Parte I – Nerd Old School

Quem tem seus 25 anos ou mais, e já gostava de quadrinhos, cultura pop ou era apenas diferente da maioria na infância e adolescência, certamente se lembra de como a vida escolar era difícil.

Antes de termos como Bullying entrar na moda, a velha dinastia escolar masculina era igual em todo o lugar:

Havia os populares que, diferente dos estereotipados americanos, não eram jogadores do time da escola, mas sim aqueles que com 15 anos já bebiam, fumavam, dirigiam, tinham amizade com pessoas mais velhas, alguns eram mais ricos, pegavam as meninas mais bonitas – e faziam as outras suspirarem – e claro, também arrumavam encrenca com os outros; não porque seriam capazes de bater, mas porque se o embate realmente ocorresse, ele nunca estaria sozinho.

Abaixo desses, tínhamos a “massa”, onde se encaixavam os intermediários; pessoas comuns, que se divertiam, tinham seus grupos de amigos formados, mas que viviam suas vidas querendo ser como a “elite”, contentando-se em ter seu nome lembrado pelos mais conhecidos e tomando cuidado para não manter qualquer ligação com os diferentes.

E nessa camada diferente, encaixava-se qualquer um cujos hábitos fossem dissonantes da maioria. Aqui eram encontrados desde aqueles desatentos aos princípios de higiene, aos então nerds e CDFs – que nem sempre eram grupos coincidentes, apesar de muitos nerds tirarem ótimas notas.

Os CDFs, normalmente eram sujeitos cuja forma física variava entre chassi-de-grilo e rolha-de-poço. Eram aqueles que nunca seriam convidados para festinhas, passavam o intervalo sozinhos ou no máximo conversando entre si. A maioria dos CDFs que conheci, assim o eram por causa da pressão dos pais, ou porque eram meio obsessivos e competitivos; não conseguiam ficar feliz com um 7 ou 8, e 9 já era um prêmio de consolação – só para deixar claro, no colegial isso mudou um pouco, conheci alguns crânios que eram muito populares.

Os CDFs em geral iam do lixo ao luxo quando chegava época de prova. Ao contrário do estereótipo, eles não eram humilhados pelos mais populares ou pelas meninas mais bonitas – ok, algumas vezes só –, eram apenas ignorados. Pelo menos até o momento dos exames, quando se tornavam as pessoas mais requisitadas, e em geral, passavam cola, ajudavam no trabalho dos outros, almejando uma ascensão social (sim, a idéia de sociedade já tem início na base de formação da criança), que claro, nunca acontecia. E se os tais prodígios se recusassem a cooperar, a retaliação viria agressiva, podendo ser ele ainda mais segregado, como ser ridicularizado em público.

Esses que tiravam as melhores notas, em geral eram muito mais esforçados que genuinamente inteligentes. Eram criaturas cujo prazer de tirar boas notas certamente devia lhe render bons frutos em casa – mas confesso que não sei bem, porque nunca fui lá muito esforçado no colégio… nem na faculdade… nem na pós… enfim…

E finalmente, os nerds.

Nerd era um termo altamente pejorativo na minha época. Muitas vezes usado para designar pessoas que iam bem nas provas, ou que tinham um acúmulo muito grande de informação que os outros achavam desinteressante, infantil, ou só idiota. Coisas como tentar entender por que diabos o Império não extinguiu os Ewoks quando teve a chance!?

Enquanto o popular estava preocupado em fazer alguma coisa para aparecer, os CDFs estavam passando horas em cima do livro para entender o porquê do por quê ser separado e no final de um questionamento, a massa estava interagindo entre si; o nerd estava ocupado jogando RPG, abrindo o vídeo cassete para ver como ele funcionava, ou simplesmente passando o tempo vendo Bane mandar Bruce Wayne para uma cadeira de rodas.

Não é que o sujeito não se misturava, o problema era que ninguém aguentava conversar com ele por muito tempo, pois seus assuntos eram no mínimo específicos demais, e poucas pessoas se interessavam por tais assuntos. Ele falava de outras coisas, óbvio, mas cedo ou tarde o assunto descambaria para algo diferente, e nem todo mundo gostaria de correr o risco.

Durante o ginásio e o colegial fui um legítimo espécime da raça nerd – na faculdade já caí para Geek, quando o termo entrou em moda. Usava camisetas com temas de vídeo game, quadrinhos e filmes, torrava todo meu dinheiro em comics, não perdia a estreia de filmes de heróis, conseguia passar mais de 24 horas trancado no quarto jogando vídeo-game ou desenhando (saindo apenas para comer, beber e usar o banheiro, é claro), e quase fui atropelado algumas vezes porque da mesma forma que beber não combina com direção, ler não combina com andar.

Naquela época quase ninguém se interessava por quadrinhos. E se alguém era pego lendo, já era visto de forma diferente, pois numa idade em que todos querem parecer mais maduros, ler histórias de super-heróis era, para a maioria, indicativo de imaturidade, por se tratar de “coisa de criança”.

E não preciso nem falar que depois que mataram uma guria num cemitério e atribuíram a culpa a meninos jogando RPG, tentar explicar que jogo de interpretação de papéis divertia e ajudava a aguçar a criatividade, era uma tarefa impossível.

Talvez meu texto faça a coisa parecer simples, e tornar o nerd alguém especial. Longe disso.

O nerd não chegava a ser excluído, era só alguém incompatível com a maioria.

Não gosto de falar que uma criança é nerd, porque em tenra idade, o ser humano ainda está tentando entender o mundo e formando o próprio caráter, então aos poucos começa a descobrir o que lhe interessa mais, o que chama mais sua atenção, e finalmente, refinando seu gosto pelas coisas: música, arte, esporte…

Portanto, é na adolescência que a pessoa começa a exercitar suas escolhas e aprende a conviver com elas. É quando passa a abraçar aquilo pelo qual se decidiu antes, ou mudar de idéia, seja porque escolheu errado, descobriu alternativas melhores, ou mesmo por não acreditar mais naquilo.

 Ser diferente quando se é adolescente, tem lá suas conseqüências. E confesso, eu achava muito mais divertido quando ser nerd era underground.

Apesar de muitas vezes ser olhado, por gente ignorante, como um esquisito, ser a minoria tinha lá suas compensações.

Numa idade em que todos querem expressar sua individualidade, eu era mesmo diferente, e genuinamente! Pois ao contrário da maioria, não me esforçava; simplesmente me interessava por coisas diversas do lugar-comum.

Enquanto via colegas fazerem coisas contra a vontade sob influência alheia, ou mesmo andar com pessoas que não gostavam, mas que eram “legais” só para se auto-afirmar perante um grupo, eu ia ler, jogar, assistir…

O legal de ser nerd, era a paixão que tínhamos pelas coisas! Quem, como eu, cresceu lendo quadrinhos, sabe a emoção que era ir a uma banca, comprar, e depois correr para casa ler – quando já não devorava a história no caminho. Enquanto lia, ria sozinho, se angustiava, mandava um “Caralho! Não acredito!”. Ou então, ao ler a última página ficava desesperado para chegar a edição seguinte, querendo descobrir que aconteceria a seguir.

Naquela época, ninguém tentava mostrar para os outros o quanto sabia sobre algo. A coisa fluía naturalmente. Quando você se interessa por algo, aprender sobre aquilo é um prazer, e não uma luta. E era justamente isso que eu sentia ao discutir com alguém sobre o que nos interessava: não havia vencedores, éramos apenas um bando de garotos tentando provar um ponto de vista de uma forma saudável e divertida. Sem competição.

A maior parte dos meus amigos na época gostava de HQ e sci-fi. Não que eu excluísse do meu círculo quem não simpatizasse com a ideia, mas porque normalmente, naquele período, se alguém tivesse “coragem” de ler uma edição de X-Men no colégio, era no mínimo uma pessoa sincera, que não tinha muito do que se envergonhar a respeito de si mesmo.

Isso porque fazia muito mais sucesso entre as meninas um sujeito que soubesse tocar violão, do que um moleque vendo um monte de desenho de gente de colant caindo na porrada.

E como todo mundo sabe, não importa o quanto um menino goste de algo, meninas sempre estarão no topo de qualquer lista! A questão é o quanto cada um se importava em ceder de si para impressionar (ou não) uma garota – conselho esse, válido para muito marmanjo aí.

Outra coisa que parecia mais interessante naquele tempo era que – apesar de tratar-se de um comércio, onde atrair novos clientes seria importante – em geral as histórias contínuas respeitavam muito mais o leitor. Acredito que havia a preocupação em manter o universo coeso para que aquele que apreciasse as histórias há tempos tivesse em sua memória os acontecimentos anteriores, e os seguintes fossem consequências daquele.

Não se apagava toda uma cronologia, ou se ignorava a história sem antes explicar o que aconteceu, ou o porquê de aquilo acontecer – por mais ridícula que fosse a explicação. Mesmo a saga do clone ou as crises da DC, por piores ou melhores que fossem, tinham a preocupação de ao menos demonstrar os caminhos tomados para que se chegasse até ali, e como seria dali em diante.

O que hoje parece diferente, vez que com a expansão das páginas para outras mídias – cinema e TV, por exemplo – comics tornaram-se mais populares, forçando os editores a criarem mais séries independentes, universos paralelos, e não raro, promover mudanças drásticas nas séries regulares, muitas vezes desconstruindo histórias que levaram décadas para se consolidarem.

Como disse, o legal de ser nerd na época, era a paixão que envolvia esse universo. E me desculpem os entusiastas de hoje, mas cada vez menos vejo esse sentimento nos olhos dos nerds new school.

E aqui o nosso mundo começa a ruir…

A seguir, " O dia quando ser nerd deixou de ser nerd" – parte II