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► Keli Vasconcelos¹

 

 

 

 

Animal'z capaDia desses, peguei um trem lotado para a região zona sul da capital paulista, um tanto distante de onde vivo. Já me acostumei a pegar conduções cheias, mas chegou um momento que não conseguia mais me segurar e praticamente ‘afundei’ em meio à multidão. Aquilo me lembrou de um trecho de Animal’z, de Enki Bilal (Nemo), em que um dos personagens principais, Frank Bacon, saía dentro de um golfinho.

Engraçado, não fui atraída, quando adquiri o álbum, apenas pela capa nem mesmo as suas cores – com predominância do cinza, a ‘cor’ de São Paulo, muito menos com o que estava escrito na contracapa. Suas ilustrações que chamaram a atenção, com destaque para as passagens de tempo que delimitam a trama: a pantera carrega o homem em seu dorso, o homem a leva nas costas, essa por sua vez vela o sono daquele ser nu e frágil, ambos caminham juntos. Bicho-homem e o próprio bicho.

Em Animal’z, o planeta foi devastado pelo desiquilíbrio ambiental, o chamado “Golpe de Sangue”. Com as terras arrasadas, o mar tornou-se ‘porto seguro’ e alguns Eldorados são a esperança dos escassos habitantes. Um deles é o E17, com sua água doce, elemento essencial e disputado pelos sobreviventes.

A hibridação homem-animal é uma questão de vida ou morte, com pessoas ‘conectadas’ a aparelhos em suas colunas vertebrais que os interligam aos golfinhos. Os ‘packs’ foram criados por Ferdinand Owles, que também foi cobaia de si, a ponto de ter uma nadadeira como pé.

Animal'z pag 7Outras cobaias, como Bacon e a filha adotiva de Owles, Kim, desenvolveram atributos como a capacidade de ver além, força bruta suficiente para matar outrem ou mesmo instintos que beiram a selvageria.

No instigante álbum, não tão longe da realidade que vivemos e podemos vivenciar futuramente (por que não?), os humanos contam com drones em formatos de lagostas e cavalos-marinhos, que têm como função desde informar até prever o que está por vir.

Interessante que Bilal – nascido em Belgrado, na antiga Iugoslávia, naturalizado francês e uma exposição no Museu do Louvre no currículo, usa além do cinza, nuanças de vermelho e azul para traçar ambientes fantásticos, com urso devorador, baleia que voa, zebra-cavalo e vice-versa.

Pode até ser um enredo advindo de sonho, mas se for para fazer uma reflexão, esses drones não poderiam ser chamados de smartphones? E as mudanças climáticas? E os conflitos em diversos lugares do mundo por água?

Bacon, que extraiu seu nome ao ver um quadro do artista Francis Bacon, relata a importância de ‘pedir desculpas’ e valorizar o ‘sentido de moral’, já que seu ‘kit cultura’ estava desatualizado. Relembrei passagem que disse no início do texto, pois tem muita gente com o ‘kit’ dotado de mesmo problema… E penso que o autor quer nos alertar para esses pequenos itens tão significantes ao ‘nosso lado animal’: da natureza à gentileza.

Até porque tem coisas na nossa vida que nem a tecnologia mais potente pode nos livrar; a morte e a injustiça são exemplos. Louise, esposa de Owles, padece em um câncer, Bacon fora um menino-soldado africano salvo pelos experimentos de hibridação. Complicadas situações, não é, amigo leitor?

Como diria outro personagem de Aminal’z, o irônico (e bebedor de café) Lester Outside: “É com toda a natureza que teremos que pensar em negociar”.

Fica, então, a dica. 

 

— Lucas Pimenta queria ser Martin Mystère. Não queria uma pistola de raios e sim a capacidade de enrolar uma noiva da mesma maneira...