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Dizem por aí que o que vale não é o destino, mas a jornada.

Não é bem assim. Pergunte a qualquer pessoa de vinte e poucos anos e ela poderá ter uma opinião bem diferente.

Quando somos jovens não achamos que poderemos mudar o mundo, temos certeza disso.

Com o passar da idade vamos deixando de lado uma série de sonhos. Se anotássemos cada um dos nossos sonhos juvenis num caderno e o relêssemos algumas décadas depois provavelmente riríamos muito.

Ou cometeríamos suicídio…

Ter uma banda de rock, ser atriz de novela, ganhar rios de dinheiro sendo profissional no Barcelona, ser muito, muito rico…

Ou então ser o novo Che, acabar com as injustiças sociais, descobrir a cura pra Aids e ganhar um Nobel…

Sem dúvida alguma alguns conseguem, numa sucessão de acasos, uma pitada de sorte, algum talento e muita perseverança.

Mas não é a realidade da maior parte das pessoas.

E essa é uma das muitas vantagens de se ficar mais velho.

Não é saber o quanto éramos ingênuos aos 20, mas reconhecer que também estávamos certos e de como todos os sonhos – realizados ou não – nos trouxeram ao que somos hoje.

Sim, o que vale no fim é a jornada, porque o destino todos sabemos qual é. Seja você um ídolo do futebol ou um anônimo atrás de um balcão de supermercado, no fim é tudo pó e a lembrança dos que ficaram, o que um dia também desaparecerá.

O que de forma alguma torna um crime o ato de sonhar ou de se correr atrás de tais sonhos.

Mas focado no objetivo dificilmente encontraremos o caminho. Já quando nos concentramos no prazer de andar ou se repararmos na paisagem que nos cerca, as chances de se chegar lá (seja lá onde for) aumentam muito.

Isso é o que chamam de vida.

Tá achando que entrou num blog de auto ajuda por engano, né?

Não entrou não, você ainda está no Quadro a Quadro.

Mas era necessário se falar um pouco de vida, de sonhos e de jornadas para se falar de quadrinhos.

Pelo menos para se falar desse quadrinho: Koko be Good, de Jen Wang (Barba Negra – 304 páginas – R$ 39,90).

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Caberia um monte de adjetivos para a obra dessa menina de apenas 27 anos. Mas por incrível que possa parecer, os adjetivos são supérfluos. O gibi dela não é uma obra para ser adjetivada, é muito mais que isso, é um gibi para ser lembrado e para despertar lembranças.

Jon é um cara recém formado, que tem muitos sonhos esquecidos na bagagem e uma vontade louca de dar sentido à sua vida. Sua namorada, bem mais velha, está prestes a viajar ao Peru, para se reencontrar com a história de seus antepassados. Jon pretende ir com ela, parece a coisa certa a se fazer.

Koko ganha a vida nas ruas. Uma baixinha invocada, irreverente e com uma personalidade pra lá de, digamos, original. Aparentemente, não se importa com nada que não possa lhe render algum lucro ou diversão e está sempre acompanhada de seu fiel escudeiro Faron, um adolescente descendente de imigrantes sem muita perspectiva na vida.

O caminho de Jon e Koko irão se cruzar.

E aí que começa a viagem.

E é exatamente disso que trata Koko be Good, sobre a jornada de cada um.

Em como a delicadeza e bondade de Jon podem transformar Koko e de que forma a irreverência e espontaneidade de Koko podem iluminar a estrada de Jon.

Mas não esperem um gibi fácil.

Jen Wang faz um trabalho genial nesse álbum e em nenhum momento recorre às saídas fáceis para explicar o comportamento de suas personagens.

Koko quer mudar sua vida e se tornar uma pessoa boa. Quer mesmo! Mas tudo o que consegue no começo é aquela bondade rasa que temos ao dar um trocado para um pedinte, um paliativo para aplacar nossa culpa cristã pelas mazelas do mundo.

Jon quer dar um sentido à sua vida. Ele sente que pode fazer a diferença e ama Emily, sua namorada. Mas até que ponto viajar ao Peru para realizar trabalhos comunitários não é simplesmente uma fuga de sua própria incapacidade de decidir o que realmente quer?

Emily quer ir ao Peru e sabe porque, mas não está certa de que essa seja também a jornada de Jon. Ela tenta ajudá-lo a se encontrar, mas não pode lhe indicar o caminho.

Faron não quer nada, apenas ser ele mesmo.

E é nessa encruzilhada de caminhos, com sentimentos e dúvidas supreendentemente reais, que Jen Wang desfila seu belíssimo traço e dá vida a um gibi que já transpira vida, desde a primeira até a ultima página. Captando emoções com naturalidade, Jen envolve o leitor no turbilhão de sentimentos existentes em Koko be Good e produz algo realmente inusitado: consegue reproduzir no gibi a beleza ou a crueldade existentes não no mundo em que vivemos, mas sim nos pensamentos que temos sobre esse mesmo mundo.

As descobertas, os caminhos, o que se levará pela estrada e o que se deixará para trás, o que se quer e o que se detesta, é o que faz de Koko be Good um gibi interessantíssimo, tenha você 20, 50 ou 80 anos.

Como disse antes, é um gibi para ser lembrando e despertar lembranças.

Lembrado por sua beleza narrativa e pela capacidade de nos fazer lembrarmos de nossas próprias jornadas. 

koko-final-s-79

— morreu num acidente inexplicável na Serra da Cantareira. Antes que seus familiares percebessem, já havia virado um Zumbi. Para aplacar sua fome por cérebros humanos, passa as noites escrevendo no Gibi Rasgado. Seus amigos, com medo de seu apetite insaciável, o convidaram também para escrever no Quadro a Quadro. No momento ele está sob controle.