Dominic Cooper as Jesse Custer; Preacher _ Season 1, Gallery - Photo Credit: Matthias Clamer/AMC

Dominic Cooper as Jesse Custer; Preacher _ Season 1, Gallery – Photo Credit: Matthias Clamer/AMC

A intenção desse post é fazer um balanço geral da primeira temporada de Preacher. Eu já tinha feito uma análise do episódio piloto aqui, mas senti necessidade de debater tudo o que se sucedeu. Para animar o leitor, comunico que mudei de opinião. Não quanto ao primeiro episódio, que continuo achando ruim e equivocado, mas quanto a série como um todo. Comunico que me diverti muito! Pois é, naquele primeiro post falei em milagre. Mas se Jesse Custer pode falar com O Senhor, te digo que milagres acontecem…

Par quem não sabe do que eu estou falando, Preacher é uma série de TV baseada na HQ homônima de Garth Ennis e Steve Dillon. Conta a história de Jesse Custer, um Pastor residente da cidade de Annville, que um belo dia recebe uma entidade chamada Gênesis, filha de um demônio e de um anjo. Jesse então partirá em busca de Deus para uma conversinha, acompanhado de seus inseparáveis amigos Tulipa e Cassidy. Acredito que esta seja a sinopse da história. Dito isso, neste texto falarei de um ou outro personagem conhecido dos leitores da hq, mas que não considero spoiler para quem já conhece essa sinopse. Sempre que houver possíveis spoilers, avisarei antes e ocultarei o spoiler desta maneira.

A série começou com o tal piloto equivocado. Personagens descaracterizados, diálogos que não convencem. E cenas de pancadaria com câmera lenta para convencer o leitor que Jesse Custer não é um pastor, e sim um lutador de Kung Fu. Pois bem, o seriado se dá bastante liberdade para adiantar algumas coisas da história, e faz questão de deixar claro que Jesse é um pastor incomum, que Cassidy é um vampiro malandrão e que Tulipa é tão durona quanto os dois.

 

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O problema é que isso não funciona no primeiro episódio, ao ponto que o espectador não cria uma primeira impressão dos personagens para se surpreender com esses fatos que definem as personalidades do trio protagonista. Na HQ escrita pro Garth Ennis, até há cenas onde Jesse e Cassidy derrubam vários adversários na mão. Mas tudo depois de uma boa apresentação de cada personagem, para deixar claro que eles são muito mais do que durões porradeiros. E o primeiro episódio parecia descambar para um seriado de ação. Deu vontade de usar A PALAVRA bem usada.

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É verdade que uma coisa muito comum no mercado de séries americanas é produzir um episódio piloto para convencer o estúdio. E depois produzir o resto. Pois bem, parece que Seth Rogen e os outros produtores de Preacher realmente fizeram este primeiro episódio só pra convencer seus "superiores". Por que depois a série muda de tom. Ainda bem. Deixam de tentar emular Tarantino ou Robert Rodriguez para buscar uma identidade própria. Veja bem: ainda há ao longo do seriado cenas inspiradas em Pulp Fiction e Cães de Aluguel. E nos trashs movies do Rodriguez. Mas para de parecer emulação por que o seriado consegue encontrar um caminho próprio. Que bebe da hq homônima, bebe de Rodriguez e Tarantino e bebe de muitas outras referências também.

A coisa começa a melhorar já no segundo episódio, quando somos apresentados aos dois anjos que vem buscar Gênesis, os queridos Deblanc e Fiore. E que injeção de humor cassinegro que vem com eles! Confesso que foram os dois personagens que mais gostei nesta primeira temporada. Os atores conseguiram criar personagens divertidos, com cenas que nos fazem rir pela estranheza, ao passo que mantém uma essência interessante sem se prender a hq. A cena de luta entre os anjos e Cassidy é minha cena preferida até agora. SPOILER: Com direito a Cassidy usando uma Bíblia para espancar os anjos. Os episódios que se sucedem continuam apresentando cenas divertidas e diálogos melhores, especialmente quando involvem a dupla angelical. A aparição de um Serafim também é divertidíssima, assim como a maioria das cenas com Mr. Quinncannon. Além disso, Cassidy está muito bem caracterizado, mesmo sem seus óculos escuros na maioria do tempo. Tulipa não se equivale, mas vai mostrando seu valor com o tempo. E assim os episódios começaram a ficar mais equilibrados. Ainda não dava pra dizer onde os produtores queriam chegar, mas a narrativa bizarra já divertia. Além disso, a trilha sonora se revelava espetacular. Cheia de folk e country clássico, Johnny Cash, Willie Nelson. Clica aqui e ouve aí!

No entanto, nem tudo são flores. A liberdade dada aos condutores do seriado por vezes acrescenta diversos personagens e cenas que não fazem sentido algum. Talvez para acrescentar a pecha de 'nonsense' como marketing, talvez para dar um clima "estamos nem aí", com a desculpa "por que sim" ou "a história permite". Mas a verdade é que dentro do universo e das regras que criou, Garth Ennis é coerente (pelo menos não consigo me lembrar de nenhuma vez que não tenha sido). Já no seriado, o roteirista contratado criou alguns personagens que de repente deixam de agir com a essência que eles mesmo estabeleceram. Há uma certa cena entre o "casal" Emily e Miles que eu não me conformo até agora. Porém esses "roteirismos" (como se diz por aí) não prejudicam tanto o andamento da série e irritam muito menos do que quando o mesmo acontece no seriado Walking Dead, produzido pelo mesmo canal (AMC). É válido lembrar que Walking Dead já tem muitas temporadas a mais, enquanto Preacher está apenas na primeira. Meu medo era os produtores perderem a linha já nessa primeira temporada, principalmente porque como disse antes: ainda não dava para saber onde queriam chegar.

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E aí veio o Season Finale. Uma mistura boa da produção brasileira 'O Auto da Compadecida', com o que de melhor se apresentou no seriado até então. O ritmo do episódio é alucinante, cheio de reviravoltas que surpreendem até leitores da hq. E é uma delícia quando você é surpreendido. Por que demonstra que os produtores acharam o tom, criaram uma identidade própria e conseguem trabalhá-la muito bem aqui. SPOILER: Assim como no título do post, o episódio culmina em Jesse convocando O Senhor para tirar satisfações. E toda a expectativa é correspondida. Pelo menos a minha. Jesse Custer está entre nós, senhores e senhoras! E vamos lá, deixar o Texas rumo a segunda temporada.

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— Guido queria ser um personagem de histórias em quadrinho. Depois de ler Will Eisner se contenta em ser um personagem de uma história sem quadros.