A ficção é um meio legítimo de abordar criticamente a realidade sem fazer uso de fatos reais, mas se valendo dos mesmos para se fazer pensar os problemas de nossa sociedade. Recentemente tomou os meios de comunicações uma horrenda e persistente prática, com detalhes que até mesmo a ficção teria que se valer do absurdo: 33 homens estupraram uma menor de idade. E apesar da oportuna exploração do tema pelos meios de comunicação, essa situação é, desgraçadamente, muito mais comum e presente em nossa sociedade, e nem é necessário aqui, neste texto, dar estatísticas. Penso aqui como um espaço para se rever essa violência nas narrativas de super-heróis.

Não farei aqui julgamentos sobre a ficção, justamente por sua natureza literária ela tem por liberdade explorar aquilo que temos de bom e de ruim. Inclusive é até proveitoso que o faça, para que desmascaremos qualquer tentativa de amenização de nossa sociedade, mas tomemos cuidado para que essas histórias de violências não tornem-se tão corriqueiras que percamos o assombro. Pelo contrário, devemos tê-las justamente pelo assombro. Pelo medonho. Para que odiemos. Infelizmente, nessa liberdade de uso, muitas vezes o discurso sobre a violência tem uma tenebrosa rede de justificativas, seja na ficção ou na nossa vivência real.

A violência sexual não é uma novidade nos quadrinhos, existe até mesmo antes da ascensão dos super-heróis. Eram forte temática nos quadrinhos policiais dos anos 30, e as narrativas foram abandonadas com o Comic Code, de 1954, em um critério: “sedução e estupro nunca devem ser mostrados ou sugeridos” (como pode ser visto originalmente aqui). Obviamente o objetivo não era combater a violência sexual, mas censurar o seu uso na ficção entendida para o público infantil. Com o passar do tempo, a temática voltou a existir a medida que as narrativas voltavam-se a um público mais maduro. Que dois casos, aqui, nos sirvam de reflexão: O caso Ms Marvel e o caso Crise de Identidade.

 

O caso Miss Marvel

Edição de número 17 de Grandes Heróis Marvel, pela editora Abril, em 1987, foi publicada por aqui a história Laços de Ternura, história presente na edição comemorativa estadunidense da revista Avenger de número 200, de 1980, editora Marvel. Nessa história, Carol Denvers, a Miss Marvel, torna-se alvo do interesse de procriação de um ser de outra dimensão, que vê nas potencialidades genéticas dela a qualidade materna para um descendente. Esse ser, denominado Marcus, utiliza-se de maquinaria de controle da mente para fazer Carol se apaixonar e ir a seu encontro na outra dimensão, o Limbo. Carol passa semanas sendo cortejada com flores, música e vestuário, correspondendo a um padrão de práticas normalizadas em uma sociedade sexista.

Já podemos fazer uma pausa para o fôlego aqui. Ainda que tantos símbolos estejam presentes nas narrativas, Carol foi controlada mentalmente. O ser de outra dimensão, além de um claro perseguidor, repete comportamentos padronizados de nossa sociedade, parecendo comprar a aceitação de Carol com coisas, objetos, performances. Além do fato de que Carol era uma coisa em sua busca por uma gestante. Se a narrativa já não é suficiente para amenizar o rapto, o domínio das qualidades mentais e decisórias de Carol, a cena do coito, carregada de elementos visuais alucinógenas, já faz o trabalho de tirar a violência da violência.

Carol volta para a nossa (ou deles) dimensão e tem o bebê, que por ser diferente de nossas leis dimensionais cresce numa velocidade assustadora. A reação de seus colegas, super-heróis e super-heroínas, era de tranquilidade, como se Carol tivesse, enfim, encontrado um homem para lhe contemplar com a meta social e afetiva de achar um “marido” e ter um “filho”. Fica clara a expectativa sobre a mulher e seu corpo. A ponto da Janet, a Vespa, parabenizar Carol pela boa fortuna. Carol, numa cadeira de rodas, diz: “Sorte? Vespa, pense no que acabou de dizer! Eu fui usada! Este não é o meu bebê! E eu não faço ideia de quem seja o pai dele! Se você quer mesmo me ajudar, por favor… Me deixe sozinha!”

msmarvelclaremont3Se o caso ficou confuso, com uma violência sendo amenizada na narrativa e em seu desfecho uma possibilidade de consciência, a resposta é muito simples. Diversos fóruns na internet e postagens (exemplo aqui) deixam claro que apesar dos roteiristas originais, David Michelinie e George Pérez, terem pensado em dar esse filho na edição comemorativa com outra narrativa, o editor da época, Jim Shooter, escolheu a decisão acima. Infelizmente para muitos as coisas passam despercebidas, talvez encontrando justificativas diversas, como a destituição da autonomia em prol da expectativa social sobre a mulher e seu corpo.

Na edição de Avenger de número 213, de 1981, o roteiro de Jim Shooter mostra Henry Pym (Homem-Formiga, mas aqui como Jaqueta-Amarela), desequilibrado mentalmente sendo julgado por muitos atos. Essa edição (acredito que inédita no Brasil), mostra diversos acessos de fúria do Jaqueta Amarela, inclusive quando este percebe que sua esposa, Janet (Sim, a Vespa) estava em crise com o relacionamento. Depois de diversas tentativas frustradas de reconquistar Janet, Henry culpa os Vingadores por seu desastre matrimonial e inicia um plano de agressão contra o grupo. Janet tenta impedir e é esbofeteada. Com o fim da edição, também, termina o casamento e sua presença nos Vingadores. Para muitas pessoas, ainda, reina o mito de que a doentia relação, onde a dependência feminina é visível, é assunto apenas do casal: Briga de marido e mulher, não se mete a colher.

 

O caso Crise de Identidade

O escritor Brad Meltzer, já com a visibilidade que seus livros lhe deram, produziu roteiros para os quadrinhos da DC Comics desde 2002. As vendas das edições do terceiro volume da revista do Arqueiro Verde lhe agraciaram com a chance de fazer uma minissérie mais autoral e com pretensões maduras. Com isso surgiu, em dezembro de 2004, a chocante história em quadrinhos Crise de Identidade, lançada aqui no Brasil em sete edições entre setembro de 2005 e março de 2006 (a mesma editora Panini lançou em volume encadernado em 2007).

Na narrativa, a morte de uma personagem secundária (como muitas são), Sue Dibny, casada a muitos anos com Ralph Dibny (o Homem-Elástico, não confundir com o Reed Richard do Quarteto Fantástico da Marvel), causa um alvoroço entre os membros da Liga da Justiça. Os super-heróis iniciam uma implacável perseguição acreditando que tudo que estava acontecendo era devido a um segredo que eles guardaram. Durante um evento passado, vilões invadiram a base dos super-heróis e um desses antagonistas, o Doutor Luz, fez algo monstruoso: estuprou a solitária Sue, numa cena que não poupou o leitor de coação, constrangimento e sofrimento. Uma cena que por sua repugnância preferi não usar aqui.Identity_Crisis_4A

Os membros que esconderam esse segredo foram da formação da Liga da Justiça da Era de Bronze: Gavião Negro, Arqueiro Verde, Canário Negro e Zatanna, entre outros. Justamente foi Zatanna quem, para proteger as pessoas que tinham relacionamentos afetivos com os super-heróis, apagou as mentes dos vilões e fez disso uma prática eventual. Essa prática foi testemunhada acidentalmente por Batman que teve, também, os fatos apagados de sua mente. Para muitos, então, existem violências que são melhores apagadas, ocultadas, esquecidas. Este caso mostra que a vítima não estava “em situação de risco, fora de recinto” ou mesmo pode-se culpar a sensualidade de suas roupas, nem mesmo super-heroína é. Essa justificativa cai sempre por terra. Tola, vã, necessariamente maldosa.

O drama moral presente é o de conflito entre a identidade civil, secreta, e a identidade super-heróica dos envolvidos. Mas não há como tratar apenas disso, já que o evento que motiva as decisões dos envolvidos é uma violência tão asquerosa quanto o estupro. A violência sexual não é meramente uma agressão física, pois envolve um conjunto de traumas emocionais agudos e complexos às suas vítimas, geralmente mulheres (fragilizadas não por natureza, mas pelo sexismo injusto de nossa sociedade). Produz, acima de tudo, sequelas psicológicas duradouras e repercute em sua vida como um todo.

Muitos leitores vão lembrar de outros casos (quem sabe possam usar os meios aqui possíveis para compartilhar conosco) onde o crime contra a dignidade sexual está presente. São diversos e fariam esse texto informativo e didático tornar-se um trabalho mais dispendioso e fugir de sua função, aqui, de colocar em mesa, sem rodeios, a necessidade de desconstrução dessa realidade. As sugestões, dessa vez, não serão por mero entretenimento, mas por uma necessidade de que essa violência crônica não seja esquecida como tantas vezes acontece. Principalmente para um público que, por enquanto, ainda é majoritariamente masculino.

Não faço aqui o pregão de que voltemos ao Comic Code e que tais narrativas sejam apagadas, já que isso demonstrou não afetar consideravelmente na cultura do estupro. O que cabe aqui, sim, é pensar nessas narrativas como explorações da ficção para a crítica social e a desconstrução de quaisquer justificativas para a sua existência. Essa possibilidade existe e o silêncio sobre a prática precisa ser quebrado em diversos espaços, como escolas, instituições de ensino superior, e, por que não, os meios de entretenimento.

E se depois de ler tais usos narrativos ficcionais você se conscientizou da importância dessa luta e em suas redondezas existem situações críticas, seja um super-herói, mesmo anônimo, e denuncie ligando para 180. O heroísmo é mais necessário nos dramas cotidianos e nos sofrimentos humanos e menos nas invasões alienígenas.

 

 

 

 

— BATMAN em tempo integral e Historiador nas horas vagas, busca a verdade e enfrenta vilões em ambas as ocupações!