Sabe, muitas vezes sou imensamente criticado por ter uma visão romantizada sobre diversos assuntos, pessoas e eventos. Apesar de realizar todo o esforço em manter um pensamento crítico, lógico, quase cartesiano, não consigo fugir daqueles momento meio piegas e chorumelas quando me deparo com algo que me emociona e muito. Uma dessas coisas é a minha relação com os quadrinhos. Sempre me senti como o Tobey Maguire em Pleasantville: toda a “realidade” ao seu redor como um imenso preto e branco, mas com uns poucos momentos de felicidade em cores e os quadrinhos sempre foram esses momentos em cores, mesmo que eles fossem em preto e branco. E, com um mundo tão banal quanto este, as vezes dá vontade de dar uma escapulida dele.

Para uns, uma escapulida significativa se dá por meios ilícitos; para outros, se dá por alguns mergulhos no mar; para mim, se deu por alegres cinco dias. Os cinco dias em que ocorreu o FIQ 2011.

Pensar o FIQ 2011, é entender que ele não foi apenas um evento que reuniu 148 mil pessoas nos dias em que ocorreu. Mais do que isso, ele foi o fim de um ciclo iniciado em 2006, quando comecei a dar palestras sobre Quadrinhos na faculdade. Se naquela época eu vislumbrei uma possibilidade de trabalhar com a nona arte, o FIQ escreveu para mim em letras garrafais de forma imperativa: TRABALHE COM QUADRINHOS!

Ao mesmo tempo, o FIQ serviu para desconstruir uma série de conceitos e imagens em que eu, pisciano do jeito que sou, construí de muitos quadrinistas. O que me fez refletir sobre como é ténue a linha entre a idolatria e o respeito pela obra de um determinado autor. Se na Feira de Autores que aconteceu em Salvador eu fiz questão de matar o autor – metafóricamente falando e usando o pensamento do Barthes para isso – no FIQ eu constatei que autor também é humano: bebe, sofre ressacas, faz merda, fala merda (e muita).

Um dos episódios que mais me recordo deu-se na sessão de autógrafos de Carcará, do Aloísio de Castro – um exemplo de profissional e pessoa a ser seguido: uma criança com mais ou menos 8 anos pediu ao próprio que este fizesse um desenho. Prontamente Aloísio desenha um belo violonista e entrega à criança, que por sua vez olha para o trabalho com um ar crítico e diz: “É, o senhor sabe desenhar…”, arrancando muitas risadas dos presentes no momento. E, como o Lillo mesmo já disse, se 10% do público infantil do FIQ transformar esse “senso crítico” em produção, Belo Horizonte será a Bruxelas brasileira.

O pior do FIQ, na minha singela opinião, é lidar com a realidade pós-fiq. Na segunda-feira logo que seguiu ao evento, tudo ao meu redor parecia estar em câmera lenta: para onde tinha ido toda aquela agitação, todo aquele alvoroço, toda aquela animação, aqueles inúmeros olhos brilhandos? É lidar com todo o cinza deste mundo criando momentos de alegria e refúgio sob a forma de quadrinhos.

— Adalton nasceu no último dia de uma lua cheia, mas acha que isso não tem nenhuma relação com a sua vida; começou comprando quadrinhos por puro modismo - uma edição da Turma da Mônica parodiando Jurassic Park; sua primeira compra consciente foi a edição nº 01 de Batman: A queda do Morcego, ainda formatinho. Acredita que irá terminar a graduação em Letras antes da catástrofe de 2012 e daqui até lá está estudando parte das traduções intersemióticas das peças de Shakespeare já produzidas. E nos interlúdios, tenta produzir roteiros a partir idéias rabiscadas em antigos pedaços de papel.