Parte II – O dia quando ser nerd deixou de ser nerd

Todo mundo que frequentou o jardim de infância e a escola primária deve ter tido na turma um menino metido a riquinho ou mimado, que sempre aparecia com o brinquedo mais caro, mais legal, e que muitas vezes ele mesmo nem gostava tanto, mas que fazia questão de levar para a sala de aula só para fazer inveja aos amiguinhos. Lembra disso?

Pois bem, avance 15, 20 anos. Pronto! Isso é o que estão chamando de nerd hoje em dia.

E é por isso que a cada dia acho mais ridícula essa atual modinha nerd.

Hoje com a expansão da internet e popularização dos quadrinhos e da literatura, graças principalmente às adaptações para o cinema e TV, a cultura pop – até então não tão pop – passou a fazer parte do cotidiano geral, onde pessoas que antes sequer tinham interesse por qualquer desses assuntos, agora aprendem a se acostumar com eles devido ao formato usado para apresentá-los.

Nada de errado. Se parasse por aí!

Antigamente o termo tecnologia era algo associado a coisas complexas, o que despertava curiosidade por parte de uns, e rejeição por parte de outros.

Você que teve computador nos anos 90. Quem da sua casa tinha paciência de fuçar nele? Num tempo que a internet era algo novo, lento e complicado, quem gostava de computadores? Quase ninguém. Era uma máquina sem graça e que em geral ninguém queria usar muito, na qual mesmo jogar era complicado para quem não estava disposto.

Lembro do meu primeiro Pentium 100, então uma máquina potente, que vinha até com acesso a internet! Acesso esse absurdamente lento, e isso quando conseguia acessar, porque além de ser cara, a conexão era muito instável. Gastei boas horas mexendo naquele PC para ver como funcionava, e como aquilo poderia facilitar minha vida de alguma forma.

E essa é a ideia por traz da tecnologia: prover algo novo ou aperfeiçoar o já existente, para melhorar nossa vida. Ser útil.

Agora você me pergunta, “O que diabos tem tudo isso a ver isso com a discussão sobre o termo ‘nerd’!?” Tudo ué!

A denominação sempre foi fortemente ligada à tecnologia, já que entre os atributos de “descobrir como a coisa funciona”, está a parte de informática, claro. A questão é que hoje a coisa saiu muito do foco conhecimento, para o âmbito do mais caro, do ter o melhor e mostrar que tenho. Ligou-se a algo mais fútil, egoísta.

O que mais se vê por aí são patricinhas e playboys – que nunca abriram um gibi na vida, que acharam a adaptação para o cinema do Guia do Mochileiro das Galáxias fantástica, que dizem que o Episódio III de Star Wars foi o mais legal (e claro, nunca assistiram a trilogia clássica), e não fazem idéia do quão Tom Bombardil é chato! – saírem por aí batendo no peito bradando o tal “orgulho nerd”.

No twitter o que mais encontro é um bando de gente que, porque gasta mundos e fundos com produtos da maçã mordida, se acha O Nerd! Chega a ser engraçado. Sério!

Um dia desses conversando com uma amiga expliquei por que até agora não comprei nada da Apple. Simples: Porque não preciso.

É de certa forma constrangedor ver esse povo que compra iPhones, iPads e iNum-sei-o-que. Não questiono a qualidade dos produtos Mac – certamente são os melhores do mercado – nem generalizo os usuários, mas veja bem, já vi umas pessoas que tem iPhone pré pago! Para que alguém vai querer um aparelho que foi desenhado para ser usado online, sem sequer ter um pacote de dados? Ou por que comprar um macbook apenas para acessar o facebook ou Orkut!? Por quê!? É quase como comprar uma Ferrari para roda apenas 1 Km. Ou seja, para que comprar algo que vai MUITO além de suas necessidades? Status, oras.

O que antigamente era simplesmente uma questão de interesse por assuntos específicos, tornou-se uma briga para mostrar quem tem mais, quem sabe mais. Isso não me parece muito saudável.

Acho muito bacana quando, depois de ver um filme ou uma série, a pessoa se interessa por um personagem, e assim passa a comprar a HQ para conhecê-lo melhor. O mesmo com um livro. Acredito que todo incentivo à boa leitura é válido.

Triste é se deparar com uma cena que já tive o desprazer de presenciar, quando na fila do cinema um menino se gabava entre os colegas dizendo ser nerd, e que era fã de Wolverine. O problema eram os absurdos que ele falava com uma propriedade impecável. A certa altura da conversa, comecei a interagir com o grupo e perguntei qual fase do baixinho canadense ele gostava mais: a época em Madripoor, quando ele perdia o adamantium (e o nariz), a atual…? E eis que percebo… Tudo o que ele conhecia era dos filmes. Aí não pô! Assim está errado!

É disso que estou falando!

Com o passar do tempo, a coisa mudou de um jeito, que até criaram denominações, nerd, geek… Já li um monte de coisas explicando a diferença de um e do outro, que na verdade geek é uma subespécie do gênero e coisa e tal. E o que eu acho? Sinceramente? Grande merda!

Por isso que de uns anos para cá eu não acho que exista um orgulho nerd, mas uma vergonha alheia!

Sinto muito pelos que abriram a página acreditando tratar-se de um post que promoveria o tal do Dia do Orgulho Nerd (ou Dia da Toalha). Mas não há o que comemorar, apenas a lamentar.

Acho tudo isso uma baboseira para todo mundo sair por aí proclamando uma cultura que mal conhece. É triste…

Acha-me chato? Quem você conhece que leu a coleção do Douglas Adams? Quantas pessoas? Viu!? Se alguém não entende o básico, o motivo por que foi escolhida esta data, nem o nome – dia da TOALHA –, como pode se sentir orgulhoso!?

Por essas e por outras que ainda prefiro ser um Nerd Old School ranzinza a ser um projeto malfeito de replicante feliz.