Boa parte da minha formação educacional veio de um colégio católico. Lá o ensino fazia-se presente, mas não o foco. Lembro que tinhamos cerca de apenas 40 minutos semanais das chamadas "aulas de religião" que consistia em, logo no início das aulas, rezar um ave-maria e um pai nosso. Logo depois, a professora fazia um breve sumário do capítulo do dia, este integrante de uma série de livros-didáticos em que cada volume resumia uma grande história da Bíblia.

E foi em um desses volumes em que fiquei sabendo da história de Noé e da sua arca.

De lá pra cá, todas as vezes em que me deparei com as várias versões desta história, Noé era retratado como um velho de barbas brancas, não fazia grandes menções sobre como os pecados dos homens interferiam no ambiente a ponto do Deus Vingador do Antigo Testamento lançar sua fúria a ponto de dizimar toda a humanidade.

(adimito, a parte mais interessante dessas aulas era colorir as imagens; um pb com traços bem cartunescos virava um verdadeiro convite à coloração)

E até mesmo nos anos em que fui coroinha, tal história ainda me causava uma certa curiosidade justamente pelo pouco que descrevia dos arredores de Noé. Quem eram esses pecadores? Como era Terra pré-dilúvio?

E eis que um belo dia, pelos arredores da internet, deparo-me com uma capa em tons quentes. Um sol escaldante presente ao fundo de uma terra desolada e um homem no auge da sua maturidade contemplava o cenário pós-apocaliptico que se revela à sua frente. Logo abaixo, o título marcava sua presença: "Noé"

 

"Opa, uma ficção-científica pós-apocalíptica em outro planeta", pensei eu. "Noé deve ser apenas uma simples referência à figura bíblica", continuei.

A história mostrou-se nada daquilo que imaginei. Principalmente ao perceber que o roteiro era assinado por Darren Aronofksy.

Nesta história, Noé é um chefe de família que mostra dignidade em consumir apenas o necessário para a família do que a natureza tem a oferecer. Um chefe de família sábio e justo, fazendo questão de tratar dos animais feridos que encontra pelo caminho. A Terra pré-dilúvio mostra-se como um lugar praticamente infértil. A Babilônia e sua população são retratadas como um antro sordido refletindo a mesquinhez por uma torre que tenta alcançar os céus.

Para quem não conhece Aronofsky, o homem veio do mundo do cinema e através de trabalhos como Pi e Cisne Negro, ele já consegue imprimir seu traço caracteristico através das imagens. Em Noé, ele realiza um trabalho por demais interessante com o artista Nico Henrichon. O traço, junto com as cores, traz uma  certa sensação de sinestesia: a sede causada pelo deserto insalubre, um sol escaldante, as areias grudando nos pés…

 

 

Noé causou uma felicidade em mim, não pela história, mas sim pela certeza de que mesmo uma trama com mais de dois mil anos de idade, ainda é possível contá-la das mais diversas formas possível. 

O primeiro volume de Noé foi publicada pela editora francesa Le Lombard em outubro de 2011. O segundo volume está previsto para sair no dia 07 de outubro com um preço de 14,99 Euros.

Confira no video abaixo um trailer da obra:

— Adalton nasceu no último dia de uma lua cheia, mas acha que isso não tem nenhuma relação com a sua vida; começou comprando quadrinhos por puro modismo - uma edição da Turma da Mônica parodiando Jurassic Park; sua primeira compra consciente foi a edição nº 01 de Batman: A queda do Morcego, ainda formatinho. Acredita que irá terminar a graduação em Letras antes da catástrofe de 2012 e daqui até lá está estudando parte das traduções intersemióticas das peças de Shakespeare já produzidas. E nos interlúdios, tenta produzir roteiros a partir idéias rabiscadas em antigos pedaços de papel.