Existe um fantasma nos quadrinhos nacionais. Um monstro impiedoso que já foi responsável pelo fim antecipado da carreira de muitos roteiristas e desenhistas iniciantes.

Não tente nominá-lo, você não conseguiria. Simplesmente porque ele é conhecido por muitos nomes: Superman, Batman, Homem Aranha, Capitão América…

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Não está entendendo nada?

Então vamos lá.

Somos brasileiros.

Nossa bola é redonda como a inglesa e mesmo sem qualquer tipo de investimento em esportes na educação fundamental, produzimos craques a todo momento. O volleyball, outra bola de gringo, aqui começou como brincadeira na praia e nossa seleção já é a mais vitoriosa da história.

Nossa música, com seu sotaque africano e português, surpreende o mundo a todo momento. Até nosso roquenrou tem uma pegada totalmente diferente. Somos tão inusitados e criativos que até rock conseguimos cantar em português.

Nosso cinema, já faz um par de décadas, parece ter reencontrado o caminho do qual se desvirtuara após o Cinema Novo (não por culpa dos artistas, mas de uma política de governo autoritária, lembremo-nos).

Até a nossa corrupção…bem, vocês entenderam.

O fato é que brasileiro é bicho criativo, sempre foi. Não tem nada que não aporte nestas terras que a gente não consiga arrastar para um bom sambão, encher a cara de caipirinha e levar pra nadar pelado na praia.

Porque é assim que somos: um país capaz de se apropriar de qualquer manifestação cultural de qualquer parte do mundo e imprimi-la uma característica nossa, com cores e cheiros tipicamente brasileiros.

E antes que você ache este resenhista um xenófobo, aviso que gente muito melhor que eu já havia percebido isso na primeira metade do século XX e chamou tal característica pelo apropriado nome de Antropofagia.

Garrincha.ferNão somos o país do futebol, somos o país do drible, da ginga, do improviso que desconcerta qualquer zagueiro. Não somos os mais vitoriosos no vôlei porque gostamos de competir, somos os mais vitoriosos porque para nós ainda é uma brincadeira de praia. Nosso samba cabe numa caixa de fósforos ou numa orquestra, mas ainda assim trará o cheiro de uma roda de partido alto.

Somos assim, simplesmente brasileiros. E se o resto do mundo quiser ficar chateado com isso, paciência. Não sou eu que vou me desculpar por ter nascido no Brasil.

Mas nos quadrinhos…

Não dá pra entender. É uma constatação: somos consumidores de comics, gostamos de super heróis.

Não é o mundo ideal, mas é o que temos aí.

Avançamos muito nos últimos anos e nossa produção está cada vez mais diversificada, atraindo um público que gosta de qualidade e multipluralidade, como deve ser em qualquer mercado do mundo.

Mas a porta de entrada da maior parte de nossos leitores ainda é o universo de super heróis.

Então por que diabos nunca conseguimos emplacar um super herói nacional?

As últimas tentativas bem sucedidas remontam às décadas de 50 e 60 (Vigilante Rodoviário, Capitão 7, etc.), ou seja, o surgimento do Homem Aranha e Cia parece ter tido um impacto muito maior do que simplesmente obrigar a DC a rever a forma que ela produzia quadrinhos. Para o bem e para o mal, atingiu outros mercados.

Não vou nem tentar citar aqui o que tentamos produzir nos últimos 40 anos porque isso seria desrespeitoso com os milhares de artistas que batalharam (e batalham) pela indústria nacional ou com as centenas de personagens bem bacanas que existem por esse Brasil afora. Mas a coisa simplesmente não vira.

Não me entendam mal. Sou a favor de um mercado nacional habitado por Colins e não por pseudos Frank Millers. Mas não conseguir emplacar um único super herói num país que os adora?

A influência dos universos DC e Marvel é tamanha que nos obscurece até o senso crítico. Não importa o quão medíocre seja a fase pela qual aquele mercado passe em seu país de origem, ainda assim o achamos melhor do que o que produzimos por aqui. E qualquer tentativa de criação de uma personagem nos mesmos moldes que a indústria norte americana esbarra numa resistência feroz do público e dos editores, independente de sua qualidade.

E se você ainda não ligou para seu advogado para tentar descobrir uma maneira legal de me processar por tudo que disse até aqui, explicarei o motivo da longa introdução: Danilo Beyruth, o cara que simplesmente inverteu essa lógica.

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Danilo monopolizou as principais categorias do Prêmio HQMix deste ano com o seu (excelente) Bando de Dois. Modestamente e sem fazer alarde, Beyruth produziu um dos melhores gibis de aventura de nossa história, que conquistou os mais diferentes públicos e foi unanimidade na crítica especializada. Um feito notável.

E qual a relação disso com os super heróis? Simples: Danilo também é o criador do Necronauta.

Se você leu o primeiro volume da série (publicado em 2009 pela HQM Editora) ou é um cara antenado com o mercado independente, sabe do que estou falando.

Se você é leitor de comics e nunca chegou nem perto de uma edição nacional que não fosse a Turma da Mônica na sua tenra infância, vou pedir desculpas antecipadas ao autor para uma pequena comparação: Necronauta  é tão bom quanto Hellboy.

Necronauta é um condutor de almas perdidas, um tipo de “salva vidas” dos mortos, que auxilia os recém desencarnados a resolverem assuntos inacabados e irem em direção à luz.

Ideia simples.

Tão simples quanto um cara que é picado por um inseto radioativo e assume suas características ou um extraterrestre superpoderoso que voa.

E é a simplicidade que faz de Necronauta um baita personagem.

Danilo, nas histórias publicadas de forma independente entre 2007 e 2009 (depois compiladas no volume da HQM), nos apresentou um personagem ético, motivado por ideais nobres, sério em seus propósitos mas ainda assim bem humorado, bom de briga e sempre disposto a fazer o bem.

necro02Trocando em miúdos, Danilo nos apresentou um herói.

Em histórias curtas, com roteiros simples (o que não quer dizer que sejam simplistas), o autor ia tocando em feridas da sociedade moderna como depressão, ganância e violência infantil. Tudo com o pano de fundo mais tenebroso e explorado na história da humanidade: a vida após a morte.

Suas histórias – pela própria natureza da morte, que acontece em qualquer lugar com qualquer um – não possuem geografia específica, ainda que enxerguemos a todo momento características tipicamente brasileiras.

E ao não colocar seu personagem em lugar nenhum, Danilo criou um herói muito melhor que seus pares do norte. Necronauta não defende uma nação (ou a ideia de uma nação) fingindo que está defendendo o bem contra o mal. Os valores defendidos pelo herói são outros. Não é o “bem” – geralmente branco e bem sucedido – contra o “mal” – que pode ser negro, porto riquenho, afegão ou seja lá qual for o inimigo da vez do americano, digo, do herói.

O que Necronauta defende é o respeito ao outro ser humano e em como suas atitudes podem te levar ao abismo ou a redenção.

E o melhor: faz isso em tom de aventura, numa narrativa tão ágil e envolvente que você nem percebe que está lendo esse tipo de coisa. Ou seja, exatamente o mesmo expediente que os comics exploraram à exaustão desde que o cara de capa ultrapassou um  edifício com um único salto pela primeira vez.

Danilo Beyruth, com isso, inverte uma lógica arraigada em nosso país há décadas e que o dramaturgo Nelson Rodrigues  tão bem definiu como complexo de vira-latas e prova que podemos sim criar personagens interessantes nos mesmos moldes dos comics norte americanos.

 

Necronauta Vol. II: O Almanaque dos Mortos

Ao terminar de ler Bando de Dois, ainda no metrô, sob o impacto daquela aventura vertiginosa, lembro de ter pensado: esse cara nunca mais vai desenhar o Necronauta, não depois disso.

Para a sorte dos leitores eu sou um péssimo vidente.

A Zarabatana Books acaba de lançar Necronauta Vol. II: O Almanaque dos Mortos (112 páginas – R$ 32,00).

necronautacapabgSe o primeiro volume era um álbum que compilava diversas histórias feitas em épocas distintas, onde o autor ainda estruturava o Necronauta e seu universo, obedecendo às limitações físicas das primeiras edições (histórias de 08 páginas, feitas inicialmente para folhas A4 dobradas), este segundo volume, planejado para ser da forma que é, consegue a proeza de melhorar o que já era excelente.

Danilo mostra em Necronauta o roteirista diferenciado que é e sabe conduzir com habilidade os momentos de ação, humor e drama. Com isso produziu histórias memoráveis.

O gibi começa com a épica Eterno Entardecer, onde um menino que acaba de morrer trava um delicioso diálogo com um antigo e esquecido deus. Sensível e inspiradora, quase não nos mostra o herói em si, mas já dá o tom do álbum. Um belo cartão de visitas.

Outro destaque é Sala de Espera. Dividida em duas partes, separadas entre si por duas outras histórias (por uma razão bastante específica, mas vai ter que ler para entender, contar estragaria o impacto), a história se passa num universo facilmente identificável e possui duas abordagens narrativas distintas. A primeira, no melhor estilo trash movie (com direito inclusive a uma homenagem ao papa George Romero), é terror da melhor qualidade. A segunda parte é a história mais bonita do gibi. Lidas na sequência em que estão distribuídas (não cometa o pecado de trapacear, você irá se arrepender) resumem tudo o que é o Necronauta.

Mas também há espaço para o bom humor.

Danilo é um roteirista sofisticado. Ele não se contenta com uma situação divertida.

Sabe aquela ótima piada que você já ouviu de um gozador profissional e se mijou de rir, mas que quando seu cunhado contou no último natal conseguiu a proeza de torná-la tão burocrática que acabou rindo sozinho no final?

Pois é, Danilo não é o seu cunhado. Ele não se contenta exclusivamente com uma situação divertida, ele sabe contá-la por imagens.

Basta conferir a sensacional Love Story ou a divertida Disputa de Jurisdição, onde nosso herói contracena com outros condutores de mortos, ampliando as personagens do universo de Necronauta.

Não bastasse as excelentes histórias, temos também que enaltecer o ótimo projeto editorial do gibi.

A acertada decisão da Zarabatana em manter o formato do primeiro álbum traz ao leitor aquela sensação inconfundível de continuidade, algo inestimável a colecionadores de gibis. Outro elemento que reforça essa sensação é a apresentação da última história em cores, como se fosse um bônus, artifício também utilizado no primeiro volume.

E por falar em bônus, os leitores irão se deliciar com eles.

Passatempos (sim, cruzadinhas!) e ilustrações do Necronauta por outros artistas revelam ao leitor exatamente o que é o gibi: algo pra você se divertir até cansar. Ou seja, uma edição pra lá de caprichada, com histórias deliciosas sobre um personagem excelente.

Quer saber o que eu acho?

Que o Super Homem vai ter que tirar férias depois dessa surra que levou do Necronauta.

— morreu num acidente inexplicável na Serra da Cantareira. Antes que seus familiares percebessem, já havia virado um Zumbi. Para aplacar sua fome por cérebros humanos, passa as noites escrevendo no Gibi Rasgado. Seus amigos, com medo de seu apetite insaciável, o convidaram também para escrever no Quadro a Quadro. No momento ele está sob controle.