Fui surpreendido pouco tempo atrás com um lançamento nas bancas de jornais no mínimo inusitado: Marvel Terror, volume 01.

Comprei. Não é sempre que temos lançamentos do gênero nas bancas. Não precisei mais do que uma folheada…

Mas não satisfeito li, já sabendo o que ia encontrar. E não me decepcionei. Ou melhor, não me decepcionei na já esperada decepção daquela primeira folheada.

O que vi foram monstros anabolizados, muito mais próximos da linguagem dos games do que da monumental tradição americana em quadrinhos de terror. Esse Marvel Terror sequer faz juz à tradição da própria Marvel, que na década de 70 lançou seu inesquecível Tomb of Dracula, no Brasil publicado pela Block Editores (no seu selo Capitão Mistério) e pela Abril numa curta série.

Uma história pretensiosa demais mas que saciará a sede de sangue de nossos adolescentes, acostumados a monstros alterofilistas e vampiros bonitinhos. Mas que passará ao largo para aqueles que, como eu, já possuem mais de 35 anos.

E a razão é simples: somos de uma época em que quadrinhos de terror davam medo de verdade e as bancas de jornais eram um lugar escuro… e perigoso.

Se você não quiser saber segredos sórdidos de seus pais e tios pare a leitura agora. Essa matéria contém spoilers sobre a vida da molecada dos anos 70.

Tudo começou com o meu pai. Não, não estou falando daquela noite em que ele e minha mãe…

Estou falando de alguns anos depois daquela noite, mais especificamente das noites de sexta feira.

Enquanto minha mãe dormia, eu fingia dormir. Por volta das onze da noite meu pai chegava sorrateiro até a minha cama e dizia em um tom quase inaldível:

– Vem, vai começar.

E íamos os dois assistir às saudosas Sessões da Meia Noite. Quase todo canal de TV aberta reservava esse dia e horário para filmes de horror e mistério e era assim que chamávamos tais sessões. Produções baratas, sangue de catchup, histórias insanas e muita mulher seminua. Os filmes de terror das décadas de 70 e início dos 80 eram adoráveis.

Claro que fiquei viciado. Eu e todos os meus amigos de escola. Discutíamos os filmes, comentávamos sobre aquela gostosa que mostrou uma banda do seio enquanto saia do chuveiro, pouco antes de ser morta por um demoníaco monstro deformado, e mais um monte de absurdos que achávamos o máximo.

Não havia MSN, Orkut ou Facebook. As discussões se davam no sábado, nas brincadeiras de rua, no domingo, antes da missa (quanta heresia) e durante a semana, na escola.

E para a desgraça eterna da minha família, numa viagem ao interior, para acalmar meu gênio irriquieto e irritante, meu pai me presenteou com gibi de terror, na verdade uma Calafrio…

Aquilo foi um desastre. À partir dali eu – e depois meus amigos, por minha influência – estávamos viciados não apenas em filmes de terror como também em gibis…

E a Banca do Seu Marcos era o nosso cemitério.

Quem não viveu isso e está acostumado a ver tantos super heróis e gibis que se lêem de trás pra frente não pode imaginar o que eram as bancas naquela época.

Havia gibis de super heróis? Sim, numa guerra absurda entre as editoras RGE e Abril (a Abril acabou ganhando pouco tempo depois).

Mas o que mais havia era sangue em preto e branco.

Sobrenatural, Histórias do Além, Pesadelo, Tumba de Drácula, Mestres do Terror, Calafrio e mais um monte de almanaques, especiais e títulos que pipocavam todos os meses e sumiam 03 edições depois. Mas sobretudo havia Kripta e Spektro, as duas melhores revistas de terror publicadas no Brasil em todos os tempos.

Não acredita? Dá uma olhadinha no preço delas nos sites de leilão. Aproveita e me avisa se achar alguma das primeiras edições a menos de 40 contos.

Kripta publicava material norte americano, das extintas Creepy e Eerie. Spektro começou como Dr Spektro, publicando material importado, mas poucas edições depois só havia material nacional – e de altíssima qualidade.

Não há como comparar a dinâmica, sangrenta e vazia Marvel Terror com qualquer edição dessas duas publicações. O que você encontrava ali não era apenas um punhado de víceras decorando as paredes. Você a toda hora trombava com gênios como José Ortiz e Richard Corben, Shimamoto e Colin. Você lia histórias que o assombravam durante semanas, que o faziam caminhar por cantos claros quando o Sol se punha. Até hoje aquele material é surpreendente e assustador.

E ficávamos ali, folheando as revistas a procura de mais uma decapitação, mais um peitinho (e como o Colin adorava desenhar peitinhos). De vez em quando o Seu Marcos botava a gente pra correr, mas no final das contas acho que até ele se divertia com aquilo.

Mas a Spektro (e a própria Editora Vecchi) acabou. A Kripta se foi pouco tempo depois. A Calafrio e a Mestres do Terror preencheram a lacuna por dez anos, mas não resistiram a tantos planos econômicos e a uma inflação que já fazia o gibi sair na banca com uma margem de lucro muito menor do que o necessário a sua sobrevivência.

E pouco a pouco os títulos foram rareando. Os que tiveram uma sobrevida viram sua qualidade gráfica (e de conteúdo) definhar. No fim, o Morto do Pântano e o cético jornalista Jonas Beltron não resistiram a Batman e Homem Aranha.

E é por isso que a iniciativa da Panini não me empolga. É uma revista pobre demais para a gigantesca tradição norte americana. E a mim, que vivi de perto o último suspiro do gênero mais brasileiro e original de nossos quadrinhos, Marvel Terror não passa de uma diversão de ônibus – e apenas se eu já tiver descolado um banco pra ir sentado, não vale o esforço do equilíbrio se estiver em pé.

Mas será que ainda existem lugares escuros nos quadrinhos?

Sem dúvida. A magnífica série 30 Dias de Noite, de Steve Niles e Ben Templesmith, ainda que já mostre sinais de cansaço, é um ótimo exemplo. Pixú (dos gêmeos Moon e Bá em conjunto com Vasilis Lolos e Becky Cloonan) não decepciona. Sempre temos Hellboy, apesar do preço, e a Editora ARX, selo da Saraiva Editorial, vem publicando um excepcional material espanhol.

E de vez em quando somos violados com coisas realmente supreendentes, de qualidade muito acima da média, como é o caso de Necronauta do Danilo Beyruth, O Vampiro que Ri de Suehiro Maruo, Mesmo Delivery do Grampá e o terrível, assustador e belíssimo Prontuário 666, de Samuel Casal, contando os anos de cárcere do Zé do Caixão.

Mas ainda é pouco pra semear a escuridão. Situação que tende a mudar com o olhar cada vez mais atento sobre a produção nacional, o que inevitavelmente trará em sua esteira ótimas histórias de terror.

Mas até lá continuaremos vendo vampiros seduzindo jovens adolescentes. Deus! Os caras se alimentam de sangue, já imaginou o hálito das figuras?

Ou então lendo sangrentas histórias de Lobisomens vítimas de conspirações governamentais e com crises de consciência… 

 

 

 

 

 

— morreu num acidente inexplicável na Serra da Cantareira. Antes que seus familiares percebessem, já havia virado um Zumbi. Para aplacar sua fome por cérebros humanos, passa as noites escrevendo no Gibi Rasgado. Seus amigos, com medo de seu apetite insaciável, o convidaram também para escrever no Quadro a Quadro. No momento ele está sob controle.