20110521_NoturnoEstava concentradíssimo numa planilha lá no trampo quando ouvi a pergunta: quanto no Barça e Real?

Bolão de futebol é coisa comum num banco. Campeonato Paulista, Carioca, Gaúcho, Brasileiro e até Europeu! Pensei por 03 segundos, “O Barça acabou de perder a Copa do Rei pro Real, não vai perder a 2ª seguida”

– Bota aí: dois a zero pro Barça!

E ainda cravei: dois gols do argentino.

Só eu e o Cidão acertamos: R$ 88,50 para cada um.

Já dizia com seu sotaque carregado a velha Joana, minha bisavó, na sabedoria dos seus 97 anos: “Dinero de juego suço (sujo), não pode ficar en las manos…”. Como não sou de desobedecer os mais velhos – ainda mais os mortos – separei os R$ 3,00 do investimento original e torrei os R$ 85,50 restantes.

Metade foi gasto na Cacau Show, numas caixas de bombons bem bacanas pra Cátia – a minha patroa. A outra metade foi pro vício.

E já que era o Messi que estava pagando, por coerência comprei um gibi argentino: Noturno. E todo o humor da situação acaba aqui.

Noturno (Zarabatana – Coleção Fierro nº1 – R$ 41,00) não é um gibi comum, pelo menos não por essas bandas de cá. Primeiro porque foi feito por um argentino e no geral temos a péssima mania de achar que só os americanos e japoneses fazem quadrinhos – o talentoso Salvador Sanz – segundo porque não estamos acostumados aos quadrinhos de lá.

E nosso desconhecimento da produção vizinha pode causar algumas surpresas.

Mafalda é uma velha conhecida, mas a invasão de quadrinhos como Macanudo (Liniers)  e a revista Fierro (que traz um monte de gente bacana) nos mostra o quanto ainda podemos aprender com nossos hermanos. Os quadrinhos argentinos são ótimos e lhes transferir a velha richa existente entre Brasil e Argentina seria – para se dizer o mínimo – infantil.

E de infantil esse belíssimo álbum da Zarabatana não tem absolutamente nada. Noturno conta a história de uns pássaros grandões, vindos de um mundo antigo e estranho e que pretendem invadir a terra. Para isso trocam de corpos com uns humanos que não sabem direito o que está acontecendo.

Satisfeito? Então pode parar de ler a resenha porque o gibi é isso mesmo.

Não está satisfeito né? Então vamos lá…

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A história toda gira em torno de Lucia e Lucio, dois espectadores de um show de magia, que não se conheciam até subirem ao palco como voluntários para um dos quadros do espetáculo: serem transformados em pássaros de fogo.

O Mágico – um cara estranho, com penas no pescoço e uma máscara em bico – promete magia de verdade.

A partir daí teremos uma história alucinante.

A magia, é claro, era verdadeira e Lucia e Lucio começam – cada um em sua rotina – a viverem experiências inexplicáveis. Lapsos de memórias e sonhos estranhos, com ovos servindo de incubadora, pássaros assustadores e árvores gigantescas. Os sonhos transformando-se em pesadelos numa velocidade vertiginosa. E tão rápido quanto, os pesadelos viram realidade.

Num preto e branco de traços belíssimos, Salvador Sanz nos leva a um passeio pela moderna Buenos Aires, sempre na companhia de Lucio ou Lucia. E nos mostra como uma vida comum, de jovens comuns, pode ser uma maldição quando o fator sobrenatural é introduzido.

Um raça antiquissíma flerta com os humanos há tempos. Suas intenções são postas à mesa: tudo faz parte de um plano para uma invasão em massa.

De um lado uma força primitiva, feroz, inteligente e mágica, personificada por pássaros enormes, com anatomias bastante adequadas às suas personalidades.

Do outro dois jovens que não se conhecem mas estão ligados por uma maldição que os coloca em meio a um turbilhão de acontecimentos que pode mudar os rumos da humanidade.

No meio, ora transitando num lado, ora no outro, um ser mágico que não é nem homem, nem pássaro, com inseguranças bastantes humanas e uma ansiedade crescente em retornar ao seu mundo; um cara normal, com uma vida banal, mas que sonha em se tornar um daqueles bichos também (tal qual as menininas de hoje, que sonham com a vida eterna prometida em Crepúsculo), uma força militar que sabe mais do que aparenta e milhares de outros jovens estigmatizados com a mesma desgraça de Lucio e Lucia.

E referências à cultura pop, dezenas delas. Do O Exorcista a O Enigma de Outro Mundo, passando por Aliens  e Um Lobisomem Americano em Londres, mas sem nunca perder de vista Borges, Cortázartoda a enorme tradição argentina na literatura fantástica, Noturno é um espetáculo aos fãs de uma boa história.

Até o final – aparentemente água com açúcar – é uma homenagem aos velhos filmes B da décadas de 50, com sua mudança de situação surpreendentemente divertida.

Mas Noturno não é um gibi engraçado, sua mistura de sexo, horror, realidade e fantasia se equilibram e se transformam durante a leitura, nos divertindo e nos causando medo.

É fantasia de verdade, de um jeito bom e com um senso de humor estranho. Repugnante e atrente ao mesmo tempo, esteticamente Noturno se aproxima muito dos belíssimos álbuns europeus das décadas de 70 e 80, como Os Imortais (Bilal), Drunna (Serpieri) e Ranxerox (Libertarore e Tamburini), sem nunca desonrar a própria tradição argentina no gênero, imortalizada pelo El Eternauta (de outro gênero – a Ficção Científica – mas ainda assim o maior expoente da fantasia argentina e uma das melhores coisas produzidas nos quadrinhos em todos os tempos).

A Zarabatana Books merece todos os elogios pelo excelente projeto editorial que vem fazendo. Os quadrinhos argentinos são uma atraente opção de leitura e esse Noturno em especial não é o tipo de gibi que se vê todo dia.

Tá… O Messi também merece um certo crédito, afinal foi ele quem pagou a conta.

— morreu num acidente inexplicável na Serra da Cantareira. Antes que seus familiares percebessem, já havia virado um Zumbi. Para aplacar sua fome por cérebros humanos, passa as noites escrevendo no Gibi Rasgado. Seus amigos, com medo de seu apetite insaciável, o convidaram também para escrever no Quadro a Quadro. No momento ele está sob controle.