Lembro muito bem do comentário que fiz pra minha esposa, há cerca de 01 ano e meio, quando decidia se cedia ou não aos insistentes pedidos dela e do Lucas:

– Um blog? Eu gosto de quadrinhos, mas não sei se conheço o suficiente pra manter um blog.

Dezoito meses e dois blogs depois posso afirmar com certeza: continuo não conhecendo quadrinhos o suficiente para embasar essa loucura em que me meti. Mas tenho aprendido um pouco mais a cada dia.

Mas às vezes acabo levando uma rasteira, dessas em que o tombo é feio e dói pra cacete, mas que nos ensinam coisas valiosas.

A produção de Sonhos de Uma Noite de Verão foi uma dessas rasteiras. O FIQ deste ano foi outra.

SERRARIA

Eu sei que muita coisa já foi dita e ainda há muito o que se dizer sobre esse que já está sendo considerado o melhor festival de quadrinhos ocorrido no Brasil em todos os tempos. Quase duas semanas após o seu término ainda é um dos assuntos mais comentados na internet – prova inequívoca de seu sucesso.

Então não vou aqui tomar o tempo de vocês descrevendo o que foi aquilo. O Serjão já fez isso com uma beleza e sensibilidade simplesmente fellinianas.

Vou falar sobre uma sensação, um desconforto bom, um delicioso pontapé que tomei no meio da cara e que me deixou inerte no chão. Algo que eu não esperava e que me tomou de assalto, sem qualquer chance de reação.

Mas vamos do princípio.

Quando comecei o Gibi Rasgado entendia ainda menos sobre quadrinhos do pouco que sei hoje. Mas sou um cara de teatro e se tem uma coisa que aprendemos com a prática da atuação é sacarmos rapidinho onde nos metemos. Deve ter algo a ver com decorar textos, marcações de cena ou ler Brecht, só pode.

Percebi que meu jeito de escrever, os gibis que lia e as amizades que ia fazendo me empurravam cada vez mais para uma vertente bastante específica do mercado de quadrinhos: os independentes.

Isso pode até parecer incoerência vindo de um cara que logo no seu primeiro trabalho já consegue um contrato com uma editora.

Não é. Basta ver a carreira do editor que cometeu essa temeridade pra sacar que tipo de aposta a editora está fazendo.

Mas nada do que vi ou aprendi nesse tempo havia me preparado para o FIQ.

Como bem observou o sempre coerente Paulo Ramos, a sétima edição do FIQ foi dos independentes.

E é aqui que tomo a tal da rasteira.

 

Arrombando a porta.

Se tem uma coisa que me emputece é o desprezo ao trabalho alheio, simplesmente não suporto. Devem ser resquícios do tempo em que ainda moleque vendia batata na feira ou carregava lata de concreto em construção. Também já trabalhei de garçom e fiz muito silk em isqueiro e chaveiro, caso alguém pergunte.

Trabalho é trabalho e deve ser valorizado.

Mesmo quando mal executado, o máximo que podemos fazer é apontar as falhas e sugerir correções.

O desprezo sobre a produção de outro ser humano é inadmissível e revela coisas muito mais perigosas do que simplesmente má educação: preconceito, desrespeito e um sentimento de superioridade que – a história prova – já levou a raça humana quase a bancarrota.

Entretanto, nos quadrinhos, sempre houve uma pré disposição em desprezar a produção de quadrinhos independentes.

Já falei disso no Gibi Rasgado, quando resenhei Produto, do Rafael Química, mas nunca é demais repetir:

“(…) Um conceito totalmente equivocado mas bastante difundido, atribui ao mercado independente uma suposta responsabilidade sobre a “má qualidade” dos quadrinhos nacionais, à revelia de todas as provas de vitalidade e criatividade que ele tenha demonstrado nos últimos anos.
Basta uma rápida visita aos diversos fóruns especializados em quadrinhos (em uma parte bastante especifica dos quadrinhos, é bom lembrar) para cruzarmos com palavras como “lixo”, “merda” e “mal feito” (…)”

(Produtos e Produtores – Gibi Rasgado – 14/08/2011)

Isso sem contar sentimentos arraigados em nosso inconsciente, que teimam em não aceitar nada além daquilo que veste capa ou que tenha olhos grandes.

Mas a roda gira.

E esse é o maior barato da vida.

Editoras como Zarabatana e Barba Negra começam a investir em artistas que até alguns anos atrás jamais seriam publicados. A Nemo trouxe ao Brasil obras de altíssima qualidade a ótimos preços. A Quadrinhos na Cia tem conseguido manter um nível excelente em suas publicações com um material único e uma aposta editorial ousada. De olho em mercados diferenciados, tais editoras tem contribuído para diminuir décadas de defasagem editorial do Brasil em relação à produção de outros países, sobretudo os europeus.

E os independentes, antes ignorados, acabam de arrombar a porta da frente do mercado.

E não poderiam ter sido mais barulhentos.

Deliciosamente barulhentos.

O pessoal do Quarto mundo marcou presença com diversos lançamentos.

Produzir quadrinhos, cada qual à sua maneira.

Não sei precisar o momento em que ocorreu, sei falar a hora em percebi o que aconteceu.

Fumava um cigarro no estacionamento da Serraria Souza Pinto, onde ocorria o Festival. Era sexta feira, por volta da hora do almoço e o lugar estava um pouco mais sossegado. Naquela manhã (e nos dois dias anteriores) a Serraria foi invadida por milhares de barulhentas, curiosas e divertidas crianças,a maior parte oriunda da rede pública de ensino. Chegavam em dezenas de ônibus, nos mais variados horários, todas ávidas em ver o legendário Maurício de Sousa.

Se 10% daquela criançada transformar toda aquela curiosidade e empolgação em produção de quadrinhos, daqui a dez anos Belo Horizonte será a Bélgica brasileira da nona arte.

CRIANÇAS

Acabei meu cigarro e entrei novamente no enorme saguão. Foi quando percebi tudo o que tinha que perceber.

O que vi naquele momento foram centenas de escritores e desenhistas. Gente comum batalhando pela sua arte, pela sua forma de expressão, acreditando que o fruto de seu trabalho merecia ser visto, lido, comentado. Não eram mega editoras e suas promoções tentadoras, eram trabalhadores.

Sim, haviam entre eles os famosos: o próprio Maurício, os gêmeos Moon e Bá, várias atrações internacionais, dentre as quais o simpático e gentil Cyril Pedrosa e a lenda Bill Sienkiewicz. O FIQ era deles também, mas quem dominou todo o Festival, de quarta a domingo, foram os independentes.

De produções em papel jornal, com arte e roteiros ainda incipientes, a edições como Achados e Perdidos (Damasceno – Garrocho – Ito), O Louco, a Caixa e o Homem (Esteves – Will) ou Valente (Vitor Cafaggi) – que em nada ficaram devendo (quando não superaram) lançamentos de editoras de ponta – o que se viu nesse FIQ foi uma produção surpreendente de gente que parece ter finalmente achado o caminho das pedras.

Uma galera sem medo de mostrar a cara, sem vergonha de divulgar o seu trabalho e – para espanto (e arrependimento) de muitos editores – vendendo horrores.

Acredito que daqui pra frente, as editoras terão que repensar boa parte daquilo que acreditavam como líquido e certo sobre a produção nacional. As apostas antes tidas como “certas” muito provavelmente continuarão rendendo o grosso da folha de pagamento. Mas a partir de agora, sempre que se falar em quadrinhos nacionais, os editores terão que ser menos cuidadosos em suas certezas e serão obrigados a arriscar mais.

O que antes era acusado de “mal feito” agora toma pra si uma parcela do público que está cansada da mesmice que sempre habitou as bancas de jornais. Uma galera que já percebeu que o mercado mundial é muito mais amplo do que um único gênero em cada lado do Meridiano de Greenwich.

De tanto ser desprezado e ignorado, o mercado independente parece ter aprendido a disfarçar golpe em dança e resolveu mostrar sua ginga de uma única vez.

Nada foi combinado, mas o que se viu nesse FIQ foi uma imensa roda de capoeira.

E nem é preciso ser tão perspicaz assim para saber quem jogou e quem assistiu de fora.

Não poderia existir uma declaração de independência melhor.

Nem mais barulhenta.

A galera do Achados e Perdidos

— morreu num acidente inexplicável na Serra da Cantareira. Antes que seus familiares percebessem, já havia virado um Zumbi. Para aplacar sua fome por cérebros humanos, passa as noites escrevendo no Gibi Rasgado. Seus amigos, com medo de seu apetite insaciável, o convidaram também para escrever no Quadro a Quadro. No momento ele está sob controle.