Parece que o novo filme do Capitão América, Guerra Civil, conseguiu reaver mais uma vez o interesse das pessoas pelo Pantera Negra. Para qualquer um que assistiu, sabe que o personagem foi bem encaixado e tratado com respeito, temos T´Challa inserido no universo cinematográfico da Marvel! O grande super-herói negro e africano da Marvel chegou para ficar, presente até mesmo numa das duas cenas pós créditos do filme (vai me dizer que ainda não foi conferir?). Muitos vão em busca desse "novo" super-herói que no mês que vem completa 50 anos de existência. Mas, quem é o Pantera Negra?

Eu respondi para o meio acadêmico essa pergunta no meu trabalho de conclusão de curso, em 2008, num capítulo chamado Garra de Pantera, que eu pude atualizar e acrescentar dados no formato de artigo e que pode ser lido integralmente aqui. Neste artigo eu traço um panorama dos super-heróis negros mais influentes no mercado de quadrinhos e sano algumas dúvidas. T´Challa não foi o primeiro super-herói negro e nem mesmo o primeiro negro nos quadrinhos. Não foi a primeira representação de um africano, também. Mas sua popularidade é inegável! 

Antes que alguém me acuse de mesmice, evitarei repetir o que já tratei em uma trilogia de artigos sobre quadrinhos e representações da África que postei aqui no site. No primeiro deles tratei de todo um imaginário sobre a África que serviu de influência paras os primeiros quadrinhos retratarem o continente, principalmente estando muitos lugares ainda sob posse da Europa. No segundo texto eu tratei deste imaginário sobre a África dentro do mercado estadunidense, e, como podem ler, falei do Pantera Negra e as relações de sua origem com movimentos identitários dos negros nos anos 60. Por fim, no terceiro texto, falei dos quadrinhos mais recentes que fizeram representações mais elaboradas sobre a África e os quadrinhos africanos produzidos por autores africanos, como Bob kanza, T. T. Fons, Frank Odoi, Hector Sonon, Kola Fayemi, Farid Boudjellal, entre tantos outros.

Então tudo já se foi falado sobre Pantera Negra, negros e africanos? Jamais, ainda é um continente gigantesco e fascinante a ser explorado principalmente pelas heranças culturais e humanas no Brasil. Com a lei 10.639 em vigor na formalização educacional de nossa gente, a presença do Pantera Negra no atual filme Marvel pode ser um gancho a mais para o reconhecimento identitário com essa África, mesmo que dentro da ficção. E como aconteceu com o colega e amigo Daniel dos Santos em diálogo despretensioso em rede social, muita gente (inclusive jovens e crianças) saiu (ou sairá) das salas de cinema procurando nas lojas especializadas os quadrinhos do Pantera Negra publicados aqui no Brasil. Resolvi, então, fazer um lista sugestiva de edições que podem ser interessantes.

A primeira aparição do Pantera Negra no Brasil se deu na edição de número 19 da revista Homem de Ferro & capitão América (ou Capitão Z), no começo do ano de 1969, mas nem foi sua primeira aparição de fato nos quadrinhos estadunidense. Foi uma edição onde ele e o Capitão América se enfrentam.  A história contendo a primeira aparição do Pantera Negra (aquela mesma com o Quarteto Fantástico que contei no segundo texto sobre África, lembra?) só foi em 1974 na edição 66 da revista Homem Aranha. Essa mesma história primordial foi relançada em mais duas publicações: Quarteto Fantástico – Dia do Juízo Final (da coleção oficial de Graphic Novels Marvel) e na edição Pantera Negra (da coleção Heróis mais poderosos da Marvel), ambas de 2016.

Durante décadas o personagem saiu aqui no Brasil em diversas publicações da Marvel, geralmente como participação especial na história de outro personagem. Podemos ver aparições exporádicas de T´Challa em edições do Capitão América, Heróis da TV, Superaventuras Marvel, etc, bastante distante da quantidade de material do personagem em solo estadunidense. Mas em 1991 a editora Globo lançou em duas edições a minissérie do Pantera Negra (lá fora em 4 edições), contando a relação de seu reino, Wakanda, com um dos seus vizinhos, a Azania. Na edição The Official Handbook of Marvel Universe de número 12, em 1983, a localização de Wakanda vem como simplesmente "no centro da África", posteriormente melhor definida como ao norte da Tanzania, como na edição Fantastic Four número 21 (volume 3), de setembro de 1999. Em 2008, na segunda edição do Marvel Atlas – volume 1, Wakanda vem cercada de ficcionais vizinhos, como Rudyardia, Canaan e Ghudaya, numa região entre o Sudão do Sul, a Etiópia e o Quênia. Tratei desses lugares todos no artigo Aznia, Gorilla City e Outras Representações da África nos Quadrinhos de Super-heróis, apresentada em 2015 no Encontro Estadual de História – ANPUH-BA, pode ser lido aqui, a partir da página 1381. Essa confusão não é por acaso, ela é fruto da ignorância dos autores dessas histórias sobre a geografia e história do continente africano.

O personagem voltou ao velho hábito de aparecer eventualmente nas casas dos super-colegas Marvel, até que em 2006, a partir da edição 29 da revista do Demolidor, aqui no Brasil, ele retornou. Uma verdadeira reformulação, buscando atualizar o personagem, fazendo uma sintonia com países africanos pós independências, através de representações de uma Wakanda politizada e socialmente estruturada mais condizente com o mundo real. Essa fase estava recém lançada enquanto eu estava escrevendo ainda a minha monografia. Essa nova série com o personagem deu ainda mais frutos, tendo sido trabalho de conclusão de Edimário Duplat na graduação em Comunicação pela Universidade Federal da Bahia, em 2010 (Quer conhecer o trabalho? Aqui). Fortuitamente, essa série foi lançada encadernada recentemente na edição Pantera Negra – Quem é o Pantera Negra? (Coleção Official de Graphic Novels).

bpskrullDas páginas das edições brasileiras do Demolidor, o Pantera Negra foi dividir espaço com outros cavalheiros Marvel nas páginas da revista Marvel Action durante um bom tempo, quase ininterrupto. Participou de Guerra Civil (de 2007, e até casou com a Tempestade durante o pega-pra-capar), participou de Invasão Secreta (2009), estava presente na Essência do Medo (2012), vislumbrou Vingadores vs X-men (2013) e confrontou o Pecado Original (2015). A fase mais empolgante, na saga Conheça Wakanda e Morra! de 2008, está presente no encadernado que já comentei e que pode ser uma aquisição e tanto nessa fome de pantera: Pantera Negra (da coleção Heróis mais poderosos da Marvel).

Apesar da irregularidade de presença do nosso rei e guerreiro de Wakanda, muito material foi republicado recentemente, para deleite dos curiosos. Quem sabe com o entusiasmo que a encarnação nos cinemas trouxe, outros materiais possam surgir nas bancas de revistas e lojas especializadas. O filme solo do personagem, interpretado por Chadwick Boseman, projetado para 2018, talvez estimule ainda mais as republicações ou visibilidade do material do personagem mais recente. Nos faça pensar, também, que assim como a ficção pode promover interesses educacionais sobre outros continentes, como Ásia e Europa, que as narrativas ficcionais também possam ser úteis para a valorização do continente africano ainda pouco conhecido pelo leitor brasileiro. Representações estadunidenses sobre a África não são reflexos de realidade alguma, mas podem promover discussões e gerar ainda mais curiosidade sobre esse grande espaço humano. O Pantera Negra está pronto pra você! Você está pronto para o Pantera Negra?

— BATMAN em tempo integral e Historiador nas horas vagas, busca a verdade e enfrenta vilões em ambas as ocupações!