la-dansarina-capaO ano era 1918 e Petro só mais um menino de família humilde, que sai de sua terra natal para povoar a capital paulista, berço das oportunidades, com suas indústrias produtivas e prósperas.

Morava em um cortiço no bairro do Cambuci, região central da cidade, numa São Paulo que sofria, na época, com a Gripe Espanhola, mal que matara cerca de 40 milhões de pessoas em todo o globo. O menino perdera outrora o pai na fábrica, agora a mãe, Rosaria, da temida moléstia. Eis o cenário onde Lillo Parra (roteiro) e Jefferson Costa (traço) descortinam La Dansarina (Quadro a Quadro).

No enredo, o menino, após ver a mãe morta, não queria deixá-la jogada num passeio público; ensejava, pois, um enterro digno, com direito e cruz e prece, na capela de São Miguel Arcanjo. Para tal, o desafio de atravessar a metrópole a nado e a barco – feito, hoje, serpenteado pelo asfalto e uma realidade passada por muitos que estão nas grandes cidades.

A Gripe Espanhola e sua Dansarina são palcos para mostrar as aventuras e desventuras vividas pelos personagens não apenas na bela HQ, mas que temos a oportunidade de esbarrar todos os dias.

_MG_3074Ou melhor, basta olhar para o espelho e para a árvore genealógica que eis nosso alicerce, nosso sotaque, nossa mistura, nossa força de vontade. Esse afã de batalhar que supera a Morte, cuja figura é aquilo que nossos olhos e corações veem, e que dá o ritmo da Dança da Vida. Baile este em que todos somos convidados a dançar e, mesmo renegando, temos ciência do desfecho.

Rosaria, mãe de Petro, antes de despedir-se da sua dança, ensinou ao filho a oração de São Miguel Arcanjo. E, após enterrá-la, ele rezara para que a genitora siga o caminho na proteção do arcanjo. Mesmo sem cruz na cova singela, a Morte presenteia o pequeno sonhador com uma singela árvore, ao lado da capelinha.

La Dansarina nada mais é que uma ode aos nossos passados, uns por cima dos outros, que nos formam e nos fortalecem. Seja em São Paulo, Salvador, confins do Japão ou extremos da Espanha, essa é nossa mistura, nosso impulso serpenteado em nossas veias.  

 

_MG_3064A capela de São Miguel Arcanjo, eu conheço. Foi construída pelos jesuítas em 1622, e é considerada um dos primeiros bens tombados pelo Patrimônio Histórico, em 1938, por nada menos que Mário de Andrade. Agora, toda vez que passar por lá, reverenciarei a bela e centenária gameleira.

Pois, afinal, segundo os sonhadores Parra e Costa, lá serenam eternamente Petro e Rosaria. Do mesmo modo que o arcanjo, Nossa Senhora do Rosário, a dinda Maria e a vovó Conga abençoam todos nós lutadores.

 

E é de São Miguel Paulista, no extremo leste da cidade de São Paulo, bairro cortado pelo rio fumegante de asfalto, que esta pequena sonhadora vos escreve.

— Jornalista freelancer, moradora de S. Miguel Paulista - SP e também colabora para o portal Jornalirismo (www.jornalirismo.com.br). Nas horas vagas, lê Quadrinhos. Nas outras também. Mais em http://twitter.com/keliv1