1990s-Working-in-Studio-TO-CA_zps982aec2aNa onda da nova versão cinematográfica do Capitão América, que volta aos cinemas com o filme Capitão América – O Soldado Invernal, resolvemos fazer uma breve biografia sobre o seu idealizador gráfico.

Jack Kirby é o rei, o maior artista que já existiu nos quadrinhos americanos, e ponto.

Alguns souberam contar histórias de maneira melhor, outros compor cenas com mais refino, poucos tiveram um poder narrativo capaz de revolucionar uma mídia…mas quase nenhum conseguiu unir todas essas qualidades e construir uma carreira épica ao criar personagens e tramas tão arrojados e a frente do seu tempo. Basta ver o sucesso da Marvel Comics nos cinemas desde o início do século, atraindo milhões com seus deuses, mutantes e Vingadores, em especial o Capitão América, uma das primeiras criações de Jack, cujo espírito heróico ainda cativa mesmo após 73 anos de nascimento, em meio ao som e a fúria da Segunda Guerra Mundial.

cap-1Nascido em 1917 em Nova Iorque, o jovem Jacob Kurtzberg, judeu de origem austríaca cresceu desenhando, inspirado em revistas como “Wonder Stories” e artistas como Hal Foster (Príncipe Valente) e Alex Raymond (Flash Gordon). Nos anos 30 começou sua carreira profissional, trabalhando nos estúdios Fleische, onde fazia as sequências para o desenho “Popeye”. Logo se uniu a Joe Simon como freelancer para a Timely Comics, predecessora da Marvel, dando origem a aventuras do jovem franzino Steve Rogers, que após receber a fórmula do Super Soldado se converte em símbolo patriótico dos EUA na luta contra o nazismo.

A capa de estréia, na qual o Capitão salta em um golpe sobre Adolf Hitler, deixava clara a mensagem; os aliados viriam com tudo, protegidos pelo escudo icônico que ainda não era redondo, mais próximo de um design de cavaleiro medieval, um paladino.

Foi sucesso instantâneo, e por 10 edições a dupla inovou com o poder narrativo de Jack, rompendo o esquema clássico de seus predecessores ao criar páginas duplas, sequências dinâmicas de ação e apresentando um tipo de herói diferente dos demais, um embrião do que viria a ser o universo Marvel dos anos 60.

Logo rompeu com a Marvel e se dedicou a DC Comics, onde criou o personagem Sandman ( anterior ao Morpheus de Neil Gaiman) e a Legião Jovem.

Captain-America-113pApós a guerra, Kirby retornou, se deparando com um mercado diferente do que havia; sem a motivação da propaganda antinazista, logo os heróis deram lugar a outros gêneros, como o terror ou o faroeste, e após a publicação de “Sedução dos Inocentes” de Fredric Wertham surigu à autocensura e a crise na indústria dos comics.

Então vieram os anos 60 e tudo mudou; Jack, no auge de sua maturidade artística retornou a Marvel, onde junto a Stan Lee criou a mais longa e complexa sequência narrativa que jamais existiu, um universo onde as histórias se interligavam e os personagens participavam de aventuras em comum, seja nas selvas de Wakanda, nos abismos da Zona Negativa ou Manhattan, o panteão colorido e de visual arrojado impactou com grandes batalhas, máquinas de design alienígena e arquitetura surreal.

Thor, Hulk, os VingadoresQuarteto Fantástico e Galactus, o Capitão América, que retornou após décadas no gelo, entre outros personagens icônicos, trazem o arrojo visual tão característico das obras do rei.

Ele simplesmente reinventou um mercado fadado á estagnação, e estudiosos hoje afirmam que sua influencia na criação da Marvel foi muito mais extensa do que se supunha, elaborando diálogos, histórias e personagens como o Surfista Prateado. Contudo, essa contribuição foi reconhecida de maneira tardia pela editora e seu parceiro Stan Lee, a quem sempre foi dada mais ênfase. (Recomendo a leitura de “Marvel Comics – A história Secreta”, de Sean Howe, publicado no Brasil pela Editora Leya. Para conferir a resenha, clique aqui.).

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Já no início dos anos 70, Kirby, após sua segunda saída da Marvel e retorno a DC, consagrado pelos artistas e fãs, se dedica a criar sua obra-prima, aquela que seria a síntese de sua imaginação, e até hoje mal compreendida e explorada. Os Novos Deuses e O Quarto Mundo são uma versão sofisticada e lisérgica de Thor e os asgardianos, um novo mundo nascido do Ragnarok onde dois planetas rivais orbitam em uma guerra eterna.

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Referências a mitologia judaica de suas origens (A Fonte, O pai Celestial), aos horrores do nazismo (os poços de Apokolips) e a segunda guerra permeiam “Os Novos Deuses”, onde a liberdade de imaginação do artista surpreende com idéias como a “Caixa Materna”, espécie de I-Phone biotecnológico inteligente capaz de inúmeras funções.

KirbyDesigns-eternals-splash_zps21133963No Brasil, as histórias do Quarto Mundo jamais foram publicadas com o devido cuidado, e mesmo as tramas escritas por John Byrne nos anos 90, fiel as concepções do Rei, também ficaram incompletas.

Tudo indicava um novo estouro de vendas, mas o mercado, eufórico com as novas idéias de Jack, superestimou os pedidos, solicitando milhares de exemplares a mais que o comum, que encalharam nas Comic-Shops decretando um fim precipitado a algo tão promissor.

Mesmo assim, a imaginação delirante do rei se desdobrou em outras mídias, e até mesmo em Star Wars podemos ver referências entre a Fonte e a Força, ou os vilões Darkseid e Darth Vader em seus desejos de cooptar os filhos rebeldes para o Lado Negro da Força ou a Antivida.

Após essa experiência, Kirby retorna uma vez mais a Marvel ao final dos anos 70, em sua última grande contribuição. Baseado nas teorias de Eric Von Daniken em “Eram os Deuses Astronautas”, os Eternos são uma raça de superseres criada pelos misteriosos celestiais para combater os Deviantes e proteger em segredo a terra, influenciando antigos povos como os Incas ao longo da história.

Mais uma saída conturbada da Marvel, que sempre se recusou a lhe dar o  devido crédito pelo seu papel e então migrou para uma área promissora que crescia com a expansão da  televisão como meio de lazer – as animações.

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Desse período, destaque para as artes conceituais para o filme “Lord of  Light”, cuja proposta englobava um parque de diversões, pouco conhecidas dos fãs e que por acidente foram utilizados na operação da CIA que resgatou reféns no Irã, presentes no  excelente filme Argo, (o qual peca por não fazer a mínima referência ao rei!)

 Nos seus anos finais Jack Kirby continuou trabalhando incansavelmente, dando vida a novos mundos, forjando lendas modernas, até falecer em 1994, deixando não um simples legado, mas um universo de histórias e criações para seus fãs e artistas do mundo inteiro.

Foram mais de 8.000 páginas desenhadas somente para a Marvel, e infelizmente, após anos de batalha na justiça, a família Kirby conseguiu reaver apenas 2.000 desse total. As demais foram perdidas, surrupiadas, jogadas no lixo, fruto da política mesquinha da editora com o maior de seus artistas.

Influenciou gerações de seguidores, e encontramos na obra de Mike Mignola, Walter Simonson, John Byrne, Jim Lee e tantos outros nomes, referências ao seu estilo.

Hoje o cinema transpõe para milhões de pessoas a arquitetura reluzente de suas cidades, os uniformes de texturas elaboradas e designs exóticos, as cores intensas dos raios de poder, mas principalmente revelou o caráter extremamente humano presente em seus personagens, cheios de dúvidas e triunfos, glórias e tragédias.

Como cabe apenas a um rei sonhar.

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Fontes de consulta:

http://www.dinamo.art.br/podcast/136/

http://www.guiadosquadrinhos.com/artista/jack-kirby/1

No link abaixo está toda a obra de Kirby, vale a pena conferir.

http://www.marvelmasterworks.com/resources/kirby_chronology2.html

http://en.wikipedia.org/wiki/Jack_Kirby

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— Hugo Canuto é arquiteto e quando o tempo permite, ilustrador. Interessado por mitologia e literatura antiga, se apaixonou pela Nona Arte aos nove anos, ao ler "O Cavaleiro das Trevas" e desde então não largou mais, formando uma biblioteca que preenche seu quarto e serve de cama, mesa e travesseiro.