O reencontro com o Morcego.

Depois de treze anos trabalhando em várias regiões de São Paulo, voltei a atuar no Centro Velho. Mais precisamente na Praça da Sé, coração da capital.

Fica ao lado do Páteo do Colégio – lugar de fundação da cidade – e da Rua Boa Vista, onde comecei minha vida profissional aos 14 anos de idade, há mais de duas décadas.

Minha empolgação era visível, sempre adorei o Centrão. Pode parecer sentimentalismo eu sei, mas o fato é que não via a hora de começar em minha nova unidade no Banco. O centro de São Paulo sempre me fascinou.

Não demorou muito, é claro, para que eu começasse a dividir minhas horas de almoço entre garfadas apressadas e rápidas visitas aos sebos da região.

Naquela tarde não procurava nada em especial. E nem poderia, faltava menos de 15 minutos para eu voltar a labuta. Vinha do bairro da Liberdade, onde havia almoçado.

Não tive como evitar, o caminho de volta passava justamente em frente ao Sebo do Messias – tradicional livraria de usados aqui de Sampa.

Achei que não ia custar nada atrasar uns dez minutinhos. No fim das contas acabaria estendendo o expediente de qualquer maneira. E o sebo tava ali, na cara do gol…

Entrei e fui direto à sobreloja, onde ficam os gibis. Ao terminar de subir as escadas, antes mesmo de chegar à sala dos gibis e revistas, chutei uma caixa que estava no chão, bem no meio do caminho.

Depois do sonoro palavrão (aquele peculiar de quando damos uma topada com o dedinho do pé) olhei para a amaldiçoada caixa. Quem me olhou de volta foi um velho amigo que não via desde os meus 19 anos, quando doei toda minha coleção de gibis pra Gibiteca Henfil.

Perdi a fala e esqueci a dor no dedo. Aquela capa predominantemente azul e cinza, com a soturna figura saltando no vazio, não deixava dúvidas. Havia acabado de encontrar a 1ª edição brasileira de O Cavaleiro das Trevas 01, publicado pela editora Abril em 1987.

Sentei no chão e comecei a revirar a caixa. Os outros 03 números estavam ali também, todos em bom estado de conservação, a módicos R$ 3,00 cada um.

O atendente no andar de baixo deu a sentença final:

– Doze reais, com desconto sai a dez e oitenta.

Paguei.

Quando voltei ao atendente com o comprovante de pagamento ele olhou pra minha cara com um sorriso maroto de quem sabe o que está falando:

– Primeira edição, né?

Meu olhar me entregou. O cara gostava de gibis também e alargou o sorriso.

– Deu sorte. Esse tipo de coisa, completa e nesse estado, não pára um dia por aqui.

Agradeci e saí. Já estava atrasado quase meia hora.

Entrei no escritório esperando o olhar fulminante do meu Gerente. Mas antes ele olhou para a indefectível sacola amarela (cor normalmente associada aos sebos daqui) e perguntou com ironia e uma inesperada cumplicidade:

– O almoço foi bom?

Sim. O almoço havia sido ótimo…

 

1987

À medida em que folheava os gibis no metrô, centenas de lembranças passavam pela minha cabeça. Em 1987, o mundo dançava ao som de La Bamba, de Los Lobos, e Bad, de Michael Jackson. No Brasil, vivíamos um misto de esperança e apreensão com uma recém reconquistada democracia e uma situação econômica altamente instável, a moeda chamava-se Cruzado e o Corinthians – mesmo naquele ano havendo 02 campeões brasileiros – ainda não havia ganho um título nacional.

Os quadrinhos passavam por uma revolução no país. Capitaneados pela então toda poderosa Editora Abril, dezenas de títulos invadiam as bancas todos os meses. Mas ninguém estava preparado para aquele gibi lançado no começo do mês de abril.

Num tempo em que internet e ipads eram ainda delírios de algum escritor de ficção científica, apenas profissionais e fãs melhor informados sabiam que desde o ano anterior o mundo dos comics estadunidenses estava sob bombardeio intenso. E as bombas tinham nome e sobrenome: chamavam-se Frank Miller e Alan Moore, um com seu doentio Batman sexagenário e o outro com seu Watchmen, naquela que é considerada a melhor história em quadrinhos de todos os tempos.

Mas aquele office boy de 14 anos não sabia de nada disso. Ele estava contente demais por ter recebido seu primeiro salário.

Era uma outra época. A vida não era fácil e tínhamos uma pequena irmã de 04 anos pra criar. Minha mãe separou 25 cruzados do envelope fechado que havia acabado de lhe entregar. Não podíamos nos dar a aquele luxo mas ela não hesitou:

– Para os seus gibis.

Metade daquele dinheiro tinha destino certo.

 

O Cavaleiro das Trevas

Reler O Cavaleiro das Trevas duas décadas depois de ter lido o original foi uma das melhores experiências que tive em 2010.

A lembrança daquele adolescente franzino e cabeludo que gostava de gibis e de rock contrasta com a desse careca e cínico escrivinhador de quase quarenta anos. O primeiro achou aquele gibi o melhor Batman que havia lido até então. Este sabe, por tudo o que ouviu a respeito do tema e pelos mais de cinco mil gibis que leu depois daquele, que O Cavaleiro das Trevas é um dos melhores quadrinhos de todos os tempos.

E até onde eu me decepcionaria com minhas próprias lembranças ou seria influenciado por uma opinião consolidada mundialmente a respeito da genialidade de Frank Miller naquele trabalho?

Como sempre faço, resolvi me abstrair de qualquer pré conceito existente e, relembrando aquele moleque de 14 anos, me tranquei no quarto. Com uma arma imaginária na cintura, aquele cômodo de 15 metros quadrados acabava de virar minha Gotham City.

E eu tinha um encontro marcado com o Morcego.

 

O Retorno do Morcego

Não há um único capítulo ruim em toda a saga. Não há sequer um mais ou menos. É claro que estou me referindo ao primeiro Cavaleiro das Trevas, o segundo, publicado em 2001, é uma outra história, numa outra época e merece uma análise à parte.

Mas a abertura desse primeiro O Cavaleiro das Trevas é uma das melhores histórias já escritas em todos os tempos.

Narrativamente perfeita.

É bom lembrar que tínhamos ali Frank Miller em sua melhor forma. Após pegar um título da Marvel que andava em baixa, Miller havia embasbacado o mundo todo com o seu Demolidor.

Com diálogos precisos e histórias complexas, Miller conseguiu no Demolidor um equilíbrio impressionante entre momentos intimistas e ação vertiginosa. Não bastasse isso, sua habilidade como roteirista estava aliada a sua genialidade como desenhista.

Com cortes rápidos, ângulos inusitados e um dom sobrenatural na escolha do momento exato de enquadramento da imagem, Frank Miller se mostrou um dos melhores narradores gráficos de todos os tempos. O sucesso na Marvel o levou a DC e ao Batman.

E seu Batman levou o mundo dos comics a uma revolução.

Nas primeiras páginas somos apresentados a um aposentado e amargurado Bruce Wayne de 55 anos, que tenta preencher o vazio de sua alma entre jogos perigosos e copos do melhor vinho que o dinheiro pode pagar.

O Comissário Gordon, prestes a deixar a polícia de Gotham, tem a sua frente uma cidade destruída, tomada por gangues sádicas cuja violência impressiona pelos requintes de crueldade, imersa no pior verão de sua história, uma cidade podre dos esgotos até as antenas de TV.

Aliás, a TV tem um papel preponderante em toda a trama. Como num pesadelo de George Orwell, os programas de TV estão em todos os lugares, explorando cada uma das desgraças daquela Gotham sem esperanças. Cínica e sensacionalista, a televisão em O Cavaleiro das Trevas não apresenta personagens – ela é uma personagem.

E claro, nas páginas iniciais conhecemos também o vilão desse primeiro capítulo, um Harvey Dent com o rosto recém recuperado e prestes a receber alta médica do Asilo Arkam.

E a ação não demora a começar. Na metade da 8ª página de história, de forma aparentemente despretensiosa, começa uma das sequências mais fantásticas dos quadrinhos norte americanos.

Sem alterar um único elemento da origem do Morcego, Frank Miller nos apresenta o primeiro encontro de um jovem Wayne com a fera que ocuparia seu corpo e espírito nas quatro décadas seguintes. Mostra também a derrocada de Dent e, nas cinco páginas mais copiadas em todas as versões posteriores do Homem Morcego, o assassinato dos pais de Wayne e o renascimento de Batman.

O que temos a seguir são uma série de ataques silenciosos aos criminosos de Gotham, sob uma tempestade intensa, numa metáfora que, se não é original, foi contada de forma emocionante.

As opiniões das vítimas salvas são confusas e apontam para um monstro, um demônio assustador. Alguém cuja visão causa medo.

Miller resgata nessa sequência um Batman sombrio. Não apenas com elementos originais de Bob Kane e Bill Finger mas também tudo o que de melhor foi produzido nas cinco décadas anteriores.

Sua habilidade cria uma expectativa crescente. Até aquele momento o herói propriamente dito não havia sido mostrado em único quadro sequer, apenas os efeitos de suas ações.

Só na parte final da sequência seu Homem Morcego nos é apresentado. E é nesse momento que o Batman tal qual os adolescentes de hoje conhecem é definitivamente delineado.

Em apenas 02 quadros, Frank Miller redefiniu e consolidou um Batman até hoje utilizado. Todos os quadrinhos praticamente infantis das décadas de 50 e 60 são esquecidos frente à ruína  psicológica e comportamento sem concessões apresentados naqueles quadros.

Batman está encurralado, com uma arma apontada na cabeça. Seu comportamento é totalmente inesperado e – até hoje, depois de tantas idas e vindas na vida (e morte) do Morcego – a sequência é impressionante:

O retorno de Batman obviamente não passaria impune. Os efeitos de sua reaparição começam a ser debatidos em rede aberta e pequenas pistas sobre o real motivo de seu desaparecimento por uma década são postas à mesa. No Asilo Arkam, um velho amigo, depois de 10 anos em estado catatônico, alarga um sorriso. Alarga demais, eu diria. A cidade vira um pandemônio.

A caçada ao vilão não chega a ser tão espetacular quanto a sequência de abertura. Mas sua importância não pode ser medida pelo deleite visual da iminente vitória do Morcego sobre o Duas Caras e sim pela mensagem que traz embutida em seu roteiro, que também influenciou toda uma geração de roteiristas e desenhistas posteriores.

Harvey Dent, apesar das duas metades do rosto iguais, não resiste a seus próprios demônios. É em sua desgraça particular e em sua mente degenerada que Miller reflete seu Batman.

A consciência da própria obsessão, a alma atormentada e o comportamento psicótico não apenas redefiniram o Homem Morcego mas sim toda a forma de se fazer histórias em quadrinhos nos Estados Unidos. O Batman e o mundo dos super heróis nunca mais seriam os mesmos.

 

O Morcego Triunfa

Nenhuma boa história se sustenta sem bons coadjuvantes. Não falo de espaço na trama mas sim de importância dentro de uma narrativa. E esse segundo capítulo está recheado deles.

O resgate à essência do Morcego jamais seria possível sem a existência de um Robin. Na história anterior, antes da reaparição de Batman, o Comissário Gordon toca no nome de Dick Grayson – o primeiro Robin – Wayne desconversa. Pouco depois, um insône Bruce Wayne se depara com o uniforme aposentado de seu pupilo.

Nada mais é dito e a dúvida fica no ar.

Nesse capítulo somos apresentados a uma adolescente chamada Carrie Kelley. Salva pelo Batman no primeiro episódio, Carrie resolve, por conta própria, se tornar a nova Robin. Mas ela ainda demorará um pouco para ser vista ao lado do Morcego.

Ele está mais preocupado com outros jovens, mais especificamente um grande, forte e ágil jovem, líder da gangue auto denominada Mutantes.

São os Mutantes que comandam o submundo de Gotham. Novamente, Miller se utiliza de todas as referências possíveis na criação de suas personagens. A gangue Mutante em nada é diferente em sua essência aos violentos Druguis de Laranja Mecânica – romance de Anthony Burgess, imortalizado no cinema sob a direção de Stanley Kubrick.

Quanto mais o detetive investiga sobre o submundo de Gotham, mais se afunda na podridão política de interesses.

Miller não é um cientista político e seu Cavaleiro das Trevas não possui a consistência e conteúdo de Watchmen ou V, ambos de Alan Moore. Mas estamos falando de Batman, um ícone da cultura pop do século XX e um dos personagens mais lidos de toda a história dos comics norte americanos.

Qualquer conteúdo político ali seria equivalente a uma bomba H. E Miller soube utilizar muito bem as concessões que lhe foram permitidas.

A gangue Mutante possui material bélico de uso restrito de forças militares. A morte do general que abastecia os criminosos é um dos quadros mais bonitos dessa segunda parte. Até seus motivos – aparentemente redentores – são uma sutil alfinetada ao “american way of life”, já que o general só começou a desviar armas após o seguro saúde ter se recusado a custear as despesas médicas de sua esposa, acometida de leucemia.

Entre uma cena de ação e outra, Miller continua destilando seu sarcasmo político. Da indefinição do prefeito na escolha de um novo comissário de polícia até a desfaçatez do porta voz da Casa Branca, somos presenteados com um texto adulto, inteligente e mordaz, coisa incomum até para os dias de hoje.

A investigação do Morcego começa a incomodar os rosados americanos que detém o poder. E também o leva ao covil da gangue Mutante.

Um único homem, por melhor preparado que esteja, não conseguiria lutar contra centenas, milhares de jovens. Batman precisava de equipamento a altura. Entra em cena então o Batmóvel mais legal de todos os tempos. Nada daqueles azuizinhos automóveis com asinhas até então comuns nas histórias do Morcego. Miller nos traz um pesadelo bélico. E não são raios laser, serras embutidas ou qualquer outra improvável bat-frescura, o Batmóvel de O Cavaleiro das Trevas tem poder de fogo de verdade, suficiente para destruir uma cidade inteira. Não a toa, Chistopher Nolan se inspirou nele no veículo utilizado no filme Batman Begins, de 2005. Não é um carro, é um tanque.

Com o líder Mutante na mira de algo que o pulverizaria, Batman tem que decidir pelo assassinato ou pela aceitação do desafio feito pelo vilão para lutar de verdade.

Algo do tipo tantas vezes ouvido em nossa infância:

– Não é homem não? Vem sozinho e larga esse pedaço de pau pra ver o que acontece.

Apesar de totalmente diferenciado de suas versões anteriores, esse Batman continuava sendo o Batman, não assassinaria pura e simplesmente seu oponente. Resolve aceitar o desafio.

E toma um pau como nunca antes havia sido mostrado.

Os “Soc” e “Pow” da inesquecível série televisiva dos anos 60 foram totalmente deixados de lado. O Batman foi – literalmente – triturado pelo líder Mutante. E teria sido morto, não fosse a intervenção de… Robin!

Sim, a adolescente Carrie, sem nenhum tipo de preparo em luta corpo a corpo, munida unicamente de coragem, consegue impedir que Batman seja morto.

O líder Mutante é preso. Mas não ficará assim muito tempo. Apenas o suficiente para o Morcego se recuperar.

Novamente Miller utiliza a pausa na ação para se aprofundar no aspecto social e político da trama. A recuperação do Morcego, nos túneis da Batcaverna, só reforçam sua doentia obsessão. O que fica bastante claro quando o destino de Jason – o 2º Robin – é parcialmente revelado.

Outro ponto de extrema importância na abordagem de Miller diz respeito à violência implícita da série. O líder Mutante, mesmo preso, é o protagonista de um ato violentíssimo, que surpreende pela crueldade, ainda que velada graficamente. Na época lembro do bate papo de meus amigos nerds – eu mesmo um deles – de que a série era sensacional, mas violenta de uma forma quase impossível.

Vinte e cinco anos depois, com adolescentes matando os próprios pais, com filhos sendo jogados da janela, com crianças sendo serradas por maníacos e tantos corpos incinerados vivos, a violência urbana e juvenil de Miller é quase profética.

E é apropriada dentro da trama, pois justifica a volta do Morcego naquela cidade situada em algum lugar 20 anos no futuro. Acomodada com a violência e sem esperanças de melhora, Gotham sofre um choque com o retorno do Morcego e não demora muito para que suas fraturas comecem a ser expostas.

O inferno em que se transforma Gotham City chega aos ouvidos do presidente. E é exatamente aí que Miller, numa sequência com  apenas 2/3 de página, justifica todo o capítulo e prepara a série para um desfecho espetacular, que consumirá todos os 02 últimos episódios.

O presidente incomodado com o burburinho em Gotham, resolve convocar seu melhor soldado.

E ele veste azul e vermelho e é mais rápido que uma bala.

Mas sua participação só será definida no 3º capítulo. Miller, a exemplo do mistério envolvendo Robin, tomou o cuidado para apenas aguçar a curiosidade do leitor.

Nesse momento, Batman, num último pedido ao Comissário Gordon, que está prestes a se aposentar, facilita a fuga do líder Mutante.

O vilão cai na armadilha e vai diretamente para os braços do Morcego, num novo embate corpo a corpo.

Dessa vez, Batman, tal qual um George Foreman de capa, se utiliza de toda a sua experiência para compensar o enorme vigor físico de seu oponente.

O Morcego triunfa e se torna o rei do Gotham. E é em sua vitória que começará sua ruína.

 

Caça ao Morcego

Sem dúvida alguma o episódio mais adulto da série. Gordon finalmente se aposenta e em seu lugar assume uma garota prodígio da corporação chamada Ellen Yndel. Experiente, forte e decidida, sua primeira providência como Comissária de Polícia é expedir um mandado de prisão contra o Morcego.

Mais do que um resgate à origem contada e recontada de Batman nas décadas anteriores, o reconhecimento oficial da ilegalidade de suas ações, sempre nigligenciada por Gordon, criam o cenário narrativo ideal para amarrar todas as pontas soltas sobre Robin e o motivo real do desaparecimento de Batman uma década antes.

E Miller não deixa por menos.

O mundo está em guerra. Não exatamente o mundo, mas Estados Unidos e União Soviética.

Se nos lembramos da Guerra Fria – e em 1986 ainda estávamos sob seus efeitos – esses dois países numa escaramuça seria o mesmo que dizer O Fim do Mundo.

Na disputa pelo poder na hipotética região de Corto Maltese, localizada na América Central, numa clara referência às campanhas de apoio militar aos governos ditatoriais das Filipinas e Nicaragua, os Estados Unidos contam com uma arma secreta: um soldado indestrutível, um homem de aço.

E é esse soldado azul e vermelho a principal atração desse episódio. Assim como Miller levou às últimas consequências a psicose de Batman, o forte senso de obediência as regras e bons modos do Super Homem se tornaram um prato cheio nas mãos do roteirista.

O que temos em O Cavaleiro das Trevas é um kriptoniano indestrutível a serviço do Governo americano. Um bom soldado que não cogita as ordens que lhe são impostas, apenas as cumpre.

E suas ordens vem diretamente do presidente americano na mais abusada referência de toda a série. O presidente de Miller nada mais é do que o próprio presidente dos Estados Unidos na época, o republicano Ronald Reagan.

Mas deixemos o mundo de lado por um instante e voltemos a Gotham City.

O Coringa, respaldado por extenso parecer médico, fará sua primeira aparição pública em uma década. O palco escolhido é um programa de TV inspirado no mais popular Talk Show norte americano.

Batman, obviamente, sabe que o Coringa não tem apenas a intenção de sorrir para as câmeras. A Comissária Yndel também.

Mas antes Batman terá o inevitável encontro com o Super Homem. A exemplo da sequência no primeiro episódio, Miller não mostra ainda seu Homem de Aço, apenas os efeitos de sua presença. Numa genial referência ao bordão mais famoso das histórias de super heróis, fica claro que a imprensa está proibida de fazer qualquer referência a alienígenas super poderosos capazes de ultrapassar um edifício num único salto.

Mas quem dá as caras primeiro é Clark Kent. Sua visão é imponente. Sem um único dia de envelhecimento, o kriptoniano de Miller é um Hércules moderno. E a conversa entre Kent e Wayne obviamente não leva a lugar algum.

 Ao colocar o iminente confronto entre o Coringa e Batman nesse episódio, Miller obrigatoriamente coloca em rota de colisão dois dos heróis mais famosos de todos os tempos.

E a partir daí a história é dividida em dois espaços e tempos distintos. De um lado a espetacular fuga do Coringa, tendo como pano de fundo uma polícia altamente disposta a capturar um Batman recém promovido a criminoso. Do outro, o conflito na região de Corto Maltese, com um Super Homem a serviço do governo americano contra o “terrível inimigo” soviético.

É nesse momento que somos apresentados aos reais motivos do desaparecimento dos heróis. O destino de Jason, o 2º Robin, não é revelado mas fica claro que ele morreu ( ou que tenha acontecido algo ainda pior que a morte ). E isso foi o estopim para que os heróis fossem caçados e impedidos de atuarem.

Como não poderia deixar de ser, nesse insano mundo criado por Miller é Batman quem ousou desafiar as autoridades.

A dicotomia presente no roteiro de Miller é sutil, mas poderosa. Temos um homem tentando proteger vidas e sendo tratado como criminoso e outro contribuindo para a destruição com respaldo governamental.

É essa dubiedade nas personalidades e ações que afastam O Cavaleiro das Trevas da obviedade tão comum nos quadrinhos de super heróis. A abordagem também influenciou muita gente que veio depois, pena que na maior parte das vezes sem a profundidade psicologica e política de Miller.

Seu Coringa também não ficou atrás. Sua insanidade toma proporções assustadoramente humanas e revela uma mal resolvida história de amor e ódio com o Morcego. Sua crueldade parece também não ter limites, o aproximando muito mais do palhaço original das primeiras histórias de Batman do que da divertida versão imortalizada por Cesar Romero na série televisiva dos anos 60.

O desfecho da peleja entre o Palhaço e o Morcego se dá, como não poderia deixar de ser, num parque de diversões e é inesquecível. Após mais uma dezena de corpos pelo caminho, a luta final acontece num apropriado – e nada sutil – túnel do amor.

No diálogo mais lúcido de toda a história do Coringa, só comparável a sequência final de A Piada Mortal, de Alan Moore, o Palhaço dá cabo à própria vida.

Ao seu lado um Batman extremamente ferido e encurralado por uma equipe inteira da SWAT. 

 

A Queda do Morcego

Como terminar uma das melhores histórias já feitas? Como produzir um desfecho a altura dos 03 episódios sensacionais que o antecederam?

A resposta está na própria história da literatura: criando um desfecho épico. O que na linguagem das histórias de super heróis quer dizer: criando o pau mais legal de todos os tempos!

Se um episódio deve ser eleito como o melhor da série será este A Queda do Morcego.

A última vez que vimos o Batman, ele estava encurralado por uma equipe da SWAT no parque de diversões e gravemente ferido. Já o poderoso Super Homem se encontrava numa campanha contra os soviéticos.

Novamente a ação é dividida em dois. De um lado o Morcego tentando desesperadamente fugir do cerco – o que só consegue com a ajuda de Robin – e do outro o Super Homem enfrentando um inimigo de respeito, no caso uma gigantesca ogiva nuclear.

Enquanto isso em Gotham, Batman recebe um inusitado apoio em sua luta contra o crime, já que parte da antiga gangue Mutante adotou o nome de Filhos de Batman. Seus integrantes agora combatem malfeitores com modos nada civilizados ou convencionais.

Numa sequência de tirar o fôlego, Alfred sutura os diversos ferimentos de Batman, enquanto o Homem de Aço tenta impedir uma desgraça de proporções bíblicas. O kriptoniano consegue evitar milhões de mortes desviando o curso da ogiva para o deserto. Mas a manobra tem efeitos devastadores e quase o mata, além de deixar os Estados Unidos praticamente às escuras.

O pulso eletro magnético causado pela detonação parou todos os dispositivos digitais da América do Norte, causando o caos nas grandes cidades, cessando o funcionamento de aviões em pleno ar e levantando uma grande nuvem de poeira, impedindo a entrada do Sol e despencando a temperatura a níveis glaciais.

Sem energia, Gotham City enlouquece e é tomada pelo terror urbano. Saques, assassinatos, incêndios…

E quando o inferno sobe à terra, somente os próprios demônios podem levá-lo de volta. E é a figura de um Morcego recém ressucitado pelas habilidosas mãos de Alfred que toma a frente da situação.

A primeira parte de A Queda do Morcego é um legítimo gibi de super heróis. Novamente, a história do que ocorreu é contada através das lentes da TV e de depoimentos daqueles que participaram da ação.

Os depoimentos – a exemplo da reaparição do Morcego no primeiro episódio – vão crescendo em dramaticidade e suspense, revelando o desespero e loucura dos cidadãos de Gotham até a aparição apoteótica de Batman, montado a cavalo e seguido de milhares de jovens prontos a retomar a ordem sob qualquer preço.

Miller não poupou talento na criação da sequência. Em todos os episódios da série podemos apontar pelo menos um grande momento dos quadrinhos.

Mas ainda faltava um final. A reabilitação de Batman como protetor de Gotham não era suficiente.

Já uma improvável luta entre Super Homem e Batman…

Esqueçam qualquer discussão entre os dois, seja antes ou depois de O Cavaleiro das Trevas. O que temos aqui é uma briga de verdade entre um Batman fortificado por uma potente armadura e um Super Homem ainda debilitado pelos efeitos da explosão.

Ainda assim seria uma luta desigual, afinal Bruce Wayne é apenas um homem, não fosse uma inesperada intervenção de um mutilado e alucinado Arqueiro Verde.

Com apenas uma das mãos, Oliver Queen lança uma certeira flecha de kriptonita sintética contra o Homem de Aço.

E o que temos é um dos maiores paus que o Super Homem tomou em toda sua história.

Pela primeira vez víamos o Super Homem apanhando que nem gente grande. Sofrendo as consequências de uma situação que ele próprio ajudou a consolidar. Não era apenas uma briga mas sim o confronto final entre dois mundos: o que havia antes e depois de O Cavaleiro das Trevas.

A narração em off de Bruce Wayne enquanto massacra seu antigo companheiro deixa bastante claro no que ambos se tornaram. O impacto visual e psicológico daquele confronto assustou o mundo e deu a tônica do relacionamento entre os dois desde então.

Ao contrário de muitas leituras feitas sobre a emblemática luta, o confronto deste episódio final não mostra dois inimigos em potencial brigando para ver quem é o mais forte e ficará com a menina dos cachinhos dourados. O que temos naquelas páginas são dois amigos tentando se salvar, numa relação muito mais complexa do que se pode imaginar numa primeira leitura. Relação esta na qual pistas vão sendo reveladas durante toda a história e não exclusivamente neste derradeiro episódio.

Obviamente, não houve vencedores. A luta termina com um ataque cardíaco fulminante em Bruce Wayne.

A carreira de Batman – o Cavaleiro das Trevas – chegava ao fim. Seu suspiro final ocorre nos braços de Kal-El, numa cena magnífica.

Narrativamente, Miller encontrou o final perfeito para seu Batman doentio e a partir dali o mundo dos super heróis estava irremediavelmente mudado.

 

O Morcego – 25 anos depois.

Neste ano a fantástica aventura chamada Batman – O Cavaleiro das Trevas completa 25 anos de sua publicação original nos Estados Unidos.

Obviamente a data não passará impune. Se preparem para relançamentos, edições especiais, matérias exclusivas e mais uma porção de bat-surpresas.

Se o gibi de Batman merece todas as homenagens, o mundo de super heróis tem pouco a comemorar.

Como disse no começo, este Batman é ao lado de Watchmen um divisor de águas na indústria norte americana.

Foi a temática adulta dessas duas publicações e o sucesso que fizeram que abriu portas para outros gênios dos comics, como por exemplo um jovem inglês chamado Neil Gaiman.

Por outro lado, levou a indústria norte americana dos comics de super heróis a buscar desenfreadamente um novo sucesso, algo que estivesse a altura dessas publicações. Nessa busca, a indústria foi empurrada a um caminho insano, anabolizando cada vez mais seus heróis, deturpando suas personalidades e criando aberrações super poderosas e com caráter duvidoso.

A velha diferença entre o mocinho e o vilão não existia mais. Só que ao invés da profundidade psicológica apresentada no Cavaleiro das Trevas, o que temos hoje é a total ausência de valores tão comuns ao gênero.

Claro que no processo houveram ótimas histórias. Apenas para citar os exemplos mais notórios: Sandman, A Piada Mortal, O Reino do Amanhã, Marvels, A Última Fronteira…

Mas o fato é que os editores – e quase a totalidade dos leitores – entenderam tudo errado.

O segredo de O Cavaleiro das Trevas nunca esteve na violência ou numa trama ambientada num futuro doentio.

O segredo daquele Morcego reside justamente no resgate à sua essência, em fazer os leitores lerem um gibi com o mesmo sabor da infância sem se sentirem enganados ou tratados como idiotas.

Reside num roteiro maduro, onde a violência do Morcego nunca foi gratuita. Onde os motivos que o fizeram se tornar um vigilante obcecado são fundamentados em sua história pessoal.

Na humanização do herói está o sucesso de uma obra que, se não passou incólume pelas duas décadas posteriores, ao menos se tornou um clássico incontestável e fonte de inspiração eterna para as histórias de super heróis.

Não foi o sangue e sim a inteligência do golpe.

Tampouco foram as presas no pescoço mas sim o medo da silhueta de um morcego contra a luz.

Uma capacidade narrativa imortal, inerente apenas às boas histórias e que remonta aos primórdios da raça humana. Algo que não morre com o tempo porque caminha lado a lado com a humanidade. 

Foi essa capacidade que fez esse cínico homem de 38 anos se lembrar de como era ler um gibi na época em que tinha apenas 14.

 

 

 

— morreu num acidente inexplicável na Serra da Cantareira. Antes que seus familiares percebessem, já havia virado um Zumbi. Para aplacar sua fome por cérebros humanos, passa as noites escrevendo no Gibi Rasgado. Seus amigos, com medo de seu apetite insaciável, o convidaram também para escrever no Quadro a Quadro. No momento ele está sob controle.