A vida é feita de momentos, diz o clichê. Quem não pensa assim está enganado.

Dois momentos em minha vida definiram e muito o que me tornei hoje, dois momentos que se unem e vem à tona sob todos os aspectos, na HQ que vou falar neste texto.

Lucas Pimenta - Primeiro berimbauNão lembro o exato momento em que descobri a capoeira, não lembro o dia exato em que o som rouco do berimbau e o balanço do caxixi soaram como trovões em minha alma, mas velhas fotografias de infância e as histórias contadas pelos meus pais remetem a uma tarde qualquer, quando tinha três anos e estava meio febrento por conta de uma gripe que não passava e que preocupava meus pais. Naquela tarde, eles resolveram me levar pra “pegar um solzinho” e contam que ao escutar o berimbau numa roda de capoeira, eu queria um berimbau para mim. A foto ao lado mostra, segundo meus pais, a loja onde compraram o instrumento que eu tanto queria.

Não sei se eles sabem mas, naquele dia, de algum modo que não lembro como, fui marcado para sempre e a capoeira, com seus fundamentos, suas cantigas, suas rezas fortes, seu jogo de pés e mãos, seus mestres de roupas brancas, de gingado incrível, me venceu.

Até hoje, o som conjunto de berimbaus, caxixis, atabaques, pandeiros e reco-reco somado a cantoria bonita como o quê, das ladainhas, que como encantamento, embalam os golpes de rabo-de-arraia, martelo, cabeçadas e rasteiras, acompanhadas das “palmas de Bimba”, que todos sabem, “é um, dois três…”, fazem palpitar mais forte o meu coração.

Assim como o famoso Mestre Pastinha, ouso fazer das palavras dele as minhas: “Eu nasci pra capoeira”.

Mas antes que você pense que entrou em um site especializado em capoeira, vamos falar dos quadrinhos; afinal, a eles devo o outro momento que marcou minha vida.

Já falei aqui no site o quanto meus pais são responsáveis por minha paixão pela nona arte, que meu pai, antecipando a escola, me alfabetizou com seus gibis preferidos.

Eu leio quadrinhos desde antes de me entender por gente e, quando isso aconteceu, eu não me afastei dos gibis. Das aventuras de Asterix e Tintim, as primeiras revistas em quadrinhos que li, pulei para o universo colorido dos super-heróis e depois fui descobrindo outros personagens e cada vez mais interessantes. Foi assim que achei a paixão por História, nas páginas de Martin Mystère. Ken Parker e História do Oeste, me levaram ao amor pelo Velho Oeste.

Os gibis me fizeram sonhar e viajar!

Fui crescendo e a vontade de escrever quadrinhos ia aumentando e ficava cada vez mais curioso em saber se existia pessoas fazendo quadrinhos no Brasil que não fosse o Mauricio de Sousa com sua Turma da Mônica ou Ziraldo e seu Menino Maluquinho.

Foi assim que em 2008, minhas duas paixões se uniram. Fiquei sabendo que um artista local iria lançar uma revista em quadrinhos em que o personagem principal era um capoeirista.

Flavio_Luiz_by Rafael RoncatoLiguei para alguns amigos e fomos ao coquetel de lançamento na aliança francesa; naquele dia descobri Flavio Luiz, cidadão baiano, de olhar calmo, bom de prosa e talento único.

Flavio Luiz já fazia quadrinhos há algum tempo e, com o álbum Aú, o Capoeirista, dava seu salto mais ousado, criava ali uma legitima “BD” brasileira, com formato e estilo de arte, seguindo a tradicional escola franco-belga.

O primeiro álbum foi um sucesso, esgotou, foi reimpresso, esgotou, foi reimpresso novamente e assim já vendeu quase de 9 mil exemplares, sendo adotado pela Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo e pelo programa da Fundação para o Desenvolvimento da Educação (Sala de Leitura).  O merecido sucesso levou o mais premiado quadrinista baiano para a capital paulista.

O sentimento é de que, infelizmente, o artista cresceu mais do que a cidade (que não respeita a arte e a cultura) suporta.

Aqui não pretendo falar de todos os seus prêmios, álbuns e ilustrações espalhadas pelo mundo a fora. Meu interesse é apenas dizer que, numa terra em que muito pouco se respeita a cultura, quando ela não vem em forma de música, não ter Flavio Luiz produzindo diariamente é constatar que em Salvador a arte tem sido assassinada.

Mas Flavio não desiste e continua sua luta: mesmo longe, seu amor pelos quadrinhos e por essa terra o fez continuar trabalhando e foi assim que, com o apoio do sistema de crowdfunding, o criador d’O Cabra, publicou o novo álbum com as aventuras do Aú, uma história que nas palavras do autor vem “recheada de mistério, peripécias e sotaque”.

Au_eofantasmadofarolAú, o Capoeirista e o Fantasma do Farol (21,5 x 29 cm, 48 páginas, colorido, R$ 55,00, editora Papel A2), com roteiro e arte do próprio Flavio Luiz, retorna ao universo do Aú e seus inseparáveis amigos, Dó, que também é capoeirista e o miquinho Licuri. Na trama, o roubo de uma antiga chave que estava em exposição no Museu Náutico da Bahia, que se localiza em um dos mais famosos cartões postais de Salvador, o Farol da Barra, leva o herói a desvendar segredos de um passado misterioso e a enfrentar cobiça do desonesto vilão, numa aventura no melhor estilo Scooby-doo, que leva o corajoso Aú e seus amigos por parte de Salvador até a região da Praia do Forte, no litoral baiano.

Ponto positivo para a paleta de cores escolhida pelo autor, numa prova de que não esqueceu como é a sua terra. As cores vibrantes, quentes, que lembram a todo instante as cores de Salvador e suas tardes ensolaradas com um alaranjado pôr do sol.

Aú segue a característica dos grandes heróis dos quadrinhos, misturado ao típico personagem brasileiro e, sobretudo, baiano. Simpático, bom coração, cheio de bravura, pronto para combater qualquer ato de injustiça com criatividade e muita capoeira.

Minhas sugestões para o terceiro volume que, espero saia dentro em breve, é que Flavio comece a colocar “easter-eggs”, para os amantes da Capoeira; seria fantástico reconhecer em seu traço o Mestre Bimba, Mestre Pastinha, Mestre Romeu, Samuel Querido de Deus, Tibiri da Folha Grossa, Onça Preta, Curió, Ezequiel e tantos outros.

O outro pedido fica para que tenhamos mais cenas de ação, com o aú esbanjando seu talento, com diversos golpes de capoeira, ao som do berimbau e da pancada rouca do caxixi.

Os fãs de boas histórias, dos bons quadrinhos e principalmente aqueles que desejam incentivar o mercado de quadrinho nacional, precisam conhecer Flavio Luiz e seus personagens. A cidade de Salvador da Bahia de Todos os Santos precisa repatriar seu filho ilustre, fazer ser conhecida sua obra mágica, cheia de mistérios, que há de ser reconhecida futuramente como memória de um tempo e de um povo.

Que todos os santos e orixás digam axé!

Salve!

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— Lucas Pimenta queria ser Martin Mystère. Não queria uma pistola de raios e sim a capacidade de enrolar uma noiva da mesma maneira...