado.

Ao passo que na segunda, milhares delas se apaixonarão pelo autor e lerão outras versões, como o Alienista, A Cartomante ou Memórias Póstumas de Brás Cubas.

E sei de carteirinha que pelo menos algumas centenas delas lerão as obras originais e as colocarão na estante, ao lado dos gibis que as apresentaram ao maior escritor de nossa literatura.

capa

— morreu num acidente inexplicável na Serra da Cantareira. Antes que seus familiares percebessem, já havia virado um Zumbi. Para aplacar sua fome por cérebros humanos, passa as noites escrevendo no Gibi Rasgado. Seus amigos, com medo de seu apetite insaciável, o convidaram também para escrever no Quadro a Quadro. No momento ele está sob controle.