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Existem coisas que a gente não fala.

Vou aqui reservar-me ao direito de não citar os nomes verdadeiros de meus amigos, apenas para preservá-los, porque sei que vem paulada depois. Principalmente das esposas deles.

Tenho um amigo – que chamaremos de Markinhos (com K que é pra ninguém saber quem é) – que é o fim da picada.

O Markinhos é o típico encalhado. Também pudera, não pode ver mulher!  É um tal de pegar na mão e dizer que você é muito linda pra cá, de eu sempre sonhei com uma mulher como você pra lá…

Tudo bem, também abro concessões ao romance. Principalmente se tiver intenções nada publicáveis com a moça. Mas o Marc…, digo, Markos me joga essa conversa fiada pra todas! E no primeiro dia!!!

Não é a toa que está solteiro até hoje.

Tem também o Jão. Esse se especializou em pegar mulher feia. Ok, todo mundo já pegou uma feia na vida (e não adianta apontarem seus dardos para mim meninas, é a mais pura verdade), mas o Jão forçava qualquer parâmetro com a realidade e não raro entrava no terreno do surrealismo.

Porque nem Dali tinha uma imaginação daquelas!

Todos achávamos que era porque ele ficava muito bêbado na balada. Quando estamos bêbados (e desviem suas armas, eu tô sendo sincero) todas as meninas são bonitas. Ou pelo menos dão um caldo.

Até o dia em que pegamos o João com uma senhora que, digamos, não pode ser qualificada sem que sejamos acusados de porcos chauvinistas (embora 99% dos homens não saiba de qual time esse tal porco é mascote).

Era meio dia e o Jão tava sóbrio. Não era uma questão de pinga barata, o cara simplesmente gostava de mulher feia.

Hoje o Jão tá casado. Não publicarei a foto da moça por uma questão de solidariedade ao companheiro. Ele já perde tempo demais escolhendo quais colocar no facebook…

CAPAddocrE tinha o Lilho. Bom moço, bom namorado da mesma menina desde o tempo do ginásio, estudioso e trabalhador. O menino de ouro que toda a mãe queria como genro. Pena que era extremamente infiel.

Mas não aquela infidelidade casual de adolescência. Tô falando de pegar qualquer coisa que lhe desse um sorriso. O Lilho era tão sem caráter que passaria uma cantada mais barata que a do Markos, numa mulher mais feia das que o que o Jão pegava apenas para terminar a noite bem.

Acabou rompendo o namoro de anos por causa de um rabo de saia que arrumou. Como o destino costuma ser cruel para caras como o Lilho, ele acabou casando com essa menina e aparentemente tomou jeito na vida.

Mas se eu fosse a esposa dele não confiaria. Caráter não se muda. E se ele já não tinha caráter naquela época, duvido muito que tenha encontrado algum nos últimos anos.

Só que esse tipo de coisa não se conta. Faz parte do mundo masculino e são segredos que guardamos a sete chaves. E depois convenientemente nos esquecemos de onde as colocamos.

Mas eis que outro dia vi um gibi lá na HQMix que me interessou. Comprei pra ir lendo no metrô.

Quase não chego em Itaquera, achei que tava infartando umas cinco vezes durante o trajeto.

Todos os nossos segredos estavam ali!

Não apenas um ou dois, encondidos entre as tiras, mas vários! O que pensamos, como agimos e principalmente: o que pensamos e como agimos em relação às mulheres, ao sexo ou as duas coisas juntas.

Quase pude ouvir o barulho das chaves caindo no chão…

O autor? Gilmar, cartunista renomado que, por tudo o que contou ali, sabe exatamente do que tá falando.

O nome da delação, digo, do gibi?  Ocre – Quadrinhos não recomendáveis para pessoas românticas.

A mulher feia, as traições, as brochadas (quer dizer, nunca aconteceu comigo, mas um amigo de um amigo do meu primo já sofreu com isso), tudo muito bem explicado, com texto descritivo e figurinhas ilustrando!

E o mandante de um crime desses? Uma tal de Zarabatana Books.

Humor ácido e cruel; traço ligeiro e cortante de tanta sinceridade.

Ocre é o tipo de gibi que não devia ser vendido como quadrinhos, mas como livro de terapia para homens adultos. Ou então livro de memórias. Ou ainda como livro de auto-ajuda para mulheres, assim elas leriam aquilo e pensariam duas vezes antes de botar a bola na marca do pênalti pra gente chutar.

O título avisa: não recomendável para pessoas românticas.

Vai vender horrores…

12sx

— morreu num acidente inexplicável na Serra da Cantareira. Antes que seus familiares percebessem, já havia virado um Zumbi. Para aplacar sua fome por cérebros humanos, passa as noites escrevendo no Gibi Rasgado. Seus amigos, com medo de seu apetite insaciável, o convidaram também para escrever no Quadro a Quadro. No momento ele está sob controle.